Maria Ignez Barbosa
 
           
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Textos e Entrevistas - Casa Estadão
 
17 de agosto de 2008
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LISTRAS ENTRE O BEM E O MAL

Ao longo da história, o pano listrado colecionou uma miríade de significados. No décor, é difícil ignora-lo.

Não faz tanto tempo, em Paris, no bicentenário da Revolução francesa em 1986, abusou-se das listras em todos os eventos comemorativos. Em azul, branco e vermelho, era como se brandissem que sem elas não existe clima revolucionário.
O pano listrado, no entanto, tem história bem pretérita a de qualquer revolução. Já serviu, ao identificar loucos, doentes e contagiosos, para bani-los do convívio com o comum dos mortais. Assim foi na Idade Media, quando eram mal vistas e destinadas aos perturbadores da ordem. Vestiam do judeu e do herético ao bufão ou saltimbanco, passando não só pelo leproso, o carrasco ou a prostituta, mas também pelo cavaleiro traidor dos romances da Távola Redonda, pelo insensato do Livro dos Salmos e pelo personagem de Judas. Numa cultura onde o visível era primordial, e sendo a roupa o seu suporte mais visível, lia-se nas barras contrastantes das listras um sentido diabólico.
Já no renascimento as listras passaram a ser vistas sob nova ótica, apesar de ainda vigentes os usos e códigos precedentes. Vieram as “boas” listras, sinalizando festa, exotismo e liberdade, o que, no entanto, não impediria os nazistas, em pleno século XX , de as usarem como uniforme dos deportados dos campos de concentração.
As listras passaram também a indicar perigo na sinalização de estradas, a sugerir higiene sendo estampa em roupa de cama e a serem emblemáticas ao decorar uniformes, insígnias e bandeiras. Enquanto as listras medievais eram simbólicas da desordem e da transgressão, as modernas foram usadas para organizar visualmente o mundo infantil e do esporte. Se na Idade Média a Fortuna, aquela que assustava ao fazer girar o destino dos homens vestia listras, hoje elas fascinam e inspiram artistas, decoradores, fotógrafos e cineastas.
Fato é que, ao contrário do tranqüilo pano liso, o listrado já muito perturbou. Na França, quando São Luis regressou a Paris em 1254, depois de um longo cativeiro de quatro anos, resultado de uma Cruzada mal sucedida e trazendo consigo vários irmãos da ordem de Nossa Senhora do Monte Carmelo, foi um Deus nos acuda. Os carmelitas, que desde os seus inícios na Palestina, para se distinguirem de outras ordens mendicantes, vestiam um manto listrado, viriam, sem querer, a causar uma polemica que durou várias décadas. Foram ridicularizados, zombados e apelidados de frades “barrados”, o que, em francês, significa também bastardos. Tanto barulho que o Papa Bonifácio VIII se viu obrigado a promulgar uma bula, em 1287, confirmando a proibição a qualquer ordem religiosa de vestir o hábito listrado.
Esse caminho “transgressor” e cheio de percalços das listras está bem documentado não só na literatura latina da época, mas também nos textos em língua vulgar como as canções de gesta e os romances cortesãos nos séculos XII e XIII. Cavaleiros, traidores, usurpadores, anões, mulheres adúlteras, filhos rebeldes, todos eram instados a ostentar listras heráldicas ou têxteis em suas túnicas, armas, bandeiras, gualdrapa dos cavalos ou capacetes.
Assim como a cabeleira ruiva, as vestes listradas são um traço comum do traidor das escrituras. Na Bíblia elas enfatizam o caráter pérfido de Caím, Dalila, Judas, Saul e Salomé. As listras, porque transgressivas também da ordem cromática, parecem ter bem servido a essa simbologia.
Na decoração ou na moda elas em geral não vem sozinhas. Para que funcionem e assumam toda a sua força e efeito, são em geral associadas ou opostas a outras estruturas de superfície como o liso, o estampado, o xadrez ou o malhado. A visão do homem medieval parecia exigir materialidade e superfícies claras. O contraste do branco com a cor escura serve bem a esse propósito. A pautação da listra ou do xadrez, por sua vez uma forma superlativa do listrado, facilitava localizar lugares e objetos, estabelecer seqüência, classificar e hierarquizar. Em paredes, chão, tecidos, utensílios, no pelo de animais, não importa. Vale lembrar as pinturas de Vermeer e de outros pintores holandeses do mesmo período onde um chão preto e branco tão bem define o espaço da cena retratada.
Entre o inicio do século XV e meados do XVI as linhas geométricas abundam também na vestimenta dos pajens, escravos ou criadas. As listras ganham, sobretudo em Veneza, uma dimensão exótica pois vestiam os escravos africanos servindo nos palácios. As listras ligaram-se assim à idéia de exotismo oriental (na idade media acreditava-se que a África ficava no oriente), ao paganismo e ao primitivo. Dai elas terem sido usadas depois, na pintura e na literatura, para representar os índios americanos e os indígenas da Oceania.
Com a modernidade, embora as listras continuassem a vestir empregados domésticos, passaram a ser usadas com mais liberdade como em sentido vertical, misturadas a estampas e sem regra de eqüidistância. Na Europa do século XVIII as listras aristocráticas e as camponesas, as festivas e as comuns, as exóticas e as domesticas coexistiram em santa paz. E a zebra, tida pelos zoólogos do século XVI e começo do XVII, como asno selvagem, criatura perigosa, imperfeita e impura passou a ser cantada pelo naturalista Buffon como o mais harmonioso e elegante dos quadrúpedes.
Chegava-se ao período das luzes, quando as listras viraram moda e ganharam status ideológico. A revolução americana produz a bandeira com treze listras vermelhas e brancas que representam as colônias sublevadas contra a Inglaterra. Passa a representar a liberdade e as novas idéias. Difunde-se na Europa. Pega em cheio a decoração de interiores e estofados, que rompe com as guirlandas e as estampas com motivos pequenos e de “chinoiserie”. Um onda neoclássica atrai as listras e, na França, no final do período Luis XVI e durante o diretório, são muito usadas em cortinas e estofados. No Império e para além dele, mesmo destituídas de conteúdo político, seguiram em moda. O olhar do decorador descobre que, se revestindo paredes, podem fazer um cômodo parecer mais alto. Associam-se ao romantismo. Era chique e refinado erguer em casa tendas listradas à egípcia, ali fazer as refeições, dormir e receber amigos. Tendas de praia, guarda-sóis, toalhas esportivas, maiôs e calções de banho tinham de ser listrados. Era a moda entre 1900 e 1920.
Hoje servem a um bom cenário. O decorador português Pedro Espírito Santo, por exemplo, não se cansa de usá-las. Marcou época misturando-as às famosas chitas estampadas de Alcobaça, em colchas e edredons, pintando paredes, moveis, assentos de palhinha e alegrando as antigas casas européias. Na Inglaterra virou sofisticado usar os “tickings”, aqueles panos listrados de algodão conhecidos como forro de colchão ou uniforme de mordomo das casas inglesas, em cortinas e estofados num pari passo com sedas e moveis de época. Indo ou vindo as listras seguem firmes e se reinventando. Dai que dispensa-las, pelo visto, jamais.