Maria Ignez Barbosa
 
           
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Textos e Entrevistas - Casa Estadão
 
09 de março de 2008
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ELA DITOU UM ESTILO

Pauline Potter, a excêntrica Baronesa de Rothschild, foi uma das mulheres mais chiques do século 20.

Ela não nasceu bonita, ao contrario. Tinha pernas longas, pescoço de girafa, pouco seio e era pobre. A infância foi em Paris, com mãe alcoólatra e pai mulherengo fugindo de dividas nos Estados Unidos. Nada, no entanto, haveria de impedir que Pauline Fairfax Potter, depois de muito chão, desde a sua Baltimore natal, passando por Paris, Maiorca e Nova Iorque, viesse a se transformar na excêntrica Baronesa Philippe de Rotschild, uma das mulheres mais chiques e de mais estilo do século XX, amplamente fotografada por gente do time de Horst, George Platts Lyne e Cecil Beaton.
Seu fã-clube, composto por uma nova geração de cultores do belo e do sofisticado, não para de crescer e o “Style Pauline”, tão badalado pela revista Vogue nos anos 50 e 60 sobrevive firme e forte. Puxadores de prata em forma de limão, chão forrado de sisal ou pele de cabra, fronhas com fitas azuis de cetim, mesas de tartaruga ao lado de cadeiras império douradas e camas de ferro parecendo galhos de arvores fazem parte da estética nada convencional dessa mulher que fez da vida uma obra de arte.
Lendo era como driblava, na infância, os tristes dias. Cedo amadureceu, segura de que arte e cultura são fundamentais ao bem viver e conviver. Sabia ouvir, interessar-se pelos mais diversos assuntos e fazia com que o interlocutor se sentisse a mais inteligente das criaturas e, por sua vez, a considerasse a mais interessante das mulheres.
Jovem, após a morte da mãe, foi despachada para Baltimore onde debutaria ao lado de jovens de sua idade. Independente, foi viver só num micro apartamento, uma velha tia no andar de cima para evitar as más línguas, e passou a receber pequenos grupos para jantar com detalhes de sofisticação jamais vistos na pequena Baltimore. Percebeu que talento e graça podem compensar a falta de beleza e dinheiro. Não podendo, como as amigas, comprar um sobretudo nas boas lojas locais, Pauline não se deu por achada. Foi a Nova Iorque, comprou barato um simples casaco preto sem botões que, com uma longa tira de pele de raposa cinza enrolada ao pescoço e passando da barra, deu de dez em matéria de chique.
Por essas e outras como pintar um cílio negro e outro branco, chamou a atenção do conterrâneo e amigo Billy Baldwyn. Foi quem a apresentou ao primeiro marido, Fulton Lerser, um bem nascido local que depois se revelou alcoólatra e homossexual. O casamento, em 1930, um obvio escape, a levaria a Nova Iorque. Cuidou da cerimônia nos mais mínimos detalhes. Oito damas de honra, com buquês de violetas, vestiam tafetá café com leite e chapéus de veludo. E a noiva Pauline, tendo dourado os cabelos castanhos, adentrou a igreja à luz de velas num vestido de cetim de seda amarelo, cauda tão longa quanto a passarela e véu de tule dourado. Na mão, apenas um copo de leite. Como não nos deixarmos encantar ?
Depois de alguns anos em Nova Iorque o casal foi morar em Maiorca, na Espanha. Ali virou dona de loja, livrou-se de Fulton e ficou até a guerra civil quando, ajudada por uma amiga que lhe emprestou um apartamento, se mudou para Paris. Foi “vendeuse” de Elsa Schiaparelli, e pode adquirir duas pinturas de Vuillard além de peças Menney de porcelana branca. Veio a Segunda Guerra, as portas da Maison de costura se fecharam e Pauline voltou para Nova Iorque, sem marido, emprego ou dinheiro.
Com os Vuillards a tiracolo e mais as poucas e boas peças compradas em Paris, fez de um apartamento de dois quartos, sobre uma estação de trem, uma pequena jóia. Nas paredes brancas pôs molduras folheadas a ouro como no século dezoito. As cortinas, simples e brancas e os poucos moveis Luis XVI tinham qualidade excepcional. De flores brancas, fantásticas e abundantes, já fazia questão. Foi quando o jeito de ser e fazer de Pauline, que recebia para jantares em petit-comitê misturando escritores, bailarinos, coreógrafos, pessoas da sociedade e figuras como Diana Vreeland, então um arbitro da moda, se tornava reconhecível, ao personificar um estilo que o tempo só fez aprimorar.
Foi desenhando roupas para Hattie Carnegie que começou a ganhar dinheiro. Para melhor, mudaria de casa várias vezes. No segundo apartamento teve pufes, livros empilhados em colunas e vinte vasos com peônias. Na Town House pôs um Bonnard na parede e, no armário de roupas, um par de portas espanholas policromadas ao revés, de modo a que pudesse apreciar os belos desenhos quando abrisse. Na sacada, em caixas brancas de madeira, seis dúzias de arbustos de camélias vindas da França, iniciando um costume de ter flores “out of season” como nos velhos palácios de São Petersburgo. Muitos atribuíam ao seu enorme charme a facilidade com que conseguia o desejado.
Assim, quando num almoço em 1950, ao ser apresentada ao Barão, exclamou: Ah, o poeta!, selava o seu futuro. Pauline tinha de sobra, a sofisticação que ao Barão faltava, mulherengo e tido como excêntrico por seus irmãos financistas. Quatro anos depois estavam casados, estabelecidos como os mais glamurosos dos Rothchilds, recebendo com um charme inédito na região e tendo restaurando com requinte os vinhedos em Mouton, devastados pela guerra, e que Philippe recebera do pai ao fazer 21 anos.
Em Paris tinham casas separadas. À Pauline fazia bem a solidão. Criou para si um espaço com algo de minimalismo oriental. As paredes do quarto forrou com papel antigo chinês, de fundo pastel azulado e folhagens brancas, comprado de uma viúva pobre nos anos 50. Foi quando escreveu, também com estilo e graça, The Irrational Journey, um livro sobre uma viagem a Rússia.
Em Mouton, rebatizou a casa existente de Villa Petit Mouton e transformou os estábulos de tijolinhos no verdadeiro Chateau Grand Mouton. Ali misturou moveis do século XVII com a arte moderna de Cocteau, Marx Ernst, Dali e Picasso. Diana Vreeland dizia que ela se inspirou no interior da pérola para a cor fumaça e brilhosa de uma das salas. Outros que foi no forro cinza do guarda-chuva. Em outra sala pôs papel chinoiserie, tão de seu gosto, com moveis Giacometti. De impactar, a biblioteca, com madeira e vigas decapé branco azulado, livros de arte, viagem e jardinagem e que tinha, em cada setor de prateleiras, como extensão, uma mesinha com iluminação, bloco de notas e lápis para consultas, mais o sofá e a chaise longue em veludo azul hortência e pés cromados.
Os weekends com amigos se tornaram legendários. Os muitos empregados circulavam quase imperceptíveis para não intimidar os hospedes. A roupa suja, lavada com água de lavanda. Manicures, a postos para os pés e mãos dos hospedes que, nos quartos, tinham os livros recém laçados, jornais ingleses e franceses e o Herald Tribune se americanos fossem. Nas mesas laterais, lápis bem apontados, bloquinhos e tesoura dourada para recortar noticias dos jornais. Pauline, que passava a manhã em seus aposentos, se preocupava que os hospedes, nos seus, tivessem também total conforto, a melhor roupa de cama e banho, bar e sanduichinhos de pepino. Um álbum com fotos das louças antigas, talheres, cristais, pratas, guardanapos e toalhas de mesa de que dispunha, facilitava a escolha do que seria usado a cada dia. Gostava de ter colchas indianas como toalhas de mesa e inventava arranjos como pequenas florestas com musgo, heras e florezinhas. Era estranha na cozinha mas sabia fazer com que seu chef transformasse o mais simples dos pratos na mais refinada das iguarias. Com desculpa esfarrapada recusou-se a passar a Duquesa de Windsor a receita de seu frango “chaud froid”. Outra marca sua era atar ao gargalo dos “decanters” uma fita de gorgurão vermelho para impedir que o vinho pingue ao ser servido.
Pauline, com o marido, acompanhava bem de perto o trabalho dos enólogos. Os vinhos Bordeaux Chateau Mouton Rothschild foram elevados a premier cru. Fazer deles publicidade era-lhe fácil. Ao lado do Chateau, criou o Museu do Vinho na Arte. Nada menos que pinturas de Duhrer e Picasso, taças de vermeil e peças antes de cristo para esse tributo à feitura do vinho. Imaginou o catálogo e tinha prazer em mostrar os próprios feitos.
Mais do que com vinhos, intoxicava os amigos com as paisagens de sonho que criava atrás das paredes do Chateau e que, nas paginas da Vogue, eram mostradas como inexorável fonte de inspiração. Insistia nas flores brancas também no Natal, lírios e ervilhas de cheiro. Queria o inverno com ar de primavera. Virou também tradição, na passagem do ano em Mouton, os empregados empunhando velas, uma procissão em agradecimento ao vinho.
Não tinha boa saúde. Devia a uma febre reumática na infância, o frágil coração. Em 1970, já debilitada, refugiou-se em Londres, num apartamento em Albany, Piccadilly, parte de um magnífico conjunto de aposentos do século XVIII e um dos endereços mais sofisticados da cidade. John Fowler fez-lhe as tão fotografadas cortinas de tafetá sem forro, com panos atados por quatro laços em alturas diversas e o “voile” cortado em pontas. No sofá e poltronas Luis XVI, seda azul clara nas laterais e marfim no centro. Colunas iônicas e parte das paredes marmorizadas em tons de azul. No chão, peles de cabra sobre a madeira embranquecida do assoalho. Sempre original e ciosa do melhor. Já um ícone, ao seu redor, uma corte de jovens literatos ingleses logo se formou.
Em 1976, um câncer não impediu que viajasse de ferias com o marido para Santa Bárbara na Califórnia. Depois de juntos passearem pela praia, voltando para o quarto enquanto o marido dava um mergulho, tombou morta no hall do hotel. Não havia sequer destapado o remédio para o coração. Morreu como viveu, impactando. O enterro foi em Mouton, com procissão à luz de velas e flores brancas. Até a morte do marido, em 1988, o ritual por ela inventado foi preservado e se transformou, a cada passagem de ano, numa homenagem, não apenas ao vinho, mas à memória de Pauline de Rosthschild.