Maria Ignez Barbosa
 
           
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Textos e Entrevistas - Casa Estadão
 
14 de novembro de 2010
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O décor na tela grande

A evolução da direção de arte na história do cinema é narrada no livro ‘Designs on Film’, que será lançado no fim do mês nos EUA

Um viva aos cineastas que conseguem, por meio do décor, nos fazer viajar no tempo, nos transportar a mundos distantes, nos instigar e nos deleitar com histórias passadas ou projetadas no futuro. É sabido que o cérebro humano processa o visual mais rapidamente do que a informação verbal, daí a importância dos cenários de um filme, independentemente do roteiro. Se bem construído e imaginado, o ambiente criado pelo cineasta pode servir como lição de estilo, aportar cultura, ensinar história e ainda contextualizar hábitos e costumes de um determinado período.
Um ótimo exemplo é A Época da Inocência, filme de 1993, dirigido por Martin Scorsese e baseado no livro homônimo de Edith Wharton. A opulência dos ambientes criados pelo diretor é uma lição sobre o estilo vitoriano adotado pela alta burguesia americana de hábitos aristocráticos na Nova York da virada do século 19. Para ser o mais fiel possível ao mundo criado por Wharton – coautora de The Decoration of Houses, de 1898, considerado o primeiro tratado sobre decoração do mundo –, o cineasta contratou a historiadora de arte e decoradora Robin Standefer, que se dedicou por dois anos à tarefa de compor os ambientes em cada mínimo detalhe.
Para Scorsese, a montagem dos cenários é o único elemento puro e original do cinema. Por isso, escolheu como locação das filmagens a pequena cidade de Troy, no Estado de Nova York, onde alguns edifícios permanecem intactos desde o início do século 20. Outro filme de extasiar os fãs do design de interiores é Violência e Paixão,de Luchino Visconti, autor de filmes fascinantes em matéria de roteiro, costumes e décor – como O Leopardo, Ludwig - A Paixão de um Rei e Morte em Veneza.
Em Violência e Paixão, Visconti nos remete a um belo palácio romano, onde um solitário professor vive dedicado à sua coleção de pinturas inglesas do século 18. São as "conversation pieces", que mostram cenas idílicas de famílias da aristocracia ou da alta burguesia entre crianças, cachorros e cavalos. De um dia para o outro, o mundo do velho professor é invadido por uma família sem escrúpulos, que aluga o segundo andar do palácio. A decoração contemporânea escolhida pelos recém-chegados, típica dos anos 70, se contrapõe à preciosa ambientação original, ainda presente no andar de baixo, onde predominam afrescos, paredes marmorizadas, livros e antiguidades. Os cenários, fruto da imaginação de Visconti, compõem um mundo fictício,criado a partir de elementos do barroco romano e da reprodução em estúdio de detalhes verdadeiros, como a fachada da Villa Falconieri, em Frascati, e a decoração do Palazzo Madama, em Roma. A inspiração teria sido o escritor e colecionador italiano Mario Praz,morto em 1982, também um solitário morador de palácio, apaixonado por móveis e objetos do século 19 e que concebia a vida como um teatro.No entanto, ao contrário do professor no filme ou do próprio Visconti, Praz, autor de livros como A Casa da Vida e Uma História Ilustrada da Decoração, era dono de um estilo mais funéreo, neoclássico e decadente.
Quem se interessa por outros estilos de decoração pode aprender – e se divertir – com filmes em que o decorador é ele mesmo o personagem principal. É o caso de Confidências à Meia-Noite, onde uma Doris Day bem vestida,morando num apartamento super cool, se vinga do namorado infiel ao criar em seu bachelor-flat, um horrendo décor. Ou de Mais uma Vez Adeus, de 1961.Baseado no romance Bom Dia Tristeza, de Françoise Sagan, traz Ingrid Bergman no papel de Paula, a decoradora bem-sucedida que vestia Christian Dior e usava joias VanCleef &Arpels. E, aos que lamentam a ausência de material sobre o tema, uma notícia animadora: foi publicado pela Harpers Collins nos EUA o livro Designs on Film – A Century of Hollywood Art Direction. Na obra, a autora Cathy Whitlock, depois de muito ver filmes e pesquisar no Art Directors Guild, narra a evolução da direção de arte no cinema, do século 20 aos dias de hoje. Cathy, jornalista que é também decoradora, discute desde a portentosa arquitetura de Cleópatra – idealizada pelo produtor de arte John De Cuir – aos efeitos digitais do novíssimo Avatar. Com quase 400 fotos e ilustrações, ela mostra como,nos tempos pré computador,muitos produtores e diretores de arte eram, de fato, talentosos artistas e artesãos, capazes de pintar ambientes realistas em magníficas aquarelas. O livro nos apresenta profissionais como William Cameron Menzies, que em1939, idealizou todos os cenários de ...E O Vento Levou – incluindo o famoso incêndio de Atlanta. Foi dele a ideia de usar veludo vermelho no bordel de Belle Watling e também a façanha de colocar, no mesmo ambiente, o retrato de um nu que passou despercebido da censura. E fala também de Edith Head, a designer cuja enorme habilidade pode ser medida pela adoração que lhe tinha Alfred Hitchcock. O mestre do suspense tinha horror a tudo que fosse eye-catcher, ou seja, a qualquer elemento que desviasse da trama de seus filmes o olhar do espectador. Um extrato do conteúdo de Designs on Film pode ser conferido online em www.adg.org/art=designs_on_film.