Maria Ignez Barbosa
 
           
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Textos e Entrevistas - Casa Estadão
 
25 de maio de 2008
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HOMEM DAS MIL E UMA ARTES

Charpentier – artesão, musico, designer e um Príncipe da art-nouveau – ganha mostra em no museu D’Orsay, em Paris.

Ele nunca foi reconhecido como foram Gaudí, Gallé ou os Guimard, esses notórios príncipes do Art Nouveau. Muito do trabalho do versátil artista e artesão parisiense Alexandre Charpentier, que viveu entre 1856 e 1909, acabou desaparecendo no tempo, sendo vendido, mutilado ou destruído. É portanto uma agradável surpresa que no Musée D’Orsay em Paris, uma atraente e bastante completa exposição tenha vindo oferecer ao público interessado nas artes decorativas a possibilidade de conhecer o trabalho e melhor saber quem foi este artista super-dotado que modelava com gesso, fundia no bronze, desenhava no couro, fazia pintura e criava moveis, tudo ao mesmo tempo, tal um verdadeiro faz-tudo ou “touche a tout” como dizem os franceses.
Como os modernos de hoje, já acreditava que a arte deveria permear totalmente e com beleza o nosso dia a dia. De personalidade extremamente sedutora e algo anarquista, podia apresentar-se ora como musico profissional, ora como homem de teatro desenhando programas, cartazes e retratos de atores, ou então simplesmente como um ativo elemento do “café society” em frívolos tempos de “Belle Epoque”.
Uma vida curta, agitada e, de início financeiramente difícil – morreu de câncer aos 53 anos no bairro chique de Neully- impediu que ficasse mais evidenciada a importância que de fato teve na prática do design e para o surgimento do Art Nouveau. Em vida, no entanto, conviveu e teve o apoio da vanguarda literária e artística ligada a Emile Zola e aos neo-impressionistas. Era amigo intimo de Debussy que foi seu padrinho quando do segundo casamento e que lhe dedicou uma de suas “imagens para o piano”. Charpentier, musico inato, foi violoncelista talentoso e chegou a tocar musica de câmera com grandes instrumentistas de calibre como o famoso Eugène Ysaye.
Nas artes plásticas e decorativas adotava quase sempre temas naturalistas que iam da família, infância e trabalho até água, musica e dança e que aplicava sobre qualquer tipo de móvel ou objeto como conceito ou ornamento. O primeiro sucesso aconteceu no Salão de 1883, com a escultura “A jovem mãe”, toda em mármore e hoje no Museu Granet em Aix en Provence. Somente em 1890, no entanto, em Bruxelas, num salão “avant-garde” chamado “Os XX” é que de fato se lançou, ao expor esculturas ao lado de Pissaro, Signac, Luce e Van Rysselberghe. Em seguida expôs no Salão dos Dissidentes da Escola de Belas Artes e ali, como havia um segmento de artes decorativas, teve a grande oportunidade de mostrar seus múltiplos talentos também nessa área. Foi quando começou a explorar, sob inúmeras formas, o gesso, o mármore, o bronze, a prata, o estanho, a cerâmica, a litografia, o papel e o couro lavrado. Inventava qualquer tipo de objeto e para eles qualquer uso: plaquetas puramente decorativas ou para aplicação sobre seus moveis, elementos de terminação como fechaduras, maçanetas, pêndulos, capas de livros, cartazes publicitários, tinteiros, medalhas, partituras, potes e o que fosse. Até uma vassoura para varrer migalhas ganhou beleza nas suas mãos e é peça que chama a atenção na mostra. Para Alexandre Charpentier qualquer coisa deveria ganhar algum toque de fantasia. Não parecia se importar com a hierarquia entre as artes ditas maiores, como a escultura e a pintura, e as ditas menores como a decorativa. Todo objeto funcional tinha de ser bonito ainda que banal, assim como um mesmo motivo ou tema poderia ser traduzido de maneiras diferentes.
Com amigos arquitetos, decoradores e escultores fundou o grupo “Arte em Tudo” em 1896 e é justamente quando começa a criar e a expor conjuntos de móveis Art Nouveau, a maioria desaparecidos. No entanto, a sala de jantar encomendada pelo banqueiro Adrien Bénard para a casa de Champrosay, remontada em 1986 no Museu d’Orsay e a extraordinária sala de bilhar do Barão Vitta em Evian estão expostas à visitação e são grandes exemplos da maestria desse artista tão versátil e adepto da multiplicidade. Foi quase um precursor do que hoje se chamaria um múltiplo ou objeto de arte em série, pois já acreditava então que uma mesma obra podia surgir reduzida, aumentada, traduzida ou editada em materiais diversos e com finalidades diferentes.
A exposição, intitulada Alexandre Charpentier, Naturalismo e Art-Nouveau, está divida em sessões que correspondem aos temas prediletos do artista. Vão dos primeiros experimentos em relevo aos conjuntos de mobiliário e à decoração de paredes. De forma abrangente e em detalhes, hão falar da família e das diferentes etapas da vida, do teatro, dos salões de arte, de exposições e de galerias, de publicidade e de difusão, de água, musica, dança e também do jogo. O que ele imaginou e criou como “arts de la table” está belamente à mostra na sala de jantar acima mencionada, um conjunto que é parte da coleção permanente do Museu d’Orsay.
Foi preciso recorrer a empréstimos de fora para possibilitar esta visão de conjunto da obra de Alexandre Charpentier. Muita coisa veio de Bruxelas, dos museus reais e de coleções particulares. O armário para instrumentos de quarteto de cordas com o seu púlpito foi cedido pela União dos Museus de Artes Decorativas da França e é tido pelos “experts” como a quintessência do Art Nouveau, junto com o piano Érard que também pertenceu ao Barão Vitta. A fantástica mesa de bilhar do Barão, onde em cada angulo uma bailarina contém as bolas nas pregas das saias, foi emprestada para a exposição por um colecionador particular. A fonte que é ao mesmo tempo uma pia, pelo Petit Palais de Paris. Quem não alcançar a exposição em Paris, onde um ciclo de musica de câmera e vocal foi programado paralelamente a exposição e em homenagem ao lado musical do artista que foi casado com duas pianistas e tinha uma enteada violoncelista, terá a chance de vê-la em seguida (de 29 de maio a 31 de agosto) no Museu Comunal d’Ixelles na Bélgica que abriga toda a coleção de Octave Maus, um dos primeiros mecenas e grande admirador de Charpentier. Também fieis colecionadores de Charpentier, foram os melômanos Arthur e Lucien Fontaine para quem o artista criava fechaduras e outras ferragens em bronze sempre com motivos de musica e de dança. Sua ultima grande obra, hoje desaparecida, foi feita em 1905 e chamava-se “A família feliz” e resumiria a felicidade tranqüila que viveu com sua própria família. Voltava assim, no fim da vida, ao tema de seus primeiros trabalhos.