Maria Ignez Barbosa
 
           
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Textos e Entrevistas - Casa Estadão
 
10 de fevereiro de 2008
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DECLÍNIO COMO SINAL DE ESTILO

Em alta a partir do século 18, os decadentes servem de influência até hoje ao ideário do prazer e da estética.

O conceito de decadência, que costumamos reservar aos povos e nações em declínio pode, como aliás acontece ao longo das idas e vindas da história, estar associado ao refinamento, à sofisticação e ser uma senha para um mundo muito especial de luxo, indolência e romantismo.
Ancorada em nossa psique, dada a baixas e euforias, o sentimento de decadência pode surgir de diversas maneiras ao longo das diversas civilizações que, de modo cíclico, sucumbem ao pessimismo e à nostalgia de seus tempos idílicos, idades de ouro e períodos de grandeza e heroísmo. Tudo o que for “neo” haverá de ter raízes na decadência, ou seja, num passado que acabou.
Nos últimos dias do esplendor romano temia-se o “inclinatio”, ou seja, em bom português, o declínio. A sensação geral das pessoas era que a pureza de espírito, a força e a nobreza dos antepassados lhes fugia. A vida devassa dos imperadores era evidente sinal de declínio e os artistas e artesãos já não faziam o que haviam conseguido criar os seus antecessores. Consta que Cícero teria pago o equivalente então a 15 mil euros por uma mesa mandada fazer com uma raríssima madeira africana. O luxo e a extravagância dos romanos se manifestava também e muito especialmente no mobiliário, nas mesas com tampos de lápislazuli e pés de ouro e na suntuosa decoração das paredes dos palácios. Os verdadeiros colecionadores passaram a se voltar para a arte de tempos mais antigos e temiam a influencia das civilizações estrangeiras como a oriental e a africana mais do que a realidade que lhes batia à porta, a iminente chegada dos Bárbaros.
Não demorou a que teólogos do catolicismo associassem a decadência aos sete pecados capitais e que seus pregadores passassem a perseguir os supostos pecadores, que, embora menos virtuosos, podiam ser, para os apreciadores da boa vida, pessoas mais carismáticas e interessantes. Não se pode deixar de reconhecer que, ao longo dos séculos, na maioria das vezes, os “decors” maravilhosamente refinados e os palácios supremamente luxuosos foram obra e criação de grandes homens bem pouco exemplares.
Não houve época sem heróis extravagantes e dissolutos, mas foi no século dezoito que eles passariam a ter sua imagem questionável associada claramente ao prazer e à estética. A gratificação dos desejos passou a ser vista como meta honrada. Dizia Voltaire em 1716 “que o prazer deve ser a finalidade e o dever de todos os seres razoáveis”. Condenava-se a hipocrisia mas, como em todas as épocas, vícios e virtudes seguiriam coabitando. O Marques de Sade, o grande malvado da idade da razão, acrescentava que “não há maior felicidade do que quando a depravação física e moral é a mais universal possível”.
A decadência foi também o tema predileto de Verlaine, o famoso poeta francês que no final do século XIX, em suas poesias evocava o paraíso na terra, fazia apelo à luxuria, à crueldade e a outros pecados mais terríveis e parecia se orgulhar da imagem que emanava. Com seus colegas, formou um grupo seleto que encarnava e propunha uma visão de vanguarda da decadência. O novo decadente tinha de ser um homem moderno, chique, sofisticado e atraído pelo supérfluo. Nada poderia ficar ao acaso. Boêmios ou mundanos, poetas, pintores, homens de letras, estetas ou vagabundos, se consideravam eles mesmos a obra de arte, criaturas espirituais, inteligentes e de sensibilidade exacerbada, enfim pessoas especiais, desdenhosas do resto espécie humana e do então presente que consideravam vulgar.
Foi uma época em que de fato a escolha arquitetônica, não importa se antiga ou moderna, gótica ou clássica, era uma questão altamente poética e em que se escolhia a decoração de um cômodo em função de critérios morais ou religiosos. A arte e a literatura fariam eco. A tendência desses então novos artistas e estetas em cultivar o gosto duvidoso e a se auto proclamarem “decadentes” fazia muita gente, mesmo então, e graças a Deus, estremecer. Essa decadência dita moderna, como cantava o poeta Gerard de Nerval, misturava hesitação, atividade, ócio, utopias maravilhosas e fazia com que pessoas possuídas de entusiasmos vagos e destituídas de qualquer ambição política ou comunitária, se encastelassem em torres de marfim com suas próprias filosofias e religiosidades.
Para Oscar Wilde que sempre defendeu o fechado clube dos hedonistas de rosas murchas na lapela e que recomendava a quem se interessasse o livro de Joris Karl Huysman, “A Rebours”, de 1884, até hoje considerado a bíblia dos decadentes, o pecado é o que nos tiraria do lugar comum, seria um elemento essencial ao progresso e fundamental para o não envelhecimento do mundo.
Consta do livro de Huysman o jantar “negro” oferecido pelo Duque Jean Floressas des Esseintes quando sofreu perda temporária de virilidade. Os pratos tinham as bordas pretas, a sopa era de tartaruga, o pão de centeio russo e as azeitonas pretas da Turquia. Havia caviar do mar Cáspio, retintos budins defumados de Frankfurt, carne de caça com molho de alcaçuz e passas, coulis de trufas negras, cremes de chocolate fondant, vinhos bem tintos da Limagne, do Roussillon, do Tenedo, do Val de Peãs e do Porto servidos em copos de cristal fume bem escuro. Depois, café acompanhado de pretas broas de nozes e guloseimas de açúcar queimado. Fica aqui evidenciado o que não deixa de ser reconhecível em festas e jantares que freqüentamos hoje, ou seja, uma preocupação com o estilo, o diferenciado e o décor que acaba deixando em segundo plano a substancia. Esse tão simbólico e fantástico “negro” jantar ilustra sobretudo um delicioso paradoxo da decadência que transparece na suntuosidade desse menu e dessa decoração temperados pelo aspecto macabro da razão da festa e que associa a idéia da gula à da morte como aliás acontece no contemporâneo “La Grande Bouffe”, filme de há alguns anos atrás.
Pecados e pecadores a parte, fato é que há, sem duvida, muito de romântico, de enfadonho e também muito de sedutor nessa recorrente estória da decadência que é ao mesmo tempo a história do homem e de seu gosto pelo luxo, pela riqueza e pelo que cada um entende por beleza. Não é sem razão, portanto, que tantos decoradores recentes como Lês Trois Garçons ( Hassam Abdulah, Michel Lasserre e Stefan Karlson), Garrouste et Bonetti, Gaetano Pesce, Tony Duquette, Dennis Severs, Agnes Emery e tantos outros estiveram ou estão ai para atender aos desejos dos muitos milionários americanos, russos, árabes, dos colecionadores de arte bilionários e dos marajás da nossa atualidade.