Maria Ignez Barbosa
 
           
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Textos e Entrevistas - Casa Estadão
 
06 de julho de 2008
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UMA MULHER DE ESTILO

Falar de Ruth Cardoso é também falar de beleza – e de quem sabia ser elegante com recato e simplicidade.

Hoje dedico a coluna a uma pessoa muito especial cuja morte, súbita e recente, comprovou que no imaginário popular ela já era figura simbólica e icônica. Ao homenagear Ruth Cardoso, amiga e, digo com faceirice, também leitora desta coluna, não creio estar fugindo das questões estéticas e decorativas próprias do caderno, pois falar de Ruth é também falar de beleza, aquela da integridade e da ética; e também de estilo, aquele da elegância de ser com recato, dignidade e acima de tudo simplicidade.
Tive a oportunidade de privar de sua amizade e, portanto, o privilégio de poder guardar na memória a lembrança de momentos e ocasiões não apenas diversos e agradáveis, como enriquecedores, onde aprendi a querer-lhe bem e a tê-la como uma espécie de norte. Quando a conheci, FHC ainda não era político. Brasília, onde então morava com meu marido diplomata, não parecia lhe atrair, muito pelo contrario. Lembro quando me disse, o marido já em campanha para o Senado, que não iria para o palanque pois era ele o candidato, não ela. No governo Sarney, ainda morando em São Paulo, lembro de encontrá-la no Ministério da Justiça quando da posse da primeira presidente do Conselho Nacional da Mulher. Fiel ao gênero e militante pela conquista de maior atuação da mulher na sociedade, lá estava ela, de tailleur azul marinho, simples e elegante. Ouvi de uma amiga presente que não a conhecia: - Mas como a doutora Ruth é bonita!
Quando FHC virou Ministro das Relações Exteriores, no governo Itamar Franco, Ruth foi a Brasília conhecer e dar um jeito no apartamento funcional que ele ocuparia uma vez que o governo anterior acabara com as casas oficiais destinadas aos Ministros de Estado. Para meu espanto, pois nunca vira em Brasília um Ministro do Exterior sem vários empregados domésticos a disposição, ela me disse, diante do microondas, que a empregada não precisaria ficar até à noite pois o marido sabia esquentar a comida. Ruth àquelas alturas ainda não cedera completamente à idéia de mudar-se para Brasília, mas também nunca descumpriu do que entendesse ser seu papel como companheira de FHC, não importa fosse ele Ministro das Relações Exteriores, da Fazenda e, depois, duas vezes Presidente da República. Se fugia ao padrão estabelecido de alinhamento automático da mulher ao cargo do marido- não era sem razão que brigava com o rótulo de primeira dama - fazia o que julgava ser correto e solidário. Na Presidência, como bem se viu e se sabe, veio a identificar um espaço onde pode atuar e ser útil à sociedade, não um espaço de vaidade, aberto à bajulação ou que lhe servisse de trampolim para ambições pessoais. Assim como batalhou para a formação de parcerias produtivas e eficientes entre o setor público e o privado, sabia não confundir, na vida pessoal, o publico do privado e tratou de se manter distante dos holofotes preservando o espaço familiar onde filhos e netos tinham sua atenção constante e eram fonte de genuíno prazer. Assim, inovou e é modelo exemplar para novas gerações de mulheres que se desejam profissionais, atuantes e conscientes de um papel bem próprio na sociedade .
Quando FHC foi eleito Presidente, meu marido era Embaixador em Londres e foi àquele pais, para nossa satisfação, a primeira visita oficial ao exterior do casal Cardoso em 1995. Brincamos de experimentar chapéus pois rezava o protocolo que na cerimônia dos 50 anos do fim da guerra, razão da viajem à Inglaterra, a Rainha presente, eles deveriam cobrir a cabeça das mulheres. Houve outras passagens por Londres, inclusive a chamada visita de estado, em 1997, em que foram hóspedes em Buckingham Palace. Foi quando receberam a Rainha e vários membros da realeza e do governo para um jantar de retribuição na sede de nossa embaixada. Vi Ruth encantar-se com coisas belas mas nunca a vi deslumbrada, fosse com reis, rainhas, príncipes ou princesas. Preferia as exposições nos museus a bater pé em lojas, mas podia se deixar encantar por uma roupa de um artista designer, por um broche original de artesão, um belo xale indiano ou objetos de bom design como os da loja Conram onde fomos um dia atrás de vasos de flores modernos para enfeitar a mesa da sala de jantar íntima do Alvorada. Foi durante a gestão FHC, sob a orientação e a sensibilidade de Ruth, que o Palácio em Brasília ganhou moveis de bom design adequados à sua arquitetura e nos jardins foram colocadas belas esculturas cedidas por artistas plásticos e galerias. Com ela nada de grifes famosas. Seu estilo próprio as dispensava. Na visita de estado, para o grande jantar no Palácio de Buckingham vestiu um longo bordado vermelho escuro do brasileiro Lino Vila Ventura. Orgulhosa eu, da elegância da nossa primeira dama e, sabendo que não gostava da expressão, brinquei que ela era a nossa rainha. Fez careta.
Nas vezes em que se hospedou conosco, em Londres e depois Washington, sempre vi Ruth disposta a um concerto, uma peça de teatro, um lugar onde se pudesse comer bem e sem ostentação. Refinada, gostava da boa cozinha e sabia ver sofisticação numa comida caseira bem feita. Na embaixada em Washington lembro como curtiu uma boa omelete “baveuse” no andar de cima enquanto na grande sala de jantar, rolava um jantar formal de homens. Depois de deixarem a Presidência, não só FHC como ela também, foram convidados pela Library of Congress na capital americana para um estágio sabático de alguns meses. Viveram num flat e, tranquilamente, o casal ia e vinha de metrô, apesar do desejo de meu marido em deixar-lhes um carro a disposição.
Um dia, ainda nos anos oitenta, passou-me o endereço de uma cozinheira em São Paulo a quem nunca deixou de encomendar deliciosos cuscuz paulistas. Generosa, e sempre desejosa de promover artesãos e profissionais, deu-me dicas que me são úteis até hoje.
Ao longo de todos os anos em que o FHC foi presidente não a vi mudar ou deixar de ser a Ruth que havia conhecido tantos anos antes. Ainda durante o mandato presidencial do marido, lembro-me quando, como professora visitante, foi passar dois meses na universidade de Berkeley em São Francisco onde já havia lecionado anteriormente. Num fim de semana fomos visitá-la e a levamos, e a sua amiga Lourdes Sola, para jantar. Descobri que ia a pé para o campus todos os dias. Estava alegre, em seu habitat.
No apartamento da Rua Rio de Janeiro, pós-presidência, foi mantido o mesmo clima daquele da Rua Maranhão de tempos pré-poder. A mesma simplicidade, bom desenho, cortinas de rolo brancas em lugar das de bambuzinho de antes, objetos com história de vida e nenhuma ostentação. As cadeiras da sala de jantar do designer Carlos Motta são as de sempre, as poltronas moles de Sergio Rodrigues também, assim como a de balanço e o sofazinho Thonet. As duas gravuras de Miró compradas num sebo quando a filha Beatriz estudava na Espanha seguem na parede e, espalhados, os vasos e garrafas de vidro artesanal de que tanto gostava. Quando meu marido e eu, já de volta ao Brasil e morando em São Paulo, ali fomos jantar, comemos o mesmo cuscuz da cozinheira a quem costumava encomenda-los desde os tempos de Rua Maranhão. Era a Ruth de sempre. Perguntou se lembrava das duas cadeiras art-decô que comprara em Brasília para o primeiro apartamento e que seguiam acompanhando-os.
Um dia disse preferir quando minhas colunas no Casa& falavam sobre designers legendários mais do que quando tratavam de outros temas. Nem ela nem eu poderíamos imaginar que Ruth Cardoso seria hoje o meu assunto.
Na noite em que faleceu, oferecendo ao filho Paulo Henrique uma fruta na cozinha, Ruth estava feliz, pois tivera alta do hospital. Planejava a agenda do dia seguinte e delicadamente respondeu a vários e-mail de amigas desejosas de noticias. Foi vivendo que ela nos deixou. Para Ruth pensei na frase de Guimarães Rosa em seu discurso de posse na ABL, “As pessoas não morrem. Ficam encantadas”.