Maria Ignez Barbosa
 
           
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Textos e Entrevistas - Casa Estadão
 
23 de março de 2008
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DA ARTE DE DOMAR METAL

Mostra em Londres homenageia o designer francês Jean Prouve, um pioneiro do pré-fabricado.

Jean Prouvé, o revolucionário construtor e designer francês, conhecido por seus moveis e elementos arquitetônicos pré-fabricados com chapas dobráveis de metal e que viveu entre 1901 e 1984 mas declarou ter morrido em 1954 quando perdeu o controle de sua fábrica de estruturas de alumínio, não podia estar hoje mais vivo e influente. Depois de celebrado com exposições na França, Estados Unidos e Alemanha, de estar com seus moveis originais alcançando preços estratosféricos em leilões e galerias de arte, chegou a vez de ser reconhecido, e no melhor estilo, na exigente e nada francófila Inglaterra
Do lado de fora da Tate Modern, desde o dia 5 de fevereiro é possivel visitar uma de suas famosas e enxutas Maisons Tropicales, parte integrante da mostra Jean Prouvé – A Poética do Objeto Tecnológico, em exposição no Design Museum, e onde, até o dia 13 de abril, moveis de metal e madeira, desenhos arquitetônicos, filmes e fotografias vão mostrar não só o alcance da influencia de Jean Prouvé no design do século XX mas também como o seu trabalho se diferencia daqueles produzidos pelos designers da Bauhaus no mesmo período.
Jean Prouvé nasceu em Paris mas foi em Nancy que começou a produzir, primeiro objetos em ferro fundido como corrimãos e depois a desenhar moveis. Em 1930 ajudou a criar a União de Artistas Modernos cujo manifesto era “Amamos a lógica, o equilíbrio e a pureza”. Em 31 já tinha o seu “Ateliers Jean Prouvé” e começou a colaborar em projetos como o da Maison du Peuple em Clichy, um clube de aviação militar e o clube de vôo Roland Garros. Foi quando também colaborou com Charlotte Perriand e Pierre Jeanneret desenhando moveis para a Maison du Mexique, residência estudantil ligada a Universidade de Paris. Durante a guerra o “Ateliers” sobreviveu graças a fabricação de bicicletas e a um forno chamado “Pyrobal”. O designer foi um ativo membro da Resistência e, depois da Liberação, o Ministro da Reconstrução encarregou-lhe da produção em massa de esquadrias para a construção de casas para refugiados. Chegou mesmo a ser prefeito de Nancy, em reconhecimento ao papel patriótico que teve durante a guerra.
Bem mais designer do que político, em 1947, montou a fabrica que lhe permitiu produzir. em grande escala mas com estilo, moveis para escolas e instituições públicas, fazer pesquisas quanto ao uso do alumínio na arquitetura, construir prédios industriais, palácios de exposições e as famosas casas tropicais pré-fabricadas dirigidas aos burocratas franceses morando na Nigéria, ainda uma colônia francesa no final dos anos 40. Foi durante estes anos dourados que surgiram as peças hoje icônicas como a mesa de conferencias Trapézio e o bufê forrados em alumínio perfurado e colorido, a cadeira e a estante Antony e também a escrivaninha Presidencia. Ao perder, em 1954, o controle da fabrica para um grupo poderoso, declarou-se arrasado: -“ Só tenho minhas mãos, um cérebro chocado e nenhuma reserva financeira.”
A vida ativa e criativa desse pioneiro do pré-fabricado que acreditava piamente na durabilidade e na forma da folha de metal, torcida, prensada e comprimida ao invés de soldada, e que rejeitava o uso da técnica do tubo de ferro tão típica da Bauhaus não haveria, no entanto, de terminar então e nem tão cedo.
Foi quando partiu para a construção da casa própria, a Maison du Coteau, hoje uma quase atração turística em Nancy. A mulher e mãe de seus seis filhos, Madeleine Prouvé sempre desejara morar numa casa com projeto do marido. Com a ajuda do irmão Henri e num design ditado pela falta recursos e que re-aproveitou painéis para uma escola não utilizados, a família unida pôs-se ao trabalho. É o que conta a filha mais velha Catherine sobre esta casa que a mãe, quando viúva e sem dinheiro, foi obrigada a vender e que, alguns anos depois, em 1991 foi comprada de terceiros pela cidade de Nancy e mobiliada com moveis Prouvé originais, hoje clássicos, e onde ainda se encontram intactos os puxadores verticais de madeira nos armários da cozinha assinados por ele. Há alguns anos a casa foi arrendada da prefeitura pela arquiteta Agnes Cailliau e pode ser visitada por profissionais nas tardes de quinta-feira e pelo publico apenas nos terceiros fins de semana de setembro.
Apesar de fabricadas com a intenção de serem um habitat barato para os franceses na África, consta que apenas três casas tropicais foram despachadas para a Nigéria onde, durante quase meio século, resistiram ao calor, às chuvas tropicais, a tornados e até a tiros de metralhadora. Não se sabe se porque uma vila colonial típica custava a metade ou se porque o estilo industrial não agradou, o fato é que não serviram à sua principal finalidade, a de atender a escassez de moradia e de prédios públicos nas colônias francesas. Permanecem apenas como a expressão de uma visão radical da arquitetura. Feitas com folhas dobráveis de aço e alumínio, eram leves e fáceis de transportar. Atento ao clima quente na colônia, Prouvé fez questão que tivessem varanda com quebra sol ajustável em alumínio e paredes internas fixas e de correr com perfurações com vidro azul para proteção contra os raios UV alem de duplo telhado para ventilação.
É o que se pode constatar visitando a casa tropical em exposição na Tate , arrematada na Christie’s em Nova Iorque, em junho de 2007 pelo hoteleiro Andre Balzas, um patrono da arquitetura contemporânea e dono do The Mercer em NY, do Chateau Marmont em Hollywood e do The Raleigh em Miami Beach.
A ultima Bienal de São Paulo, a 27a , com curadoria de Lisette Lagnado e cujo tema era o Viver Junto, nos deu um gostinho de Jean Prouvé. No segundo andar, na sessão Broodhaers o artista plástico argentino Rirkrit Tirananija instalou uma copia ipsis literis da Maison Tropicale que encheu de plantas e onde, na interação entre elas, a ideia foi discutir o uso criativo da palmeira.
Já se foi o tempo em que era possível topar com um móvel Jean Prouvé em feiras e Brocantes em Paris e no interior da França. Apenas em galerias especializadas é ainda possível encontrar uma ou outra peça como as que compõem as coleções de Brad Pitt, Larry Gagosian ou Marc Jacobs. Os nem tão ricos podem se contentar com as edições feitas pela Vitra, cujo Design Museum em Weil am Rhein em parceria com outros museus na Alemanha e no Japão foi responsável pela produção desta mostra.
Na abrangente “A poética do objeto tecnológico” os desenhos de Jean Prouvé ajudam a revelar a filosofia de trabalho do designer que tinha como premissa o profundo conhecimento do material, a colaboração estreita entre artistas e artesãos, muita atenção dada à evolução e ao desenvolvimento tecnológicos e fidelidade ao “principio de nunca adiar decisões para que não se perca o ímpeto e não se incorra em previsões não realísticas”. Era sua a idéia de uma arquitetura nômade onde a construção de uma cadeira se equipararia a de uma casa uma vez que ambas eram projetadas tendo em vista a sua portabilidade.