Maria Ignez Barbosa
 
           
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Textos e Entrevistas - Casa Estadão
 
30 de outubro de 2010
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O último romântico

Em suas aquarelas, o americano Jeremiah Goodman ilustra ascasas de celebridades como Greta Garbo e Carolina Herrera

Depois de passar a vida retratando e capturando com seus guaches e aquarelas a alma e o espírito de casas e apartamentos de figuras conhecidas do smart-set para as mais sofisticadas revistas de estilo e decoração, chegou a vez de o desenhista e pintor americano de quase noventa anos Jeremiah Goodman ser, ele próprio, reconhecido e celebrado.
Inspired Impressions: Interior Paintings by Jeremiah Goodman, exposição organizada em 2010 na NYSID, a Escola de Design de Interiores de Nova York, reuniu 38 aquarelas pinçadas entre as favoritas do artista, que retratam salas de jantar, livings e quartos de celebridades, como Greta Garbo, e importantes tastemakers
do mundo da moda, como Carolina Herrera, Diana Vreeland, Edith Head e James Galanos. Também apresentou 25 das já icônicas capas criadas para a revista Interior Design Magazine entre 1952 e 1967.
Ao fazer essa mágica incursão pelo universo do décor, pudemos descobrir como era a sala de visitas do costureiro Bill Blass em Sutton Place, a biblioteca e o salão de Greta Garbo em Beekman Place e os antigos estábulos (mews house) do legendário ator e diretor de teatro britânico John Gielgud em Londres. Também estão ali os salões do festeiro anfitrião Charles de Beistegui em seu castelo nas proximidades de Paris, a casa da designer de joias da Tiffany Elsa Peretti emPorto Ercole, na Itália, e o escritório em Paris de Gianni Agnelli.
Na opinião da estilista Carolina Herrera, nada pode ser mais chique do que as aquarelas de Jeremiah Goodman. Ela, que se inspirou em suas pinturas para criar, em 2007, uma coleção de roupas que descreveu como “uma explosão de cores”, acha que o trabalho de Goodman é um exemplo de como a moda, a arte e o design de interiores podem, muitas vezes, convergir com resultado extraordinário.
Em atividade há ininterruptos 60 anos, Goodman seguiu as pegadas e a tradição dos grandes ilustradores europeus–como o russo Alexandre Serebriakoff, que, nos anos 40 fazia as casas dos aristocratas, e do italiano Mario Praz, artista, crítico e autor de An Illustrated History of Interior Decoration - From Pompeii to Art Nouveau.
Nesse período, ele criou marca e imagem para anúncios de lojas como Lord & Taylor e Bergdorf Goodman e tornou mais belas e sofisticadas muitas das páginas e capas de revistas como Harper’s Bazaar, Vogue e Interior Design. Também ilustrou divers os livros, como o My Favourite Things, de Dorothy Rogers, além da monografia Jeremiah: a romantic vision, misto de arquivo de design de interiores, livro de memórias e catálogo raisonné.
Elegante, muitas vezes de gravatinha borboleta, Goodman acaba sempre encantando seus clientes que, no mais das vezes, dele se tornam amigos.Assinando apenas ‘Jeremiah’, já aceitou encomendas de grandes figuras da história do décor, como Dorothy Draper, William Pallmann e Henri Samuel e de arquitetos famosos, como Philip Johnson, I. M. Pey e Skidmore, Owings& Merrill.
Nascido em Buffalo, no Estado de Nova York, em 1922, Goodman cresceu durante a Grande Depressão, quando aprendeu o sentido da ética e da seriedade. Aos12anos, jápintava aquarelas. Com afinco e prazer, desenhar passou a ser tarefa diária. Teve do pai, o açougueiro Louis, e da mãe, Anna, o estímulo para seguir carreira artística. Depois de cursar a Lafayette High School, mudou-se, aos 16 anos, paraNova York, onde cursou a Franklin School. Aos sábados, ávido por saber mais e melhor, assistia às aulas na Parsons, cultuada escola de arte. Indagado pela jornalista e decoradora Heather Clawson se não teve medo de, tão jovem, enfrentar uma metrópole como Nova York, respondeu com humor que tinha medo era da tia em cuja casa morava.
Sempre com as mãos na massa,Goodman já ilustrou com sucesso cartões de Natal e, mais recentemente, pintou telas gigantescas para decorar a filial londrina da loja da moderníssima marca de roupas sueca Acne, inaugurada em julho deste ano no charmoso bairro de Mayfair.
Seu apartamento no Upper East Side nova iorquino, situado no 18.º andar, é uma lição de estilo, elegância e gosto refinado. Ali, biombos e paredes de espelho, em meio às luzes de fora e de dentro, fazem fundir os belos interiores com a vista deslumbrante da cidade que, obviamente, já foram retratados nas aquarelas de seu dono. Rodeado de inusitados e preciosos móveis e objetos de origens diversas e dispostos de maneira muito pessoal, Goodman tem seu cavalete e mesa de trabalho junto às imensas vidraças.
Ele diz que o melhor e mais estimulante conselho que já recebeu veio de seu chefe dos tempos em que ilustrava para a Lord&Taylor: “Não há nada que você não possa fazer”. Da
milionária Betsy Bloomingdale’s recebeu pedido para pintar os interiores de sua casa em Bel Air, e foi encantado que se dedicou a reproduzir o salão de chá assinado por Elsie de Wolfe no Colony Club. Em maio de 2002, Jeremiah teve seus trabalhos em concorrida exposição na Califórnia onde foram mostrados, entre outros, os interiores de Cecil Beaton, da Duquesa de Windsor e da legendária decoradora americana Rose Cumming. A Architectural Digest nesse mesmo ano e a revista Veranda em abril de 2008 dedicaram ao ilustrador belas reportagens.
Sobre seus retratos de interiores, Jeremiah Goodman afirma que beleza estética é o que importa. A seu ver, a realidade é apenas uma palavra. Dos detalhes e do todo, entre luzes e sombras, resta o que importa, o efeito geral. Para ele, o que permanece é a fantasia que os donos desses ambientes têm do próprio décor.