Maria Ignez Barbosa
 
           
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Textos e Entrevistas - Casa Estadão
 
03 de outubro de 2010
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Perfeito enseblier

Um do mais reverenciados decoradores da Europa. Jacques Grange tem entre seus clientes Caroline de Mônaco e Valentino

Em julho passado, passeando pelo Boulevard Saint-Germain, dei com uma amiga de meus tempos de Londres. Ela estava em Paris para ver a obra do apartamento que havia comprado com o marido não longe dali.
No dia seguinte, para discutir o novo décor, iria se encontrar com Jacques Grange, o chiquérrimo decorador francês que mora sobre o Palais Royal, no apartamento onde Colette, a famosa romancista, viveu e escreveu a maioria de seus livros, e recebia amigos como Jean Paul Sartre e Jean Cocteau para comer um takeaway trazido do Le Grand Vefour, restaurante estrelado há 200 anos, que fica logo embaixo.
Pois na noite seguinte, a convite de minha amiga,me vi jantando com ela e Jacques Grange num pequeno e descontraído bistrô da Rue du Cherche-Midi, na Rive Gauche. Fora os dois grandes potins do verão – Carla Bruni gravando cenas para um filme de Woody Allen sob o olhar atento do marido presidente e o escândalo envolvendo figuras do governo com Madame Bettancourt, a riquíssima dona da L’Oreal, também cliente do decorador –, pudemos conversar sobre amigos comuns, estética e décor.
Grange insistiu que quando fosse a Nova York não deixasse de me hospedar no The Mark, na Madison Avenue, que acabou de ganhar um new look assinado por ele.
De boa vontade, ou melhor, encantado, acatou a idéia de que escrevesse uma coluna sobre ele. E ficou feliz quando confidenciei-lhe o que não sabia – que minha amiga ali presente era prima de Alberto Pinto, outro decorador famoso, mas que ela o havia preferido para o projeto de seu novo apartamento parisiense.
Vaidades em on, minha amiga tinha em mãos a Vanity Fair americana, então nas bancas, com matéria sobre o apartamento que Jacques Grange acabara de fazer para o costureiro Valentino, em Nova York. Grange, que não tinha a revista, não hesitou em se apossar daquele exemplar. Achou que as fotos não eram descritivas do décor, onde uma enorme tela preta com traçado branco, de Fernand Léger, impera na parede sobre a lareira e em cujo patamar descansa um tigre da dinastia Ming. Paredes bem brancas, seda selvagem blanc-cassé, toques de preto em muitos dos estofados fazendo link com a cor do quadro dominante, poltronas com pele de zebra, tapetes claros, cestos de palha com lenha.
O decorador fora instado a criar um ambiente leve e contido,onde a vasta e imponente coleção de arte e de objetos do costureiro falassem por si. O que certamente conseguiu, pois a impressão é que naquele espaço de linguagem contemporânea convivem de forma harmoniosa Jean-Michel Basquiat, Roy Lichtenstein, RichardPrince, Willem de Kooning, vasos Delft, mesas de ormolu, uma cabeça de Medusa de Wadi Barud, luminárias de bronze art déco e espelhos dourados italianos do século 18.
Embora tenha oferecido mandar-me o livro de Pierre Passebon sobre sua obra, editado em francês pela Editions du Regard e em inglês pela Flammarion, achei mais seguro voar no dia seguinte de volta ao Brasil munida de um volume comprado na La Hune, a livraria da esquina.
Belo porte, ágil no andar, informalmente elegante. Nascido em Saint-Amand- Montrond, formado em Paris nas escolas Boulle e Camondo e agraciado pelo governo francês com a ordem de Cavaleiro da Legião de Honra, Jacques Grange é sem dúvida um dos mais reverenciados decoradores da Europa.
Apenas no convívio e de vê-los atuar, aprendeu com Marie-Laure e Charles de Noailles a juntar audácia e bom gosto. De Madeleine Castaing, a lição de que os belos objetos devem ser deixados à vontade, pois haverão de respirar por si e criar sua própria atmosfera. E de Henry Samuel, com quem estagiou nos anos 60, o exemplo de que
o décor tem de revelar o cliente e não ser jamais o autoretrato do decorador, cuja meta deve ser a de se manter imperceptível. Com os requintadíssimos marchands de antiguidades Didier Aaron e Alain Demachy aprendeu o valor das coisas belas.
E, no longo convívio com o amigo Yves Saint-Laurent, a cumplicidade na busca da beleza, do bom julgamento e, sobretudo, da perfeição.
O fato é que Jacques Grange soube criar uma sintaxe e um vocabulário próprios fazendo jus ao chamado “gosto francês”, que desde o século 18 impõe ao mundo estilo e distinção sem se deixar levar por caprichos e modismos momentâneos. Para seus famosos clientes, que vão dos Rothschild à princesa Caroline de Mônaco, passando por François Pinault, Ronald Lauder, Paloma Picasso, Yves Saint-Laurent e Pierre Bergé, (todos colecionadores do mais fino e do melhor em matéria de arte, móveis e objetos), Jacques Grange é o perfeito ensemblier, ou seja, tem um dom muito especial para criar um décor onde, num só todo, tudo há de encontrar lugar próprio.
Apesar de admirar estetas do passado como Christian Berard e Emilio Terry, Grange circula com desenvoltura entre os contemporâneos. François-Xavier Lalanne e Mattia Bonetti, da escola neobarroca, não são apenas amigos, mas autores de trabalhos que enriquecem suas decorações.
Jacques Grange costuma dizer que o apartamento onde vive caiu-lhe do céu: “Fui escolhido pela família da Colette.” Em 1990, a enteada da escritora, dizendo que o apartamento tinha de ser dele, ofereceu-lhe a compra. Como não dispunha do suficiente, sugeriu que alugasse. De inquilino, sete anos depois, passou a proprietário. Foi
quando partiu para uma reforma em regra. Depois de trocada toda a fiação e restaurados os parquês, frontões do século 18 foram adicionados e um lambri de carvalho passou a cobrir as paredes da biblioteca. O novo décor substituía o primeiro, de estilo “mais Colette”, com livros por todos os lados e obras de artistas do século 19. Grange, que pintou a maioria das paredes de cinza pastel e as molduras de gesso em branco, fez questão de que o busto da escritora e seu retrato por Irving Penn ali permanecessem.
No hall de entrada, em meio a obras contemporâneas, uma pintura vermelha de Rachel Howard. Também ali, o divertido console de porcelana de Sèvres sustentado por avestruzes de François-Xavier Lalanne, obra de 1966. Por toda a casa, peças únicas e com história.A poltrona de couro e madeira de 1925 é interessante pois não faz referência ao estilo de sua época. Uma luminária de Man Ray tem forma de pano amassado e a de Ron Arad foi colocada próxima a um console de Jean-Michel Frank e a uma mesa Luís XVI de mogno redonda. Uma enorme fotografia do Mar Negro em preto e branco, do japonês Sugimoto, impressiona no salão, assim como a de Christian Berard por Irving Penn, e outra da legendária Madeleine Castaing. Tem escultura de Donald Judd, tem mesa baixa de Jean Royère dos anos 50, cadeira de Emilio Terry dos anos 40 e poltrona de Jean-Michel Frank dos anos 30. Tem pintura de Damien Hirst, tem nu de Mapplethorpe, desenhos de Aubrey Beardsley, armário de Mattia Bonetti e uma escrivaninha do século 18. Na sala de jantar, uma escultura de Harry Bertoia; no banheiro,outra de Louise Bourgeois. De tudo um pouco, emanando cultura, qualidade e pedigree.
Grange acredita que decorar é assumir riscos, fazer poesia, construir estilo. Pelos antiquários e flea markets de Paris e Nova York, e agora da Rússia e da China, não se cansa de ir atrás do que seja realmente extraordinário.