Maria Ignez Barbosa
 
           
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Textos e Entrevistas - Revista Wish
01 de janeiro de 2006
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DESTINO SÃO PAULO

Com seu fascínio e complexidade, a capital paulista desperta paixões, mesmo de cidadãos do mundo.

Enquanto de medo tanta gente sai, eu chego.
Há dois anos em São Paulo, depois de uma vida mundo a fora, filha e mulher de diplomata. Carioca, casada com paulista, foi fácil prever que por estas bandas um dia baixaria. Numa São Paulo que conhecia de ir e vir, de visitar a sogra, onde tivemos primeiro um pequeno flat e depois um apartamento em Higienopolis onde moraram os filhos universitários, mas onde nunca permanecera de uma enfiada mais de dez ou quinse dias. Vir a Sao Paulo, de Brasilia onde morei 17 anos ou do Uruguai aqui pertinho era como ir a Nova Yorque, ou seja aquela excitação das novidades, compras, eventos, galerias, restaurantes e amigos paparicando e fazendo você mais feliz.
Pois hoje aqui estou.
Pela primeira vez morando em uma não Capital. Foram Roma e Ottawa em solteira, Rio de Janeiro formada e trabalhando, Londres recém casada e dois filhos nascendo, Brasilia acompanhando de perto as turbulências politicas e econômicas do país e rápidos tres anos em Montevideu. Depois foram cinco e meio em Londres como mulher de Embaixador e por fim quase cinco em Washington, aquela cidade meio provinciana mas que, enquanto a China permitir, será a capital do mundo e onde se janta com pessoas com o poder de inventar guerras ao bel prazer.
E aqui estou.
Depois da paixão que foi viver a “Swinging London” dos Beatles e Mary Quant, quando passeava pela Kings Road com meu filho pequeno no carrinho guarda-chuva, mais facil de entrar nos provadores das Bibas.
Depois da alegria de voltar com meu marido para a “cool Britannia” pós Thatcher e em pleno Tony Blair para representar o Brasil e viver na mesma casa em que meus pais moraram quando ali foram Embaixadores quase vinte anos antes.
Depois de Washington onde também foi uma emoção habitar a casa da Embaixada onde meus avós moraram nos anos 30 e meus pais nos 80.
Depois de uma vida mimada em matéria de cidades e experiências, sem frustrações e com a sensação de dever cumprido, o que de melhor desejar senão voltar ao Brasil, a novos projetos, a uma casa própria, a uma família acrescida e reunida?
Voltar ao Rio de Janeiro era meu sonho de menina morando fora. Ainda na faculdade, já trabalhando em jornal e jurando jamais casar com diplomata me acreditei finalmente em casa. Nada. Apesar de que a minha nova realidade, o casamento com um diplomata, prenunciasse vida errante ou a estranha Brasilia, acho que foi ai que, inconscientemente, começou a minha estória de amor com São Paulo. Com novo ponto de referência podia outra vez sonhar com a volta ao Brasil.
Já pensando num futuro paulista bem que procurei que meus filhos se interessassem em aqui fazer faculdade. E não é que aqui se encontram, formados, casados, trabalhando e transformados em pai e mãe de minha tres netas?
São Paulo me devolveu não só a patria e os filhos, que na carreira vão nos abandonado e que abandonamos, as vêzes um pouco antes da hora, mas também a idéia do não provisório, de permanência.
Engraçada a sensação de chegar a São Paulo com bilhete de mão única. Sempre que aqui vinha era com data e hora para voltar a algum lugar.
Ao me deparar com cada nova casa, apesar do prazer e do entusiasmo com que me dedicava em arrumá-las, sabia que estava de passagem, que aquela moradia, cidade e pessoas eram temporárias. De Washington vim muitas vêzes a São Paulo inspecionar as obras de reforma da casa que compramos depois de vender a de Brasilia, onde vivemos tantos anos entre idas e vindas. Foi um desafio colocar toda uma acumulação de moveis, objetos, livros e quadros ou seja ,uma vida inteira , num espaço finalmente definitivo.
Mas e o medo? Sei da realidade da violência. Digo sei dentro dos limites do saber da experiência vivida, misturada às defesas com as quais nos armamos. Sabemos todos. Cada um a seu modo. Impossivel o contrário. Vejo também a obrigação de pensarmos soluções para além do levantar muros e da blindagem de carros. Que os sustos recentes nos tenham despertado.
Vejo também uma cidade cheia de energia, bruta, que agride e abriga, que instiga e estimula e que impõe modos e costumes como acontece em Londres ou Nova York. Em São Paulo sinto-me mais em Londres do que quando em Washington. Eventos mil. Só falta ao dia o tempo que o transito nos rouba. Tem drama. Tem sim. E uma cidade que esconde sua beleza.
Até obra de artista grafiteiro já possuo.
Com menos obrigações do que como Embaixatriz, encontrei em São Paulo a opção de fazer ou não, e a liberdade de participar. Me vejo escrevendo para o Estado de São Paulo sobre design e sua história, juntando duas areas as quais me dediquei ao longo da vida, jornalismo e decoração. Sem pressa. Sem bilhete de aviaõ no bolso.
Em São Paulo ouço português. Falo português. Nem acredito. O medico é brasileiro, o dentista também. A professora de pilates se importa com a dor no seu pescoço. Sabe-se da vida alheia. Temos amigos, velhos e novos. Temos escolha. Sem a nostalgia de um passado que aqui nao vivi e que talvez sentisse se morasse hoje no Rio. Em São Paulo, “never a dull moment”.