Maria Ignez Barbosa
 
           
Tamanho do texto: A A A
Textos e Entrevistas - Casa Estadão
 
18 de maio de 2008
           « anterior | próximo »


DECORAÇÃO DE BOM HUMOR

A tese é do designer americano Jonathan Adler: um décor de alto astral pode curar até depressão. Veja aqui como as idéias da casa cor podem ajudar a soltar a imaginação e torna-lo (a) feliz.

Há quem diga que um novo décor em casa pode mudar a vida e o humor. Verdade ? É o que afirma o designer Jonathan Adler em seu livro “My prescriptions for anti-depressive living”. Partindo da premissa que ser feliz é chique, ele nos propõe um décor divertido, colorido, com a coragem e a alma do freguês. E nos garante que uma boa decoração pode substituir anos de terapia.
Com seus conselhos e orientações de como chegar lá, Adler, que é decorador, ceramista desde criancinha, colecionador de antiques masculinos e dono de lojas descoladas na Madison Avenue, East Hampton, Miami, Los Angeles e São Francisco, pretende uma intervenção terapêutica em sua vida, mais especificamente uma transfusão de alegria, irreverência e individualidade. Trata-se de uma proposta no sentido de você se deixar guiar pelo próprio gosto, criatividade, preferências e pelo que entende como conforto e beleza. É preciso que ao voltar para casa, do trabalho ou de uma viagem, você se sinta acolhido, contente e relaxado, num espaço que sinta ser de fato seu, e onde prefira estar antes de qualquer outro e que seja também um antídoto aos traumas e chateações do dia a dia.
Caso você se anime a rediscutir a sua casa ou ter uma idéia do que pode fazer com ela, conhecer as novidades e as possibilidades ao seu alcance no Brasil, uma grande oportunidade, agora em São Paulo, é visitar a Casa Cor, que acontece no Jockey Clube, entre os dias 20 de maio a 9 de julho e onde diversos profissionais, com estilos diversos de decorar, vão estar mostrando ambientes que, quem sabe, podem ter algo a ver com você e assim servir para indicar um caminho que tenha de fato a ver com você.
Adler, em seu “Prescriptions”, discute a perfeição minimalista, germânica e intelectual que acaba refletida na maneira como nos vestimos, nos comportamos e recebemos em casa, tão de acordo com o gosto dominante imposto por arquitetos e “style makers”. Apesar do “bom gosto” ficaria faltando algo de pessoal, vital e humano. Em resumo, não se mantenha dentro dos conformes, do apropriado e, acima de tudo, não tenha medo de errar.
O autor sugere que nos auto papariquemos, que sejamos mesmo narcisistas. Se for tirar uma foto para a posteridade ou para a parede de sua casa, alugue um poodle branco. Nada mais fotogênico. Não se puna. Tenha no quarto a televisão que mamãe proibia, o amiguinho tinha e fazia você morrer de inveja. Que o nosso canto de dormir seja o ambiente mais imponente da casa, com televisão e um daqueles carpetes gostosos de se pisar descalços, de pele ou de sisal. Que tenha o luxo e o conforto de uma suíte de grande hotel. Trate-se com bons lençóis, almofadas, travesseiros. Se gosta de cama grande, que ela seja enorme, com cabeceira acolhedora, dossel ou quatro postes. Nas paredes ou no teto não tenha medo de homenagear seus ídolos e usar suas imagens na decoração. Não seja modesto. Segundo Adler, a modéstia anda supervalorizada. Não a banque. Ouse. Assuma rodear-se do que realmente gosta e a eventualmente desagradar. Seja um maximalista.
Cerque-se, por onde mais circula em casa, de seus mais interessantes moveis e objetos. Não deixe o mais valioso e mais importante para a sala de visitas, apenas para inglês ver em dia de festa. Não hesite em exagerar. A ousadia pode expressar personalidade e suplantar o mau gosto inexpressivo ou o bom gosto correto. Dê aos objetos, com sentido para você, uma nova função. Porque não colocar flores num suporte de guarda chuvas, ou plumas num castiçal? Um enorme trono num ambiente pequeno pode fazer efeito assim como um banquinho de tirar leite de vaca pode trazer charme a uma casa palaciana. Um lustre de cristal dentro de um armário, um quadro pendurado diante de livros numa estante, cortinas de contas em vez de portas. Divirta-se. Descrimine o que é kitch mas não abra mão dele. Crie pontos focais. Se tiver alergia a gato ou a cachorro tenha um em cerâmica.
Abuse de estampas, em paredes, estofados, cortinas. No caso de grandes duvidas na mistura o conselho é: repita, repita, repita. Não ouça por demais os outros. Preste atenção ao que se usa na rua e às formas da natureza. Deixe virem a tona suas fantasias e instintos criativos.
Busque inspiração em figuras ou temas prediletos. Seja gráfico. Se gosta de poesia, porque não escrever nas paredes os versos prediletos? Para um músico, partituras velhas podem servir de papel de parede. Ou, quem sabe, um espelho no banheiro em forma de violão. Teça capas de almofadas com motivos vintage ou, como Jonathan Adler que também recomenda ter em casa um namorado e um cachorro, entregue-se à cerâmica e às formas orgânicas. Nada de alças, canecos ou potes redondos. Junte o bom artesanato à iconografia divertida. Aprenda a gostar de ficar dentro de casa. Troque o blackberry por um canteiro de black-berries no jardim. Curta a natureza.
Use muita cor. Crie contrastes. Divirta-se. Uma overdose de cores só há de fazer bem. Pinte tudo de branco e vá agregando colorido. Uma idéia, sobre a parede branca, é pintar um retângulo em cor vibrante que pode funcionar como pano de fundo para um quadro. Troque os azuis por laranjas, rosas e amarelos, cores que refletem os humores do sol. Se preferir tons neutros, escolha aqueles menos comuns como camelo, oliva e baby blue. Lembre-se que o verde limão, ou “chartreuse”, é cor poderosa, sedutora e de afetar o espírito. Passe a idéia de confiar em si mesmo. Forre cadeiras Bauhaus com cores vibrantes. Abuse de texturas em paredes e estofados. Hão de valorizar as cores, agregar mais interesse ao todo, impor atitude. Diz-se que pintar o chão de branco faz você se sentir mais magro e que um chão preto vai fazer ressaltar o que se lhe puser em cima.
Se o seu problema é excesso de seriedade, monotonia e falta de “joie de vivre”, o estilo Pop com seu senso de humor pode ser a terapia. Troque o Prozac por estampas Pop. Pinte uma parede de roxo, outra de laranja e dê um jantar com comida nessas cores, tons bem anos 60 e 70, tempos psicodélicos que hoje inspiram a moda e quando a arte na parede podia ser um par de gigantescos óculos. Quem não lembra do décor, hoje vintage, da casa modernésima em A Laranja Mecânica trate de revê-lo. Inspire-se na decoração mas, por favor, jamais no comportamento dos personagens.
Faça capas de sofás com xales étnicos, almofadas decorativas com “foulards” de seda Hermes. Escolha um nome para a sua casa, de preferência um daqueles das grandiosas English Country State Houses como Balmoral, Blenheim ou Sandringham. Em lojas de objetos litúrgicos – aproveite a próxima visita ao Vaticano - você pode encontrar peças com cara de design dinamarquês. Ou acesse www.churchsupplies.com. Uma página de revista de seu agrado pode ganhar moldurada e virar arte. Ao pendurar quadros à parede comece com o maior e siga em frente. Pense grande. Ocupe o seu espaço. Que tal uma gigantesca lâmpada funcionando como lustre ? Venere o designer Verner Panthon mas não esqueça de Andy Warhol, o primeiro artista a entender, celebrar e gozar a cultura popular obcecada por celebridades. Abra mão de preconceitos. Assine revistas que façam rir. Laqueie com cor bem viva a porta de entrada de sua casa. Vai intrigar o vizinho.