Maria Ignez Barbosa
 
           
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Textos e Entrevistas - Casa Estadão
 
03 de agosto de 2008
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A CHINA TAMBEM FAZ DESIGN

Exposições em Londres destacam o pais como representante de uma nova leva de designers e arquitetos.

É o que o tradicional museu londrino Victoria&Albert acaba de comprovar com duas exposições, uma em seus salões, a China Design Now, com 200 exemplos do design chinês contemporâneo e outra em seus jardins, a Poly&Chai, uma instalação com biombos de plástico reciclado do arquiteto Yung Ho Chang.
Já é comum darmos de cara com a etiqueta “made in China”, ou associarmos a China a brinquedinhos ou engenhocas de plástico ou metal colorido, mas ainda é um mistério para a maioria das pessoas no ocidente a forma como a criatividade chinesa, aliás portentosa, vem se desenvolvendo desde as recentes transformações políticas e a maior liberdade econômica permitida à população. O que esta mostra tenta explorar são justamente os sonhos e as esperanças dessa China das ultimas duas décadas, não só como nação, mas também como representativa de uma nova leva de jovens designers individualmente.
O roteiro escolhido começa pela cidade de Shenzhen, em 1990, onde primeiro se começou, apesar de muito timidamente, a explorar novos caminhos em matéria de um novo desenho chinês. Ficou conhecida por seus artesãos e desenhistas gráficos. Passa por Xangai onde o consumismo e a cultura urbana se juntaram para a extraordinária produção de novos modos, hábitos e costumes, e desemboca em Pequim, a sede do governo e futura sede das Olimpíadas Internacionais. Ali, em ritmo mais ainda acelerado pela iminência dos jogos olímpicos, uma monumental e nova arquitetura assinada por nomes famosos importados do ocidente e também por muitos dos novos locais, vem já há muitos anos transformando a paisagem e o perfil da capital dos chineses.
Xangai, desde o século XIX, é a cidade mais internacional da China. Em 1920 era chamada de a Paris do Oriente e já viveu o seu momento de terceiro maior centro econômico do mundo. Pode-se dizer que foi ali que a China moderna começou. O primeiro carro chinês, o primeiro filme e bem antes o primeiro vestido qpao ( aquele de gola alta,coladinho ao corpo, abotoado e com abertura lateral) nasceram nesse maior centro industrial do pais. Em 1949, com a revolução comunista, houve uma debandada dos mais abastados para Hong Kong e desde quando, em 1992, esses mesmos começaram a voltar, vem se produzindo na cidade uma verdadeira renascença. Surgiram os “style makers” e os “trend setters” locais, aqueles tão nossos conhecidos formadores de gosto, estilo e tendências, parte integrante das mais avançadas sociedades capitalistas, propondo um novo tipo de consumo e desenhando um novo comportamento para o dia a dia das pessoas e seu entorno. No caminho de se tornar o primeiro mercado de luxo do mundo – o Japão ainda detém essa posição - os chineses querem mais é que o mundo lhes reconheça esse novo status de ator global influente. E assim, vem se afirmando com vigor, uma emergente sociedade de consumo e uma novíssima classe media urbana onde a criativa e espontânea moda da rua também dita regras.
Já Pequim, o maior centro cultural e político do pais que, avidamente aproveita as Olimpíadas para tentar projetar definitivamente a China no mundo, tornou-se celeiro para uma nova geração de arquitetos e urbanistas. Obvio que não faltaria na exposição o projeto, já tão divulgado mundo a fora, do novo estádio olímpico de Pequim, com estrutura arredondada e fachada de fios tramados da mesma dupla de suiços, Herzog e Demeuron que projetou a Tate Modern em Londres.
Os mais de 200 projetos da mostra vão da moda à fotografia, de websites a moveis, movidos por uma criatividade que em nada deixa a desejar ao ocidente. Ainda ligados à pureza das formas gráficas tradicionais se pode ver os belos posters de Wang Wu e Wang Yuefei que hoje lidam com conceitos de expressão individual o que seria impossível na China de há duas décadas. Há projetos que falam de nostalgia como o do clube Youg Foo Elite em Xangai com decoração que reproduz os tempos de ouro da cidade antes dos abalos causados pela segunda guerra mundial. Xie Feng, o primeiro designer de moda chinês a apresentar uma coleção na semana da moda em Paris, em 2006, e também o jovem designer Han Feng que recentemente desenhou os costumes para a ópera Mme Butterfly de Anthony Minghella estão presentes na mostra com belos trabalhos.
A força dos jovens e do humor está evidente nos desenhos de “fanzines”, capas de CD, livros cômicos, brinquedos, camisetas e por ai vai. Livros que, no ocidente, sairiam muito caro nas bancas por incluírem maior tecnologia como sofisticadas raspadinhas metalizadas, são ali accessíveis posto que a mão de obra abunda e sobra. A ver pelo ritmo das mudanças e pelo gosto e demanda por novas tecnologias, não vai demorar a que alcancem a capacidade dos mais avançados paises do ocidente e do Japão. Quanto às aspirações e atitudes que se refletem na maneira de vestir e no comportamento dos jovens chineses, nada os faz destoar daqueles das ruas de São Paulo, Londres ou Dubai.
Nos jardins do Museu, de forma suntuosa mas com delicadeza, transparência e se harmonizando à paisagem, um conjunto de biombos por onde as pessoas podem passar e passear, é uma instalação do arquiteto Yung Ho Chang que fundou, em 1993, o primeiro escritório privado de arquitetura da China, o Atelier FCJZ. Apesar de inspirado no design tradicional chinês de jardim, esse trabalho também nos remete aos painéis de treliça e em geral verdes dos jardins franceses. Yung que hoje é chefe do centro de arquitetura do MIT, o Instituto de Tecnologia de Massachusets, teve a idéia de utilizar, para a feitura desses biombos os pequenos tijolos vasados de plástico verde muito usados na China para pavimento em obras, estacionamentos e passagens públicas.
Não parece longe a hora dos chineses estarem impondo um novo design ao ocidente. A China, um pais que há quatro décadas esperava que sua população se gabasse de poder produzir uma maquina de costura, um relógio, uma bicicleta e um radio e que hoje anda as voltas com Nokias, BMWs, Macs da Apple e casas projetadas por Zaha Hadid, agora já pode cantar vantagens. Sem deixar de provocar em nós um friozinho na barriga.