Maria Ignez Barbosa
 
           
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Textos e Entrevistas - Casa Estadão
 
14 de setembro de 2008
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A ERA DE OURO DE UM ESTILO

O período vitoriano, marcado por avanços sociais e de tecnologia na Inglaterra, ditou moda mundo a fora.

Ela foi Rainha da Inglaterra entre 1837 e 1901, mas o período a que Vitória emprestou o nome, teve duração bem além de seu próprio reino. Pode-se dizer que surgiu em 1815, quando a política expansionista de Napoleão saiu de cena, antes mesmo do nascimento da pequena princesa em 1819, e se perpetuou até 1914, quando eclodiu a primeira guerra mundial do século XX.
Isso no caso de querermos limitar no tempo um estilo que evoluiu fazendo releituras ou “revivals” do gótico, do clássico, do rococó, do elisabetano e por ai afora, sempre com ingredientes de exotismo oriental e que não parece, apesar de estarmos no século XXI, ter sido completamente relegado ao passado. Como se verá, ainda há quem ache graça nessa superposição de estilos, quem curta acumular, colecionar, buscar inspiração em terra alheia e recriar elementos e detalhes do vitoriano de forma consciente e brincando com o ridículo.
Vivia-se então na Inglaterra um período de avanços, de surgimento de novas tecnologias e de grande mobilidade social onde a população rural se transformava em urbana. Foram os mais abastados dessa nova classe média trilhando as novas estradas de ferro e nas pegadas da aristocracia, os que de fato vieram a ditar os novos estilos e costumes que logo atravessariam o oceano para se impor também nos Estados Unidos, Austrália, África do Sul e Índia. Tornava-se mais fácil produzir, e, portanto, mais barato comprar conforto e modismos. Morava-se melhor e a aparência dos interiores passou a ser primordial. Leis de higiene foram decretadas e era considerado vulgar, até mesmo imoral, não dar importância e atenção à casa. Acumular objetos, possuir moveis entalhados, misturar estilos, forrar o chão com tapetes estampados, enfeitar lareiras com cerâmica pintada, ter cortinas emoldurando portas ou drapejadas nas janelas, forrar paredes com papel estampado eram demonstração de evolução social, riqueza e considerado de bom gosto e tom. E a multiplicidade de objetos espalhados com cuidado por sobre qualquer superfície disponível de um modo a não fazerem sombra uns aos outros, servia de assunto para a conversa em festas e jantares. E, sinal também desses agitados anos, foi assinada em 1842 a Registration Act, uma lei para proteger os criadores das cópias e reproduções. Surgia o design e, em retrospecto, é do escocês Christopher Dresser o titulo de primeiro designer industrial da Inglaterra e de William Morris, na segunda metade do século, o de primeiro style setter.
Entretenimento e deleite era fazer “window-shopping” pelas grandes exposições internacionais, atualizar-se sobre novidades, comerciar e aprender. Dar de cara com madeiras raras e outras novidades importadas era como viajar sem sair do lugar. E colecionar, uma divertida decorrência. Foi marco e fez história, a Great Exhibition de 1851 no Cristal Palace, um verdadeiro palácio de cristal erguido em Londres com esse propósito e que fez a romancista Charlotte Bronté escrever sobre “a grandeza dessa exposição que não consiste em uma coisa em si só, mas no acúmulo de todas essas coisas produzidas em diferentes partes do mundo.”
Pois de tudo parecia haver ali: móveis imitando bambu, estatuetas black amour, vidros de perfume com formas e diferentes cores de cristal, caixas revestidas com conchas, roupas de cama, mesa e banho em linho com rendas e bordados e entremeadas por fitas, caixas de tartaruga ou laca imitando o xadrês ou “tartan” dos escocêses, cerâmicas tipo majólica e tudo o que antes jamais se sonhara poder existir. Tomar chá estava na moda, daí que abundavam jogos de chá compostos de bules, leiteiras e açucareiros, em prata ou estanho mas sempre com desenhos e muito ornamentados. Foi quando os vitorianos descobriram a “bone china”, uma porcelana mais barata do que aquela feita no século anterior.
Embora Vitória, a Rainha do período, fosse discreta e recatada, as fantasias barrocas dos reinos anteriores de Jorge IV e Guilherme IV prevalecia e dava o tom, tanto que até os objetos da maior domesticidade eram decorados de forma extravagante com figuras grotescas, guirlandas e animais. Na segunda metade do século – o século XIX também viveu os seus anos sessenta na moda e nos costumes - já eram evidentes algumas reações a esses excessos. O movimento Arts&Crafts, do qual William Morris foi um dos criadores, começou a produzir cerâmicas e outros moveis e objetos onde função e forma melhor se harmonizavam. Os motivos passaram a ser buscados na natureza. Em lugar da cerâmica produzida na primeira metade do século onde até a cara de conhecidos criminosos era tema de estatuetas, surgiram imagens sentimentais ou domésticas como as de crianças dormindo.
Num século que viveu o advento da produção em massa em relativa paz, difícil resumir as variações em matéria de tendências, modas e hábitos dentro e fora da típica casa vitoriana. Apesar do aparente vale tudo posto junto, a cara do vitoriano é bem própria e organizada em seus excessos. Vale rever o filme A Idade da Inocência de Martin Scorsese, baseado no romance de Edith Wharton para um belo apanhado do estilo, da moda e dos costumes, morais inclusive, nessa era de espartilhos, preconceitos e amores impossíveis. É, aliás, de Edith Warton, junto com Ogden Codman, o primeiro livro de decoração de que se tem noticia, The Decoration of Houses. Nele, entre regras de simetria e rigor, aprendia-se que no hall de entrada de uma casa vitoriana não se deve colocar uma pintura importante ou qualquer coisa que exija maior atenção ou reflexão. Sendo lugar de passagem ou espera, além de um cabideiro ou hang tree para a bengala e o chapéu, bastaria um busto num pedestal ou algum nicho além da mesa com a bandeja para os cartões de visita.
São nossas conhecidas e belas sobreviventes da era vitoriana a linda loja Liberty’s em Londres, sempre se renovando sem abrir mão dos lambris de madeira escura que ali estão desde sua inauguração no final do século XIX e a americana Tiffanny’s cujas famosas luminárias de vidro pintado foram tão marcantes na decoração da típica casa vitoriana.