Maria Ignez Barbosa
 
           
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Textos e Entrevistas - Casa Estadão
 
05 de setembro de 2010
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Mecenas modernos

Marie-Laure e Charles de Noailles reuniram o melhor da arte e da arquitetura nas casas que mantiveramem Paris e Hyères

A avó de Marie-Laure Bischoffsheim foi a inspiração de Marcel Proust para a duquesa de Guermantes, uma aristocrata que é personagem recorrente na obra Em Busca do Tempo Perdido. A mãe,em segundas núpcias, casou-se na presença de Frédéric Mistral, o grande poetada Provence que deu nome ao vento que lá bate forte no verão.
E foi nessa atmosfera que, em 1902, nasceu Marie-Laure, em Arles. Órfã de pai aos 2 anos, cedo herdou uma grande fortuna. Muito jovem, ela conheceu o poeta Jean Cocteau, que logo a fascinou. Foi ele quem a introduziu ao círculo do Conde de Beaumont,
Me cenas sofisticado que reunia artistas eintelectuais de vanguarda nesses agitados anos
entre guerras. Havia festas à fantasia, o jazz entrava em cena, Poulenc e Milhaud despontavam como músicos. Picasso, Derain, Braque, Buñuel e Man Ray eram convivas. Chez. Beaumont, Marie-Laure foi retratada por Picasso e fez-se amiga de Serge Lifar, revelação dos Ballets Russes. Foi também ali que conheceu o futuro marido, o visconde Charles de Noailles, nascido em 1892, de família cujas origens remontam às cruzadas medievais. Como ela, se interessava por tudo o que fosse moderno. Almas afins,casaram-se em Grasse, em 1923, nos jardins da casa da mãe de Marie-Laure. Como presente, ganharam um terreno em Hyères, ao pé de uma colina, onde ergueram a Villa Noailles, hoje fundação e onde recentemente foi inaugurada uma exposição permanente sobre
a vida do casal.
Enquanto aguardava a construção da casa e a primeira filha, o casal instalou-se em Paris. Entre festas, jantares e muita boêmia, eles divertiam-se percorrendo os salões da famosa Exposição Internacional de Artes Decorativas de 1925. Encontravam os criadores e deles encomendavam de tudo um pouco. Foi quando resolveram, com Jean Michel Frank, repaginar sua residência na Place des États-Unis. O resultado foi um décor que junta luxo em minimalismo e é até hoje cultuado pelos apaixonados do métier. Em1964, arevista Connaissancedes Arts,decretouser“acasa-chave para a história do gosto no século 20”.

A casa de Hyères. A Villa Noailles, em Hyères, foi edificada entre 1924 e 32. Embora não fosse comum na França, o casal desejava uma casa moderna. Pensou-se em Mies van der Rohe, que, por excesso de trabalho em países menos sacrificados pela guerra, recusou o projeto. O segundo convidado, Le Corbusier, por aparentar inflexibilidade, foi logo descartado. Sobrou para Robert-Mallet-Stevens, que aos 37 anos realizava
seu primeiro trabalho importante, a casa de Paul Poiret, jamais concluída por causa da
falência do costureiro.

Apesar de encantado com o jovem profissional que acabara de idealizar ambientações geométricas para um filme, Noailles não deu carta branca a Mallet-Stevens. Deixou claro que, a seu ver, uma casa modernista deveria utilizar os meios contemporâneos para o máximo de rendimento e conforto e, portanto, nenhuma comodidade poderia ser sacrificadaemnome da forma.

Depois de algumas versões e muitos embates, chegou-se a um plano satisfatório. Cinco quartos, sala de estar, sala de jantar, espaço especial para a confecção de buquês de flores, terraço e banheiro para cada quarto. A higiene se enquadrava
nos princípios de modernidade e o dono da casa poderia dormir no terraço anexo ao quarto em noites de calor, em cama suspensa, o brade
Pierre Chareau. Nas paredes externas, uma cal branca especial foi usada por Mallet-Stevens para, em lugar de destacar a casa na paisagem, dar ao todo um aspecto monolítico. O belvedere, que fazia parte do projeto, depois de pronto desagradou a Noailles, que sugeriu ao arquiteto que tirasse fotos pois iria demoli-lo.

Ao longo de oito anos de obras, foi agregado um anexo com quatro quartos para hóspedes e áreas de serviço, construída a piscina com teto de tijolos de vidro e encomendado a Gabriel Guevrekian um jardim triangular, com colorido inspirado nas pinturas de Sonia e Robert Delaunay e nos moldes do que ele fizera na Esplanada dos Inválidos para a exposição de 1925. Um ginásio esportivo, que virou cenário de filme de Man Ray, foi outra adição à vila. Vários artistas foram chamados para desenhar móveis, vitrais, luminárias.
A mesa de jogos foi criada por Charlotte Perriand e os banquinhos geométricos, por Blanche Klotz. Os vitrais foram confiados a Louis Barillet, as luminárias, a Jean Perzel e ao próprio Mallet Stevens, autor do desenho das espreguiçadeiras ao redor da piscina, modelo ainda hoje reproduzido.

Para a sala dos buquês, o holandês Theo van Doesburg, editor da revista holandesa De Stijl, que deu origem a um movimento artístico, concebeu mural geométrico colorido.
E outro holandês da De Stijl, o arquiteto Sybold van Ravesteyn, se inspirou no Mondrian da coleção do casal para uma série de móveis ultra geométricos. A presença
de cadeiras Wassily e mesas de Marcel Breuer evidenciam a abertura dos Noailles ao
que vinha de fora.

Picasso, Chagall, Braque... Paralela à obra em Hyères, prosseguia em Paris a modernização da residência particular do casal. No salão principal, paredes cobertas com pergaminho e um espetacular armário antropomórfico de André Groult somando-se ao clima propositalmente low profile. Biombos imensos de terracota foram instalados no pavilhão do jardim e Pierre Legrain concebeu para um dos quartos da casa umacama recobertacom pele de serpente. Apesar de Jean Michel Frank preferir paredes sem quadros, teve de aceitar que Picasso, Chagall, Léger, De Chirico, Braque, Brancusi e Ben Nicholson
ali se acomodassem.

Os Noailles, sempre libertos de preconceitos de gênero ou de qualquer ordem, flertaram de alma aberta com todos os meios artísticos, do cinema à musica e ao balé. Mesmo no pós-guerra, quando novas políticas de Estado surgiram favorecendo as artes e os artistas e o papel do mecenas se tornava de certo modo obsoleto, Marie-Lauree Charles mantiveram intactas a aurae a fama. Generosamente, cederam manuscritos para a Biblioteca Doucet e obras de arte para o Museu Nacional de Arte Moderna de Paris. Seguiram apoiando e recebendo em casa os amigos artistas e sendo reconhecidos como os grandes patronos da arte moderna na França na primeira metade do século 20.

Ciente de seu valor histórico e artístico, em 1973, três anos depois da morte repentina de Marie-Laure, a cidade de Hyères adquiriu de Charles de Noailles a famosa villa de Mallet-Stevens visconde,quemorreuemGrasse,em1981,não teve a alegria de ver, alguns meses depois, em novos tempos de Mitterand, a suspensão da censura de quase meio século ao filme L’AgeD’Or,de seu amigo LuisBuñuel.(www.mariaignezbarbosa.com/ nese@estadao.com.br)