Maria Ignez Barbosa
 
           
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Textos e Entrevistas - Casa Estadão
 
30 de dezembro de 2007
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DESIGN QUE DESAFIA O DESIGN

Ettore Sottsass, aos 90 anos, um dos expoentes do desenho italiano do pós-guerra, prioriza em seu trabalho a emoção, a sensualidade e o humor.

Um filosofo ou anarquista do design, é o que no mínimo se pode dizer do arquiteto Ettore Sottsass, hoje com bem conservados 90 anos e que ao longo da vida nunca deixou de compulsivamente pensar. Pensa quando está ao telefone, no banheiro, sentado à mesa de jantar, em casa no sofá, exceto em seu atual estúdio, a Sottsass Associati, onde, segundo ele, pensar não é possível pois ali há gente demais circulando.
Foi em Insbruck, na Áustria, de pai italiano e mãe austríaca que nasceu em 1917 essa sacro santa figura do design, hoje o decano dos designers italianos e que, depois de formado pela Universidade Politécnica de Torino, dedicou a carreira a rever o que chamava de pensamento estático em relação ao design fundamentado no funcional, e a sacudir o que ele dizia serem as hierárquicas estruturas burocráticas da industria. Ettore é sem duvida identificado como um dos maiores expoentes do design surgidos na Itália no pós guerra e suas idéias sobre o passado e o futuro são estudadas e até hoje levadas em conta por jovens designers de sucesso como os contemporâneos Ronan e Erwan Bourollec.
Radical, dizia acreditar que o futuro só vai começar quando o passado tiver sido completamente esquecido, desmantelado e que a sua lógica tenha sido reduzida a apenas pó e nostalgia. Filho de um arquiteto de renome, e tendo em casa só ouvido falar de funcionalismo na arquitetura e no design, Ettore, desde os seus inícios na carreira, batalhou para que o design fosse menos racional e sim mais excitante, sensual e divertido. Tinha interesse em criar objetos que desafiassem o então design italiano que ele via como girando em torno de status e dinheiro. Segundo ele o design tem de servir como meio para se discutir a vida, a sociedade, a política, o erotismo, a comida e o próprio design. Nessa linha, sua produção na verdade sempre beirou o limite do anti- design, constantemente questionando e repensando idéias e processos.
Sobre a guerra de 45 onde lhe foi dado servir num campo de concentração na Iugoslávia, comentou: -Não vi nada de corajoso ou de gratificante nessa ridícula guerra da qual participei. Não aprendi nada. Foi total perda de tempo”. Em seguida, antes de se mudar para Milão em 46, quando sua carreira de fato iria deslanchar, chegou a trabalhar com o pai em projetos habitacionais.
Ao aceitar ser curador de mostras na Trienal de Milão, escrevendo para a Domus, famosa revista de arte e arquitetura, desenhando cenários de teatro, foi aos poucos ganhando pratica e renome. Em 1956, com a primeira mulher Fernanda Pivano, em sua primeira viagem a Nova Iorque, passou um mês trabalhando no estúdio do designer americano George Nelson. Impressionado com a cidade onde diz ter se sentido como no filme Metropolis de Fritz Lang, chegou a comentar que ali sua cabeça mudou da água para o vinho. Instado a desenhar uma linha de objetos em cerâmica, teve a oportunidade e o estimulo para pensar mais sob a ótica do desenho industrial do que o da arquitetura.
De volta a Itália, tornou-se consultor da firma Poltronova para onde desenhou moveis que até hoje são reeditados e também os superbox closets, em plástico listrado e laminado. Foi, no entanto, a sua passagem pela Olivetti, o que de fato lhe trouxe o reconhecimento internacional. Ali, com a ajuda de engenheiros, criou produtos não só inovadores como esteticamente atraentes influenciados pela cultura pop e beat e assim permitiu que o nome da empresa ficasse associado para sempre ao design industrial de ponta. A Elea 9003, a primeira calculadora italiana ganhou para a Olivetti o premio Compasso de Ouro em 1959 e em 1963 Sottsass criou a maquina de escrever Práxis, em 1964 a Tekne e em 1969 a de maior sucesso de todas, a Valentine, em plástico vermelho vivo. Chegou a desenhar computadores e em 1970 fez a Synthesis 45, uma cadeira de escritório em cores vivas de modo a que cor e alegria entrassem no ambiente de trabalho.
Mais tarde ele falaria da Valentine, até hoje considerada um ícone da era Pop, em termos um tanto depreciativos: “era por demais obvia, um pouco como uma menina usando saias muito curtas e muita maquilagem”.
Sempre avançando os sinais, em 1972, para uma exposição no MOMA chamada “A Nova Paisagem Domestica” Sottsass apresentou um grupo de containeres de plástico sobre rodinhas que podiam mover e ser re-arrumados de modo a criar diferentes áreas ou ambientes numa casa. Sua teoria era de que essas unidades eram “formalmente exoneradas do estado étnico de serem possuídas”. Explicando em miúdos, ele dizia não estar minimamente interessado em objetos graciosos e elegantes e menos ainda em desenhar coisas silenciosas que deixassem o expectador seguro e tranqüilo em seu status quo psíquico e cultural.
Foi enquanto no auge dessas idéias subversivas que visavam a provocação do olhar e dos sentidos e depois de passar pelo radical Studio Alchymia onde também trabalhavam Alessandro Mendini e Andréa Branzi, que Sottsass resolveu formar com Branzi o grupo Memphis, um movimento anti-design e que veio a caracterizar o estilo pós moderno e que passou a reunir designers não só italianos mas também estrangeiros preocupados em produzir objetos e moveis que servissem ao debate sobre o design contemporâneo. Com motivos da arquitetura clássica ou do kitsch dos anos 50, material barato como o laminado plástico e cores ousadas e contrastantes, davam mais ênfase à aparência e ao significado do objeto do que propriamente à sua praticidade. A primeira exposição aconteceu na Feira do Móvel de Milão em 1981 e o sucesso foi enorme apesar do frisson e das criticas a um suposto “mau gosto”. O movimento Memphis, nome tirado da musica de Bob Dylan, chegou a ser visto como o futuro do design, a chegada da luz depois do racionalismo e rodou o mundo até que Sottsass, em 1985 cansou-se e resolveu abandona-lo.
A partir daí concentrou-se em seu estúdio Sottsass Associati onde tem a colaboração de ex-membros do Memphis e onde voltou a se dedicar a arquitetura, aceitando projetos para cadeias de lojas, prédios públicos e mesmo casas particulares. Nunca deixou, no entanto, de seguir com seus projetos artesanais em cerâmica e vidro e recentemente, em setembro passado, expôs com enorme sucesso de vendas, moveis em edições limitadas e objetos para surpreender e, porque não encantar, na galeria Friedman Benda em Nova Iorque. Seu trabalho continua priorizando a emoção, provocando a nossa sensibilidade e sobretudo divertindo. Se diz um egocêntrico, de poucos amigos e um eterno viciado em design.