Maria Ignez Barbosa
 
           
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Textos e Entrevistas - Casa Estadão
 
24 de fevereiro de 2008
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ARTE CONTRA O HIGH TECH

O barroco pós-moderno de Elizabeth Garouste revaloriza o artezanal contra o excesso de industrializados na decoração.

Duas recentes exposições em Paris, a primeira na galeria “En Attendant les Barbares” em outubro e a outra na galeria “Avant Scene” em novembro passado apresentaram os primeiros trabalhos de Elizabeth Garouste em vôo solo, ou seja não mais em parceria com o suiço Mattia Bonetti com quem dividiu quase trinta anos de sucesso .
Nos anos oitenta, em plena apoteose do high tech e do funcionalismo, a dupla Garouste & Bonetti surgiu tal qual os bárbaros às portas da Roma decadente: chocando ao retomar o barroco sob uma ótica pós-moderna, revalorizando o artesanal contra o excesso de produtos industrializados na decoração, propondo o uso de materiais primitivos e naturais como ráfia, pele de animais, galhos, terracota e gesso e tentando injetar fantasia e sonho no dia a dia das pessoas ainda sob a égide do menos é mais.
Curiosamente, a primeira exposição da dupla foi na famosa Maison Jansen, em 1980, que ainda tentava sobreviver depois de quase dois séculos vendendo o que de mais chique e novo houvesse nas artes decorativas para o mundo endinheirado. Ali, nesse templo sagrado e legendario, com suas criações, Elizabeth e Mattia quiseram homenagear os designers originais do passado, explorando justamente as possibilidades que eles podiam oferecer aos criadores contemporâneos. Pouco depois, sem conseguir reerguer-se, a Maison Jansen fechou definitivamente suas portas. A dupla, no entanto, seguiu seu caminho a todo o vapor, inclusive influenciando o surgimento, não só de vários outros criadores, mas de muitas galerias e editores voltados para essa linha de sofisticação fantasista e teatral como não se via em Paris desde os anos trinta quando ditavam no setor nomes como Diego e Alberto Giacometti e Jean Michel Frank .
Bastou que fosse convidada para decorar o Club Privilège dentro da boate Palace, a quintessencia então do chique ( seu marido, o artista Gerard Garouste foi o autor das pinturas nas paredes) e, em seguida, junto com Bonetti, para ambientar a Maison de Costura de Christian Lacroix onde deram asas à criatividade com formas orgânicas e barrocas em cortinas com apliques contrastantes, portões de ferro, estampas, moveis, maçanetas e detalhes de iluminação que vieram a influir na própria produção do costureiro, para que a dupla Garouste&Bonetti virasse moda. Hoje, haja ver o sucesso de Philippe Starck com seus hotéis ou o do artista plástico e neo decorador Julian Schnabel com a decoração do novaiorquino Gramercy Park Hotel, o barroco e o elaborado não mais espantam.
Se havia curiosidade em relação às produções independentes de Elizabeth Garouste que saiu de cena por uns tempos e as de Matia Bonetti ( que já vinha expondo só) , estas duas exposições falam por ela em alto e bom som. Num vocabulário decorativo recomposto, onde a essência de seu estilo barroco, sem deixar de lado a graça e a imaginação, parece ter ganho serenidade, são apresentados moveis, luminárias, cadeiras, castiçais e outras criações que parecem brincar com as mais variadas possibilidades de formas e matérias. A recusa da simetria dá a essas criações algo do aspecto orgânico de uma pérola barroca irregular. O acabamento, quando patinado, pode caminhar no sentido dos dourados, dos bronzes, da platina e se harmonizam ao expressionismo das formas, sensuais e femininas. Isso sem falar nos variados tons dos vidros de murano que ganham formas orgânicas e cores pastel inusitadas.
Elizabeth Delacarte, dona da Avant Scene, criada em 1986 e que desde seus primórdios só expõe as criações originais dessa nova geração de artistas, esclarece que em sua galeria o barroco é sinônimo de movimento, de lirismo e de excentricidade.: -Abri minha galeria num momento onde tudo era design industrial, perfeito. Sentia necessidade de um lugar onde pudesse entrar poesia, fantasia e alguma imperfeição.
Na galeria “En Attendant les Barbares”, de Agnes Standish-Kentish, na verdade a primeira editora das obras da dupla e que continua, entre outros, editando o seu trabalho, a exposição se chamou “Fragmentations”. Na mostra, o conceito de fragmentação é explorado através de peças que evocam a multiplicidade sem no entanto cair na repetição, num trabalho que tenta uma desconstrução que se equilíbra entre impulsos contrários. O resultado é um trabalho onde a independência, a autonomia e a liberdade vão aparecer no tratamento dado aos pés desiguais de uma mesma mesa, nos detalhes inesperados no bronze, na luminária que pode ter três pernas e três braços diferentes entre si, no aplique de parede que parece explodir com tubos em varias direções e nos espelhos batizados de “Corolle” e “Bang Bang” compostos por fragmentos disparatados.
Elizabeth Garouste, nascida em Paris em 1949, de pais poloneses, estudou na famosa Ecole Camondo de artes decorativas e foi ali que conheceu o marido, o pintor Gerard Garrouste e também o grande amigo Philippe Starck. Sua primeira experiência artística foi a concepção e a realização de costumes para o teatro a pedido de de Jean Michel Ribes.
Bem jovem ela já dizia: “Desenhamos para provocar nas pessoas o sonho. Não acredito em progresso no desenho. Você só tem como alternativa repetir o que ficou para trás ou então propor algo mais, tentar criar um mundo diferente.” O que então surgiu e o que conseguiu com Bonetti foi impor o que muitos chamam hoje, sobretudo na França, de “Barbarismo”, um movimento estético com viés anti-burguês, ou seja, contra o que percebiam como o gosto maçante imposto pelo mercado. Foi assim que apareceram os moveis lembrando a era Neandertal de pedras falsas ou verdadeiras, mesas de ferro batido e cadeiras com saias de ráfia como que prontas para um hula-hula. Sobre uma hoje famosa e muito fotografada cadeira de encosto alto em bronze patinado e couro de vaca criada pela dupla nos anos oitenta, o inglês Stephen Calloway, figura curiosa por seu jeito pessoal de vestir, autor e consultor de estilo já comentava: - Impôs-se tal como um trono de chefe tribal avançando nas portas de Roma nos últimos dias de seu declínio”
Mesmo que com sensualidade e humor e muitas vezes lembrando as imagens das revistinhas dos Flinstones, essas criações sempre trouxeram em seu bojo as marcas do luxo e da sofisticação francesa e já fazem parte das coleções de importantes museus como o Beaubourg, o Grand Hornu, o Musee des Arts Decoratifs, o Moma em Nova Iorque e muitos outros. Também é deles, alem de trabalhos feitos para clientes como Bernard Picasso, o filho do pintor, o saguão e a escadaria do Ministério da Cultura da França.
A idéia nunca foi a imposição de um look total. Atemporais, suas criações se adaptam a qualquer ambiente, clássico ou contemporâneo. Falam por si como as obras de arte. Peças quase únicas, de autor, tal esculturas, peças “concebidas como se imagina uma coleção de moda, baseadas em uma idéia e feitas para serem desejadas .” É como Elizabeth Garrouste tenta explicar a filosofia por trás de suas criações, mas lembrando sempre que não deixam de ser funcionais apesar de sempre inspiradas na fantasia. Se uma máscara ou um sol por ela esculpidos se transformarem em luminárias hão de projetar luz e os banquinhos em ferro batido como aqueles projetados para a platéia dos desfiles na Maison Lacroix não vão deixar de ganhar a sua almofada. Tudo, no entanto, levando você para bem além do fácil, do banal e da convenção.