Maria Ignez Barbosa
 
           
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Textos e Entrevistas - Casa Estadão
 
08 de junho de 2008
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DESIGN FEITO PARA O PODER

Pierre Paulin, que sempre teve seu nome associado ao governo francês, ganha retrospectiva em Paris.

Talvez por ter tido seu nome sempre associado à burocracia governamental do país, desenhado para o Palácio do Elysée, o Louvre e para o atelier de pesquisa e criação do “Mobilier national”, o francês Pierre Paulin não tenha até agora vivido a mesma notoriedade glamurosa de um Phillip Stark ou de uma André Putman, conhecidos compatriotas no ramo.
Aos oitenta anos feitos em dezembro passado, com festa organizada pelo setor cultural da Embaixada francesa em Nova Iorque e uma sucessão de exposições montadas por galerias de arte dentro e fora da França, Pierre Paulin parece estar chegando lá e ao som de muita pompa e circunstancia. Se não ao efêmero mundo das estrelas – é figura discreta e disciplinada - certamente ao panteão dos grandes designers do século XX.
Em Paris, nos domínios da Manufatura dos Gobelins, um conjunto de edificações do século XVII, na galeria de dois andares que é aberta ao público apenas para exposições temporárias, uma grande mostra , “Pierre Paulin, O design no poder” foi inaugurada em janeiro e estará aberta à visitação até 27 de julho. A retrospectiva não só homenageia e celebra o designer, faz o publico descobrir suas criações que já se tornaram “cult”, como, ao lado de uma seleção de peças históricas escolhidas pelo próprio Paulin, mostra como se dá essa relação quase missionária de servir ao pais através do design.
Bem antes de descoberto pelo Presidente Pompidou, Paulin já chamara a atenção da empresa Thonet que o contratou, em 52, para desenvolver novos materiais para marcas americanas como Eames, Saarinen e Bertoia. Foi, no entanto, a colaboração de cinqüenta anos com a holandesa Artifort, conhecida fabricante de estofados, o que ajudou a definir o seu estilo revolucionário que juntava o escultural ao funcional e a forma do corpo ao desenho em peças como a cadeira Oyster, a Mushroom, a Tongue e a Ribbon que voltou recentemente a ser produzida. Além do design futurista, as cores alegres dos tecidos “stretch” e as estampas ousadas do designer têxtil Jack Lenor Larsen fazem com que suas criações pareçam ainda tão arejadas e contemporâneas como nos anos sessenta. Inicialmente, devido ao seu gosto pela simplicidade e à recusa a qualquer efeito lírico, preferia que suas criações fossem identificadas apenas por números.
Os moveis inovadores de Paulin antecipavam, de certo modo, nessa metade do século XX, uma revolução social através do estilo de vida que propunham. No final dos anos 60, o governo francês o faz aproximar-se dos talentosos e inventivos artesãos do novo atelier de pesquisa e criação do “Mobilier National”, fundado em 1964 por André Malraux. Veio a incumbência da renovação da ala Denon no Museu do Louvre, em seguida a re-decoração dos apartamentos privados do Presidente Pompidou no Palácio do Elysée e, mais tarde, em 1983, a criação de moveis para o gabinete de trabalho de François Mitterand.
Em 1990 Pierre Paulin declarava: - Sou um servidor do poder, de todos os poderes”. Em outra entrevista, em 2005, explicava: - Em relação ao poder, tratei da sua representação pelo viés do funcionalismo. A volumetria das peças era uma das dimensões, uma reverência.”
Pierre Paulin nunca pareceu ter problemas em relação a ser um servidor da burocracia. Sabe que normalmente os governos não dão muita atenção ao design, a não ser, de quando em quando, em caso de governos totalitários e que, hoje, é a mão invisível do mercado o que define o sucesso de um artista. Sabe e aprecia, no entanto, que o móvel possa ser um dos mais fortes símbolos do poder e que na França, o Mobilier National é na verdade um guardião desse mobiliário representativo, seja ele da monarquia ou da republica.
Não é por acaso que ele próprio escolheu para incluir na mostra os moveis de campanha de Napoleão. Confessa-se um apaixonado por eles, pelo seu design tão profissional e visando uma situação de guerra: - Quando vi as embalagens das tendas, das cadeiras, os sacos de juta, as inscrições em stencil , tudo isso me fez pensar nas embalagens do exercito americano. Imagine almofadas de inflar, camas dobráveis de metal, cadeiras também dobráveis como se pode ver hoje, dois séculos depois, nas grandes lojas. Ele questiona o porque, na França, só se conseguiu ser moderno em épocas de guerra: -“Porque continuamos no contexto do passado, sem jamais pensar no presente e no futuro ?
A exposição atualmente na Galerie des Gobelins vem provar que Pierre Paulin conseguiu o oposto, fazer com que a França, e bem no seio da burocracia, em importantes ocasiões, aceitasse ser moderna. Não sem algum esforço: - “Tudo o que desenhei para o público são coisas que eu amei fazer para mim ou que eu amaria possuir eu mesmo. Lidar com o poder é outra coisa. Tinha de responder às necessidades do mandatário. Pompidou desejava a modernidade. Queria coisas novas com materiais novos. Queria produzir um choque. Já Mitterand era diferente.Tinha necessidade de estar ligado à tradição. Trabalhei com madeira, aprendi a usar a madeira de forma sólida apesar das formas complexas que eu tentava dar a ela. Foi um trabalho sofisticado em torno de técnicas que remetiam ao passado feito com os profissionais do Atelier.” Daí os moveis encomendados por Mitterand, terem sido pintados de azul com toques em vermelho, as cores da França.
Já Pompidou, mais vanguardista, deu, de saída, claras determinações. Nada de obras in locco. Barulho, então, nem pensar. Fazia questão de que tudo fosse reversível. Paulin não se deu por achado. As limitações lhe serviram de estimulo à criatividade. Criou módulos para revestir as paredes e montou o que dizia serem “peças dentro das peças”. O salão das pinturas, o fumoir, a sala de jantar, tudo ganhou cara nova em tons de bege claro, muito aconchego e harmonia nas formas curvas e funcionais dos estofados, mesas, estantes e tapetes.
Vale a visita que começa focando o conceito de uma administração moderna e passa pelas escadarias rodeadas de cadeiras de diversas épocas evocando o móvel como representativo do poder, e engata, já no segundo andar, na reprodução dos ambientes idealizados para George Pompidou. Em seguida os sofás, revestidos pelos chamados “envelopes têxteis”, as peças icônicas do mundo Pop feitas para a Artifort e, num “grand final”, o sofá Toune, ultima criação de Paulin para o Mobilier National.