Maria Ignez Barbosa
 
           
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Textos e Entrevistas - Casa Estadão
 
20 de abril de 2008
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RÚSSIA REVIVE ERA DOS CZARES

Projetada por Philippe Starck, a Maison Baccarat em Moscou é templo de luxo na era pós-comunismo.

Em 1896, ao retornar de sua viagem de núpcias em Paris, o Czar Nicolau II encomendou à Cristaleria Baccarat doze enormes candelabros. Não tardou para que a corte inteira se pusesse a fazer pedidos, sobretudo de copos de cristal, pois era praxe e tradição, uma vez o vinho bebido, que o copo fosse atirado para trás dos ombros. Não foi sem razão, portanto, que lá pelas alturas de 1900, um dos três fornos da já famosa fábrica estivesse inteiramente dedicado aos pedidos vindos da Russia.
Conta a história que essa tão preciosa mercadoria, destinada muitas vezes a palácios bem distantes, era carregada no lombo de mulas, em grandes caravanas e chegava a Rússia em navios que faziam a rota do Báltico, entre os portos do mar do norte e São Petersburgo. Em 1999, um desses cargueiros, o Kursk, que naufragou em 1912 nas proximidades de Anvers, foi localizado por exploradores belgas e vários serviços de cristal, inclusive do modelo Colbert de lapidação muito rica e trabalhada, foram resgatados .
Pois hoje, em tempos pós comunistas e de muito dinheiro rolando no pais, e tendo a cargo do seu visual, o designer Philippe Starck, autor da Maison parisiense, a francesa Baccarat resolveu que a sua segunda Maison no mundo seria em Moscou. Foi inaugurada em março e, como a de Paris, junta museu, loja e um requintado restaurante para oitenta pessoas. O local escolhido foi uma antiga farmácia com fachada de estilo entre o neo-barroco e o neo-renascentista, vários andares, novecentos metros quadrados e escadaria monumental no hall de entrada onde imponentes candelabros, todos decorados com enormes bolas de cristal dão, já de cara, o clima de fausto do universo Baccarat. Fica situada na conhecida Rua Nikolskaya , considerada o centro da vida intelectual de Moscou no século XVIII e consta que seria a maior farmácia da Europa. O local pertence à Mercury, firma encarregada da renovação e que, com essa super-vitrine, promete reconquistar para a Baccarat o dinheiro russo, agora em mãos novas e burguesas e, para si, o titulo de maior distribuidora de cristais de toda a Russia.
Pelo fato das relações franco russas no segmento luxo serem tão tradicionais, por estarem se expandindo cada vez mais e por ser a estória da Baccarat no pais tão antiga, o investimento fazia sentido. Já estão ali, e a todo o vapor, a Cartier, a Guerlain, a Veuve- Cliquot, a Vuiton e outras tantas atrás do dinheiro deslumbrado. Desde 2001, com apenas uma loja em Moscou, a Baccarat está projetando abrir na Rússia, no espaço de cinco anos, entre cinco a dez novas lojas. Segundo Brigitte Bury, diretora de imagem da empresa, “o reconhecimento da marca Baccarat está ligado a nossa história com a Rússia, o que é precioso. E só compararmos com um pais como a China onde temos de trabalhar muito mais para ganhar notoriedade.” Não foi sem razão de ser, portanto, que na França, o serviço de copos minuciosamente lapidado e batizado “do Csar” nunca saiu de linha.
Philippe Starck , recém casado com Jasmine, sua diretora de comunicação e vivendo, como ele mesmo diz, numa eterna lua de mel entre aviões privados e quartos de hotel de onde o casal não sai nem para jantar, resolveu que na Maison moscovita trabalharia com pedra bruta e cores pastel peroladas. No hall de entrada, ao pé da grande escadaria, uma enorme cadeira em cristal digna de uma Alice no pais das maravilhas e o tapete vermelho com o grande B em cristal iluminado que vai reaparecer em todos os andares. A butique, no térreo, tem paredes de pedra e é iluminada por um grande sol vermelho. As vitrines são de espelho e cristal e as mesas, com pés também de cristal, tem luz que vem de dentro. Vende-se ali, além de peças de cristal para de uso e requinte funcional, luminárias, relógios, jóias e acessórios. Uma atração de encher os olhos e o olfato é o perfume “Um certo verão em Livadia”. Vem num deslumbrante “flacon” feito com cristal transparente, vermelho e verde piscina e tem na tampa a cruz imperial em metal. Sempre paradoxal, necessariamente impertinente e conseguindo ser moderno num universo tão tradicional, Stark , nesse andar térreo, ainda colocou um lustre de cristal como que boiando dentro de um aquário com terminações em espelho e emanando luz.
Chama-se Cristal Room o restaurante gastronômico de comida francesa ao gosto russo. Ali, as cadeiras tem parte de seu encosto em cristal e, junto ao bar, um personagem mitológico domina um gigantesco nicho com velhos aparelhos de televisão que emitem calor. A peça central é o lustre “Flou, je te vois flou”, (focado e desfocado) a ultima criação de Stark. Quem quiser levar para casa a preciosidade terá de despender a bagatela de 300 mil euros e ainda esperar alguns bons meses, uma vez que são feitos só sob encomenda. Virou brincadeira em Moscou adivinhar quem vai ser o primeiro milionário a cometer a loucura. Para os franceses que tanto desejam que os russos continuem a quebrar copos, será a confirmação do reatamento das relações com os tempos esplendorosos dos Csares e a prova de que o cristal voltou a fazer parte do universo do “grand luxe” depois um longo marasmo no setor.
Philippe Stark que é também chegado à escrita – tem um livrinho de pensamentos cor de rosa tal qual o vermelhinho de Mão Tse Tung – faz, no belo catalogo da nova Maison, comentários sobre como a Baccarat, um templo já tão carregado de memória e passado, pôde lhe ser tão fértil como fonte de inspiração:
“A essência da Baccarat é para mim o mundo da ilusão através das possibilidades óticas das facetas do cristal talhado. Imaginei, portanto, um Palácio de Cristal onde tudo seria possível. Os efeitos óticos do cristal se transformam em jogos mentais e poéticos onde tudo é relativo e sujeito à ilusão e, portanto, uma fonte para o nosso imaginário. O sonho, os símbolos e a realidade constantemente se mesclam.” Entenda, se quiser e conseguir, as palavras desse Philippe Stack que, em recente entrevista para o caderno Culture do Paris Match teria afirmado ser o maior designer do mundo e onde confessa o desejo de “ refazer de Veneza a cidade da reflexão e da inteligência”.