Maria Ignez Barbosa
 
           
Tamanho do texto: A A A
Textos e Entrevistas - Casa Estadão
 
17 de outubro de 2010
           « anterior | próximo »


O mais romano dos palácios

Sete anos e dezenas de especialistas foram empregados no primeiro restauro do Palazzo Sacchetti desde o século 18

Adentrar as portas do Palazzo Sacchetti é como mergulhar num cenário do cineasta italiano Luchino Visconti. Não espanta que entre suas paredes tantos filmes tenham sido rodados e que a bela sala de jantar tenha sido o local escolhido pela arquiteta Zaha Hadid para uma festa de confraternização em maio de 2010, foi inaugurado em Roma, com projeto de sua autoria, o ultramoderno MAXXI – Museu Nacional de Artes do Século 21.
O que talvez pouca gente saiba é que a castelã e grande responsável pela última reforma e restauração deste belo palácio romano – construído em 1542, que já abrigou cardeais, banqueiros, príncipes e diplomatas e que é seguidamente visitado por reis, rainhas e chefes de estado – é uma brasileira, criada em São Paulo, cujos pais italianos naturalizaram-se brasileiros nos anos 50.
Giovanna Zanuso, feita marquesa Sacchetti em 1984, quando se casou com o marquês Giulio Sacchetti,mora desde então neste precioso palácio, situado na Via Giulia – não longe do Vaticano –,em meio a afrescos de Francesco Salviati e Pietro di Cortona, telas de
Poussin, Velásquez e outros grandes mestres da pintura, além de uma invejável coleção de móveis e objetos maneiristas (nome dado ao estilo barroco pré-renascentista na Itália do século 16). Foi então que Giulio, viúvo, cinco filhos,e descendente de uma antiga família de banqueiros florentinos que vive no palácio desde 1649, animou-se a adaptar aos novos tempos este monumento tombado, quase tão antigo quanto a descoberta da América, e que desde o século 18 não era restaurado.
Para que crimes contra o patrimônio não fossem cometidos, vários especialistas e restauradores de arte foram convocados. Era preciso saber como dar vida nova aos pisos de pedras originais, fazer luzir mármores e pinturas envelhecidos e adicionar instalações hidráulicas, elétricas e de telefonia que não provocassem danos. Sala por sala, com cuidado extremo, o casal se dedicou a transformar o Palazzo Sacchetti no mais romano dos palácios romanos. O processo levou sete anos e exigiu paciência, respeito, obediência e dedicação quase exclusiva. Ao mesmo tempo, no entanto, causou enorme prazer, trouxe aprendizado e despertou curiosidade. Ao contrário de muitos outros palácios italianos, onde o que fosse francês era bem acolhido,a ideia era que a decoração se mantivesse fiel ao estilo romano e só abrigasse móveis italianos – mesmo que de diferentes períodos.
Giulio, apesar de ciente da riqueza e da qualidade de seus pertences, das sugestões e do apoio que recebeu de estudiosos e museólogos, e de desejar que suas salas fossem visitadas pelo público interessado, não queria que a nova ambientação desse ao palácio cara de museu ou o transformasse em simples abrigo de obras-primas. Era importante que mantivesse o aspecto de casa bem vivida, por donos acostumados ao belo e ao refinado. Quem muito ajudou Giovanna nas questões decorativas de reambientação das chamadas
stanze, ou salas em sequência, foi Federico Forquet, o estilista apelidado de Dior italiano e conhecido pelo palazzo pijama, conjunto de túnica e calça tão em moda nos anos 60, e que se tornou decorador ao fechar seu ateliê em 1972. Culto e delicado, divertiu-se com Giovanna pesquisando os modelos de cortinas e de porteiras (cortina do que precede as portas entre as stanze), brocados e veludos de diferentes períodos e que ganhariam bordados com as insígnias da família, além de diversos tipos de estofados e cores da encáustica (pintura com cera de abelhas) nas paredes.
Detalhes como as colunas que sustentam as janelas nas fachadas, a decoração do grande hall e da sala dos mapa-múndi – com os afrescos de Salviati mostrando cenas da vida do rei David e os gigantescos globos do século 17 –, as centenas de retratos da família, os móveis romanos autênticos, os retratos dos reis Felipe IV e de Isabela de Bourbon por Diego Velásquez (doados pelo casal real ao cardeal Giulio Sacchetti em 1627 quando de seu retorno à Itália depois de servir por três anos como núncio apostólico em Madri)
e a capela familiar, também com afrescos, são as principais atrações da ala nobre deste monumental palácio que dispõe de 52 apartamentos independentes. Em cinco deles moram atualmente os filhos de Giulio, morto em 2009 e que, por ter ocupado o posto de governador da Santa Sé, está enterrado na Capela Del Governatorato do Vaticano.
O banqueiro Giovanni Battista Sacchetti mudou-se de Florença para Roma na segunda metade do século 16, mais exatamente em 1573. Seguia as pegadas de outras famílias de banqueiros como os Barberini, os Aldobrandini, os Ruspoli e os Corsieri, todos buscando distanciar-se do excesso de poder dos Medici em sua cidade natal. Logo se casaria com Francesca Altoviti, da colônia florentina, de família mais antiga que a sua e, em Roma, desde o século anterior. Antes de sua morte, em testamento de 1615, Giovanni Battista pedia aos filhos que construíssem uma capela e um mausoléu na Igreja S. Giovanni dei Fiorentini na Via Giulia, onde desejava que fossem colocados seus restos mortais. Até a compra,em 1649, do futuro Palazzo Sacchetti, construído em 1542 pelo arquiteto Antonio da Sangallo, situado na mesma rua da igreja que acolheu o túmulo do patriarca, a família, embora já dona de grande fortuna, havia morado de aluguel, inclusive no belíssimo e luxuoso Palazzo Sforza Cesarini.
Desde a chegada a Roma, os Sacchetti souberam cultivar não somente os amigos florentinos, mas também a comunidade eclesiástica da Santa Sé. Chamaram a atenção da elite transformando riqueza em consumo cultural. Já entendiam o mecenato culto e refinado como eficaz e representativo instrumento do agir e da ascensão social. Não sem justa causa, portanto, Marcelo Sacchetti (1586-1629), filho mais velho do patriarca Giovanni, recebeu do Papa Urbano VIII a concessão do Depósito Geral e da Tesouraria Secreta do Vaticano, além do título nobiliárquico de marquês, que se estendia a seus irmãos. O irmão Giulio (1587 1663), depois de enviado como núncio apostólico a Madri, foi feito cardeal pelo mesmo Urbano VIII, e chegou a ter seu nome cogitado para pontífice quando da morte do papa.
Logo depois da reforma, em 1991, Giovanna e Giulio Sacchetti resolveram abrir os salões do palácio com uma exposição a que deram o nome de Fasto Romano e que reunia todos os retratos da família, inclusive o do cardeal Sacchetti pintado por Pietro di Cortona (1596-1669), autor também dos afrescos do teto da galeria Cortona, uma das mais belas e importantes salas da Embaixada do Brasil na Itália, o Palazzo Pamphili.
Alguns anos depois, quando foi organizada na Academia de França em Roma uma exposição Sobre Francesco Salviati (1510-1563),os marqueses Sacchetti abriram novamente as portas do palácio para que o público pudesse visitar a sala dos mapa-múndi,com os afrescos do pintor maneirista, discípulo de Rafael, e os magníficos globos do século 17. Outro feito de Giulio, no sentido de mais pessoas terem acesso a esse rico acervo, foi a edição do livro Palazzo Sacchetti, pela De Luca Editorid’Arte, com introdução de sua autoria, curadoria de Sebastian Schutze e texto de estudiosos e profissionais da arte. As fotografias, dentre as quais algumas ilustram esta coluna, são de Beatrice Pediconi e Gianluca Bianchi.