Maria Ignez Barbosa
 
           
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Textos e Entrevistas - Casa Estadão
 
06 de abril de 2008
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POESIA E HUMOR DE DOIS IRMÃOS

Fernando e Umberto Campana partem da trama para a escolha de objetos em mostra de Nova Iorque.

Foi com o coração, sem preocupação com ordem cronológica, intelectual ou de pedigree que Fernando e Umberto Campana acionaram o olhar para escolher, no acervo do Museu Cooper Hewitt os mais de vinte itens que fazem parte da mostra “Manufaturando Emoções”, inaugurada em 15 de fevereiro passado em Nova Iorque.
Convidados para curar a sétima exposição da série “Selects”, onde um artista é escolhido para fazer uma releitura da coleção do museu, o único no mundo dedicado exclusivamente ao design histórico e contemporâneo, conseguiram fazer um testemunho do próprio processo de criação. Com poesia e humor e partindo da trama como fio condutor, escolheram curiosos papeis de parede, ilustrações, têxteis, jóias, cadeiras e objetos do século XVI ao XX que ali permanecem até o dia 24 de agosto.
Um processo que começou em Brotas, a terra natal, onde é tradição a plantação de bambu para a vara de pescar e de onde, em 1983, traziam para vender em São Paulo as cestas de vime da fabrica local que, com graça e já demonstrando talento, personalizavam. Pois desde então, desafiando estereótipos, Fernando e Umberto, sempre de forma low-tech e artesanal, se deixam levar pelo material do dia a dia como a corda sintética, o papel bolha, o papelão, ralos de plástico, bichos de pelúcia, garrafas plásticas e o que faça parte do mundo urbano e contemporâneo, para criar moveis e objetos de design que hoje fazem parte do acervo de museus como o MOMA em Nova Iorque, o Victoria and Albert em Londres e o Vitra Design na Alemanha.
Nessa trajetória de experimentação constante – em São Paulo eles não tem um show-room mas um laboratório – passaram a ter seu design produzido por fabricas internacionais como a Edra, a Alessi, a Artecnica e a Venini, e seus trabalhos comercializados por galerias como a Albion em Londres e a Moss em Nova Iorque. Para a Artécnica, por exemplo, desenvolveram um enorme “bowl” utilizando pneu e bambu, produzido no Vietnam e à venda na loja do Cooper Hewitt . Para a Alessi, uma coleção, também na loja do museu, que vai de fruteira a revisteiro passando por centro de mesa, apoio de prato e porta guarda chuva.
As cadeiras feitas para a sala de jantar da casa no Harlem da amiga Jenette Kahn , dona da DC Comics, um estudo em torno da vassoura de 1998 e que a Edra produz desde 2005, e que tanto surpreenderam os convidados num jantar para o designer da luz Ingo Maurer, foi o embrião da série “Transplastic” feita para uma exposição na Albion em junho de 2007 e onde tudo foi vendido no ato.
Misturando, tramando e tecendo palha, ferro, bambu, acrílico e policarbonato, no mais moderno espírito “mixed series,” Fernando e Umberto desenvolveram lustres gigantes, meteoros, nuvens de palha e luz para parede e teto além da série de cadeiras em fibra de Apuí, com assentos múltiplos que incorporam cadeiras de plástico comuns e em formas nada convencionais. E numa seqüência desse trabalho onde a palha se sobrepõe ao sintético, surgiu, no ano seguinte, a poltrona de palha que expele objetos de plástico criada para a recente exposição no Cooper Hewitt, peça não reproduzível, doada ao acervo do museu e que fecha a trajetória da curadoria por eles assinada. Para a dupla de artistas que me fazem saber que o solo do belo e azul mar Mediterrâneo é hoje um tapete de rejeites plásticos, a coleção Transplastic poderia se chamar “Detox” uma vez que prega a reciclagem e faz, de forma lúdica, um manifesto: a palha reaparecendo no processo como uma parasita que volta para expelir a poluição e desintoxicar. Sintetizam a tensão entre natureza e poluição, o natural e o sintético, entre a elasticidade e o calor da palha com a fria e rígida superfície do plástico. Vale dizer que ao utilizar o Apuí para a palha, estão contribuindo para preservar e controlar a biodiversidade das florestas, pois trata-se de uma fibra que vai sufocando e matando as arvores que ataca. Dai que retomar, – obvio que em nova linguagem - a pratica das cadeiras de bar e de terraço de palhinha depois destronadas pelas de fibra sintética e agora por aquelas tão banais de plástico moldado, não poderia fazer mais e maior sentido.
Foi ao longo de duas demoradas visitas aos quatro departamentos do acervo do Cooper Hewitt que Fernando e Umberto puderam selecionar o que lhes pareceu melhor mostrar a natureza representada pela trama. Assim, numa curadoria que buscava uma afinidade de enfoque e de processo criativo mas que também falasse da nossa colorida paisagem tropical, juntaram jóias do século XIX feitas com cabelos tintos de gente e de cavalo, um livro do início do XVII com capa tecida por fios de metal, contas de coral e seda e peças de porcelana do XVIII com trama estilizada. Ainda um trono com ares selvagens, todo de chifres, feito por um europeu no Texas em 1890, uma poltrona inglesa em vime e marfim de 1880 e mais o que pudesse servir de exemplo do uso do “objet trouvé” como solução construtiva de sua criação. Na seqüência, intercalada, a já icônica cadeira da dupla, a Vermelha, de 1993, editada pela Edra desde o ano 2000, um exemplo perfeito de desconstrução da trama, onde os fios de certo modo se derretem, numa “ciência” contemporânea que regeria o reciclado.
Apesar dos objetos por eles escolhidos para a mostra serem de épocas e autores variados, todos parecem dotados de uma mesma qualidade intrínseca, a de provocar emoção, sentimento e lembranças. O “cupido” ilustração tirada do livro O Templo da Flora, por exemplo, simboliza a pureza, a paixão e o amor, inerentes ao processo criativo dos designers. Já Uma Fantasia Floral Num Velho Jardim Inglês, que fala do ideal do artista em dar à figura humana a forma vegetal, teria a ver com o homem existindo como extensão da natureza. O colar e as pulseiras com cabelo representariam a habilidade do homem para reinventar as possibilidades do corpo humano. A poltrona de chifre, ao permitir formas arredondadas, chama a atenção para como, dependendo de como um material é manipulado, ser possível criar um design totalmente novo. Todos os objetos tem mensagem própria, além de beleza e poesia, como tudo o que produzem esses dois artistas irmãos que tanto sucesso fazem no exterior onde podem, ao mesmo tempo estar assinando uma instalação nos jardins do Museu Victoria and Albert, criando para a Disney britânica a Cadeira Cartoon com Mickeys, Minnies e Plutos de pelúcia, elaborando cenários para o Balé Nacional de Marselha ou desenhando jóias onde o ouro vira trama e se articula. Modernos cidadãos do mundo, no entanto não abrem mão de morar no Brasil, mais precisamente em São Paulo, cidade que na sua complexidade e poluição é desafio e fonte sem fim de inspiração.