Maria Ignez Barbosa
 
           
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Textos e Entrevistas - Casa Estadão
 
20 de julho de 2008
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O PODER DE UMA COR

Exposição no Museu de Artes Decorativas de Paris destaca a força irresistível do vermelho através dos tempos.

“ Falar da cor vermelha é quase um pleonasmo. O vermelho é a cor por excelência, a primeira de todas as cores.” Assim falou Michel Pastoureau, em seu Dicionário das Cores de Nosso Tempo, e é o que a exposição Aussi Rouge que Possible demonstra numa bela ode ao vermelho e ao papel dessa cor tão sedutora no universo dos interiores, do design, da moda, do poder, da política e do nosso imaginário, inaugurada recentemente no Museu de Artes Decorativas de Paris.
Desde que o mundo é mundo, pessoas e grupos poderosos se revestiram de insígnias, distinções e vestimentas na cor escarlate, púrpura e carmim. Na Idade Media era proibido às pessoas comuns vestirem a cor púrpura ou usar adornos nas armaduras, a menos que se tratasse de um príncipe ou que se tivesse tido permissão. Na simbologia heráldica as gargantilhas significavam a caridade, a valentia, a ousadia e a generosidade.
Apenas um toque de rubro podia revelar virtudes reais. Não foi, portanto, sem boa razão que Carlos Magno, quando sagrado Imperador dos Romanos em 25 de dezembro no ano 800, calçou sapatos de couro vermelho. A partir do século XIII, o Papa que até então vestia branco, passou a adotar o púrpura e foi seguido pelos cardeais em escarlate. Na França, os grandes dignitários do exercito vestem vermelho e os magistrados um uniforme rubro. Para recompensar àqueles que prestaram eminentes serviços à nação, Napoleão, em 1802, instituiu a Legião de Honra com a fitinha vermelha tão característica. E quem não sabe que desenrolar um tapete vermelho é costume utilizado pela maioria dos paises para receber hóspedes ilustres? Ou quem já não disse a um amigo que o receberá em casa com tapete nessa cor tão majestática? Que outra, portanto, poderia ser mais popularmente imponente ou emblemática do que a cor vermelha?
No campo político, com exceção dos paises islâmicos onde a cor é associada à fé, o vermelho é o que vem servindo para ilustrar universalmente, o comunismo ou a luta. Na França, a partir de 1791 a bandeira vermelha já passara a encarnar o povo oprimido, pronto a se bater contra a tirania. A Rússia, em 1917, viveu o seu Outubro Vermelho e em 1918 adotou a bandeira vermelha que depois, em 1922, ganharia a foice e o martelo para celebrar o nascimento da união das republicas soviéticas.
Na China o pequeno livro vermelho de Mão Tse Tung teve tiragem de mais um milhar de exemplares e o telefone vermelho marcou a diplomacia internacional nos recentes quarenta anos de guerra fria.
Em matérias menos ideológicas, como amor e erotismo, o vermelho aparece também imbatível. Na Idade Media as prostitutas eram obrigadas a usar uma peça de roupa em vermelho como atestado de seu status e uma lanterna vermelha nas fachadas dos prostíbulos era uma senha do estabelecimento.
Até o século XIX a roupa intima, ou aquela que tocava o corpo, tinha de ser branca, nunca tingida. Uma das razões era de ordem moral posto que as cores vivas eram consideradas impuras. A outra, de ordem mais pratica; a roupa de baixo tinha de ser fervida e, caso tivesse cor, a perderia. Foi justamente nesses tão idos tempos que as cortesãs passaram a adotar o vermelho, a dita cor da luxuria. É quando a mulher começa a se emancipar e os fabricantes de rendas e afins tratam de se adaptar à uma nova clientela. Surge um novo vocabulário. O vermelho passa a ser sinônimo de pecado, loucura e escândalo. Aparecem também os artifícios da maquilagem, o batom vermelho e o hoje velho “rouge” para colorir as bochechas. E seu uso exagerado passa a ser uma forma de chamar a atenção.
Cor ambivalente, que pode ter matizes, ser assustadora, majestosa, feérica e infernal, o vermelho teria sua força simbólica por estar ligada a dois referenciais básicos, o fogo e o sangue. A exposição, no quesito interiores, mostra a intemporalidade do vermelho no campo das artes decorativas, técnicas de tingimento de tecidos, o gosto pela laca vermelha chinesa, o papel dos tapetes orientais e como a cor vem colorindo calorosamente paredes de casas principescas há vários séculos. A “vermelha”, a já famosa cadeira dos irmãos Campana está firme e a postos na exposição, ao lado de uma poltrona também vermelha e orelhuda do século XVIII. Haveremos de passar por armários neo-barrocos como o chamado “Inferno” da dupla Garrouste e Bonetti, por vidros vermelhos, moveis e objetos os mais diversos.
E quantos já não se inspiraram em bocas vermelhas para anúncios, cartazes e também para o design de móveis? Pois vem dos lábios de Mãe West a inspiração para o sofá em forma de boca até hoje editado pelo Studio 65.
De como o vermelho invadiu o imaginário popular os exemplos são também infinitos: uma ambulância de 1920, soldados de infantaria, carros de bombeiro, um assassinato em cartaz da Benetton, anuncio de meias Scandale , bandeiras vermelhas de alerta, o papai Noel e por ai vai.
Sempre antenada e ciente do que enfeita e seduz, a moda nunca abriu mão do vermelho que vai surgir num belo vestido de Elsa Schiaparelli de 1939, em longas botas de Roger Vivier debruadas de renda de 1987, num chapéu de palhinha vermelha com recorte de boca na visiera, nas roupas dos nobres, mais precisamente nas capas da realeza que aparecem nas pinturas do retratos históricos oficiais.
Bem a propósito da cor em questão, embora não esteja na exposição francesa, mas estará em breve e ainda melhor posicionada, na Tate Gallery de Londres a partir de outubro, vale lembrar o trabalho do artista brasileiro Cildo Meireles, “Desvio para o vermelho” e que ali estará exposto até janeiro de 2009, entre outras obras importantes desse artista numa grande individual em sua homenagem. Trata-se de um ambiente todo vermelho, do tapete aos quadros, passando por sofás, mesas, cadeiras e objetos e que faz parte do acervo do Centro de Arte de Contemporânea de Inhotim em Brumadinho. Cildo, que acaba de ganhar dois prêmios internacionais, o Velásquez e o Ordway é que é considerado um dos maiores artistas conceituais da atualidade, executou esse trabalho durante a ditadura militar. Numa leitura política a cor faria alusão às vitimas do regime policial entre 68 e 84 mas poderia ser visto também sob outros ângulos uma vez que a cor pode nos remeter a tantos outros campos dos nossos sentidos e das nossas emoções.