Maria Ignez Barbosa
 
           
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Textos e Entrevistas - Casa Estadão
 
19 de setembro de 2010
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Surrealista fantástico

Pedro Friedeberg, italiano que fez do México sua pátria, transformou o tédio com a arquitetura em arte excêntrica

Três eventos recentes devem contribuir para colocar Pedro Friedeberg no panteão dos
grandes designers do século 20: uma bela retrospectiva de seus trabalhos, encerrada em
janeiro passado no Museu do Palácio de Bellas Artes, na Cidade do México; a publicação de um catálogo em inglês e o lançamento do livro, editado pela Trilce Ediciones, que leva o nome deste artista múltiplo e de difícil categorização.

Foi em Florença, na Itália fascista, que, em 1936, nasceu Piero Enrico Hoffman Landsberg, filho deumcasal judeu alemão. Aos três anos, ele se mudariacoma mãe, recém-divorciada,
primeiro para a Alemanha e, meses depois, para o México. Ali, Piero virou Pedro,
ganhou do novo padrasto o sobrenome Friedeberg, efoi criado por uma governanta Zapoteca (minoria indígena do sul do país).

Elecresceunosanos40, quando a vida artística no México fervilhava, em ambiente exaltado
pela presença de Leon Trotski e do rei Carol II, da Romênia – que ali viviam refugiados,
assim como os muitos judeus que aliencontraram guarita. No país asteca, Pedro diz ter aprendido moral com o escultor Mathias Goeritz, carpintaria com José González e a jogar
bridge com Gerry Morris.

Foi, no entanto, arquitetura que resolveu cursar a universidade. E, assim, o traço arquitetônico passou a ser uma constante em seus desenhos, pinturas, esculturas e projetos cenográficos. Friedeberg não esconde que até hoje, aos 76 anos, usa
lápis, compasso e régua. Obcecado com a repetição de motivos de pequena dimensão,
coma perspectiva, e com a incorporação de elementos da anatomia humana (como pernas, pés e mãos), Friedeberg é tido como um surrealista
fantástico – ou um excêntrico facilmente entediado
com a profissão de arquiteto.

Emsuas obras, há uma evidente influência do artista gráfico M.C. Escher (famoso por desenhar as chamadas “estruturas impossíveis”), do pintor italiano Giuseppe Arcimboldo (que compunha figuras humanas a partir de frutas), e do cartunista americano Saul Steinberg (célebre criador das capas da revista The New Yorker).

Ele diz gostar de tudo o que é inútil e frívolo: “Odeio o funcionalismo, opós-moderno e quase tudo o mais. Não concordo com o dito de que as casas têm de ser máquinas de morar. Para mim, tem de ser um lugar meio louco, que nos faça
rir.”Talvez por isso ele nunca tenha encontrado quem se dispusesse a edificar um de seus projetos barrocos e mirabolantes.

Sua carreira foi inteiramente dedicada à pintura, à escultura e ao desenho de mobiliário.
Friedeberg afirma que, nos últimos 50 anos, pintou um quadro por semana e
finalizou duas esculturas a cada mês.Enão esconde sua decepção como status de ícone
alcançadoporsuacriaçãomaisfamosa,acadeira Mão. “Eu a detesto: hojemepareceumpouco
feia e tonta, embora gostasse dela há 40 anos.”

A iconoclastia, aliás, sempre foi um traço marcante de sua personalidade. Nos anos 1960, fez parte do Los Hartos, um grupo que protestava contra a arte politicamente engajada da Escola Mexicana – representada principalmente por pintores muralistas como Diego Rivera e David Siqueiros. “A arte mexicana se tornara aborrecidíssima, repetitiva, antiquada, ridícula, patética, provinciana, ingênua, monótona e estancada em uma grande rua sem saída”, provoca Friedeberg.

Farto das cadeiras Knoll. Alémda cadeira Mão, Outras peças criadas por Friedeberg consquistaram reputação internacional: acadeira Mariposa,com suas asas de diversas cores; a escultura Relógio Astroecológico e as mesas com pés e mãos segurando o tampo.


Dizendo-se um idealista, confessa que gostaria de ver um mundo despido de cadeiras
Knoll, calças de moletom, tênis, bonés de beisebol e jardins de rochas japoneses a oito mil
quilômetros de Kyoto, que considera obscenos.

Não faz muito, uma mesa de sua autoria foi arrematada na Sotheby’s por US$ 31 mil. Uma
versão da mesa-escultura figura no acervo da Bienal de Design de Curitiba.E é geralmente em galerias que suas peças vêm intrigando e chamando
a atenção de colecionares apaixonados. Nos Estados Unidos, o artista é representado
por Reyna Henaine, que gentilmente cedeu as fotos de Karloz de la Parra Diaz que ilustram essas páginas. (www.mariaignezbarbosa.com)