Maria Ignez Barbosa
 
           
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Textos e Entrevistas - Casa Estadão
 
13 de janeiro de 2008
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ORNATO JÁ FOI PECADO

A questão do ornamento virou tema de discussão entre Adolf Loos e Josef Hoffmann e mereceu mostra.

Adolf Loos tinha sobre o ornamento idéias assustadoramente radicais e nunca hesitou em divulga-las. Escreveu que “ os primitivos, tais como as crianças, os criminosos, os degenerados e as mulheres tinham uma irrefreável atração por se enfeitar e por ornamentar o seu entorno. Acreditava que a medida que o homem evoluísse, essa necessidade desapareceria. Num de seus ensaios mais famosos, Ornamento e Crime, bradava como grande máxima que “a evolução da cultura é sinônimo da retirada do ornamento dos objetos do dia a dia”.
Um de seus alvos acabou sendo o colega, e também arquiteto famoso Joseph Hoffmann, co-fundador da Vienna Secession e da Wiener Werstatte e essa tensa discussão sobre o papel do ornamento na arte e na arquitetura acabou virando tema de recente exposição no Museu Josef Hoffmann em, Brtnice, hoje território da Republica Tcheca. Organizada pelo MAK, o museu de artes decorativas de Viena, a mostra JOSEF HOFFMANN- ADOLF LOOS, ORNAMENTO E TRADIÇÃO tenta ilustrar, através de moveis, objetos de vidro, desenhos, fotos e textos sobre eles e de autoria desses influentes arquitetos, os pontos de convergência e as diferenças entre os dois.
Foi ainda na escola primaria em Iglau na Moravia que Hoffmann (1870-1956) e Loos (1870-1933) se conheceram. Mais tarde estudaram juntos no departamento de engenharia da Escola Secundaria de Comercio em Brno. Depois da graduação não mais se viram até que bem mais adiante viriam a se reencontrar em Viena, ambos emergentes arquitetos.
Na Viena de 1900 a questão do ornamento já era tema controverso no debate estético e, nesse ambiente de idéias novas e efervescentes, não seria de estranhar que animosidades viessem a tona e dominassem a cena.
Hoffmann passou por diferentes estágios até que ficasse bem caracterizado o seu estilo de design. Foi aluno de Otto Wagner que sonhava com fantasias arquitetônicas em grande escala, participou da Secessão Vienense que não desprezava o ornamento mas sim o reinventava e definiu seus princípios puristas em obras como o Sanatório Purkersdorf em 1904 e o Palácio Stoclet em Bruxelas construído entre 1905 e 1911. O sistema de superfícies geométricas, uma constante em sua trajetória, acabou se tornando sua marca registrada.
Loos, de outra parte, critico dos movimentos que à época faziam sucesso, desdenhava desses chamados artistas-arquitetos que assinavam o design de seus objetos e clamava à uma volta a tradição do artesanato anônimo. Dizia que perdiam tempo e assim só fazia distanciar-se da Wiener Werskstratte, um movimento artístico reformista que justamente pretendia infundir com arte o ambiente e as coisas do dia a dia das pessoas. As suas mais conhecidas realizações no estilo e na linha de suas idéias radicais baseadas no desenvolvimento funcional da tradição são o interior do café Museu na Karlsplaz de 1899 e a Casa da Michaelerplatz em Viena em 1911.
Loos tentava seduzir não só com obras mas com palavras e textos. Em 1908, em seu ensaio Ornamento e Crime, onde quer definitivamente associar a arquitetura despojada de ornamentos à cultura da modernidade, ele não deixa de tocar num ponto chave da formulação da arquitetura moderna. Lê Corbusier, em 1920, usou as idéias de Loos como exemplo da conversão da arquitetura ao modernismo ao deixar para traz o historicismo do século XIX. O ensaio de Loos parecia também já enunciar a branca abstração do “less is more” e a idéia de rigor funcional da arquitetura e do design internacional dominante no século XX. O que a exposição acaba trazendo também à tona é o aspecto cientifico e mais obscuro dessas suas idéias, na verdade baseadas na antropologia criminal do século XIX de Cesare Lombroso.
Nietzche, por exemplo, condenava a cultura da decoração e dizia que o ornamento era uma doença cujos sintomas não só infectavam a arquitetura histórica como a própria historiografia contemporânea. E Loos, nesse mesmo ensaio deixa claro que despojar-se do ornamento é premissa para a evolução da espécie civilizada e que o ornamento seria coisa de raças inferiores, primitivas como a dos índios ou degeneradas. Fala com horror das tatuagens e consegue dizer que “ se alguém tatuado morre em liberdade é porque isso está acontecendo um pouco antes do momento em que cometeria um crime”, frase que hoje horripilaria os ouvidos de qualquer ser politicamente correto ou contemporâneo. O feminino também parecia incomodá-lo: “o ornamento na mulher remonta `a selvageria, tinha significado erótico”
A richa definitiva entre Loos e Hoffmann, iniciados na carreira a partir de premissas semelhantes na medida em que ambos eram por uma nova arquitetura na trilha de Otto Wagner e contra a pompa historicista do estilo Ringstrabe, se deu ainda cedo, em 1898. Alega-se que Hoffmann teria impedido que Loos desenhasse o salão de reuniões do edifício da Secessão Vienense. Em meio a tantas rivalidades, ciumes e teorias, fato é que, cedo, já haviam decidido por trilhar caminhos opostos. O cúmulo nessa já famosa e histórica controvérsia deu-se quando Adolf Loos, em 1927 fez uma palestra no Musikverein de Viena chamada “As Desgraças de Viena ,Conclusão Final”, onde, do alto de sua arrogância, decretava o fim do que julgava ser o inútil e o supérfluo.