Maria Ignez Barbosa
 
           
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Textos e Entrevistas - Casa Estadão
 
28 de novembro de 2010
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Mesas para celebrar

O decorador marroquino Alberto Pinto sempre surpreende com sua preciosa coleção de porcelanas e talheres

Como bom marroquino, o decorador Alberto Pinto traz no sangue o prazer de receber os amigos em casa. Generosamente, oferece-lhes a melhor das iguarias e encanta-lhes o olhar com suas mesas eximiamente postas e decoradas. Dono de casas em múltiplos continentes, pode se dar ao luxo de fazê-lo de maneiras as mais diversas. De forma suntuosa, entre as belas paredes de sua sala de jantar do Hotel de La Victoire, seu endereço parisiense, ou mais informalmente, no apartamento em Nova York. Pode receber também, em clima de férias, no terraço de sua casa de verão em Tânger, na cobertura em Ipanema ou na casa colonial que comprou em Paraty.
Como nunca repetir-se é norma desse esteta, até mesmo os amigos mais chegados se deixam surpreender. Podendo recorrer à sua rica, valiosa e deslumbrante coleção de porcelanas antigas ou modernas, vidros e cristais das mais variadas origens, centros de mesa e candelabros de prata ou vermeil e talheres que já deram de comer a reis e rainhas em outras encarnações, o decorador pode dispensar a ajuda de profissionais. Embora cuide com carinho das preciosidades de sua coleção, não as trata como objetos intocáveis de museu. Para ele, a paixão por colecionar traz consigo o prazer de compartilhar. Assim, cada mesa há de contar uma história e celebrá-la. Se convidado para um jantar chez lui, você poderá se ver comendo no mesmo prato de porcelana Limoges que, em tempos idos, quando na Rússia a maioria da população morria de fome, servia com fartura o paladar do czar Nicolau II.
Somando criatividade a uma inegável capacidade de improvisar, Alberto Pinto pode em poucos minutos produzir um inesperado tablescape. É só pensar nas flores da estação entregues por tradicionais e fiéis fornecedores e, daí, partir para a escolha de uma das muitas toalhas de mesa antigas ou novas, brancas ou coloridas que, previamente engomadas, bem passadas, bem dobradas e fotografadas para que a tarefa seja fácil, estarão à disposição na rouparia. Não será difícil decidir sobre os guardanapos, em geral grandes e de linho, bordados muitas vezes com o desenho das porcelanas, com aplicações de renda ou bainha aberta, sempre atados com fita vermelha por grupos de 12. Ajudado por um mostruário dos aparelhos de jantar que ficam em prateleiras forradas de feltro verde, é fácil definir a louça da vez. Isso caso Alberto Pinto não invente de desenhar e mandar pintar novos pratos. A escolha do talher, se de vermeil, prata, osso ou bambu, vai depender do tipo e da razão da festa, se almoço ou jantar, se menos ou mais formal, do local onde será realizado, que pode muito bem ser a cozinha do apartamento de Paris. É o que basta para testar o talento desse decorador que sabe muito bem que imagens falam mais que palavras. Nada de excesso de enfeites. No máximo, para reiterar a paleta de cores, um laço de fita de cetim envolvendo um guardanapo ou adicionado ao cartão para indicar, por meio da cor, a mesa onde o convidado deverá sentar-se. O toque final e definitivo fica por conta de seus incríveis e curiosos objetos, sempre interessante tema de conversa. Vale dizer que ser organizado e bem servido por empregados bem treinados, é traço pessoal e característica que Alberto Pinto carrega consigo pelo mundo e que consegue manter em todas as suas casas.
Na cobertura com piscina em Ipanema, onde fui almoçar num dia escaldante de verão, pude perceber como Alberto Pinto, diante da exuberante vista do mar e do céu do Rio de Janeiro, optou por criar um diálogo entre as cores. Toalhas azuis, louça Companhia das Índias feitas para o mercado português e decoradas em vermelho e azul, copos de cristal vermelho claro e mais os lírios exatamente nesse tom. O talher de prata portuguesa tinha sido descoberto na Bélgica e tem as insígnias de ex-donos coroados. Sem problemas, Alberto Pinto mistura e sobrepõe objetos de origem, estilo e períodos os mais diversos, não importa se sob o sol do verão ou sob o lusco-fusco de velas e de lustres de cristal.
Nem sempre, quando de suas passagens pelo Rio de Janeiro, é na cobertura ao ar livre que ele vai receber. No andar debaixo, sobre a mesa de jantar espelhada dos anos 40, de Serge Roche, dois fabulosos cisnes de prata do amigo e escultor Luís Ferreira, o responsável por um verdadeiro zoológico silencioso espalhado pelas muitas casas de Alberto Pinto, farão as honras da casa e do jantar.
Como é possível observar nas páginas de Table Settings, livro sobre as mesas de Alberto Pinto editado pela Rizzoli, é em Paris que o decorador se supera. Ali, em sua sala de jantar com paredes revestidas de papel panorâmico em tons de ocre e castanho-dourado representando a conquista da Turquia, um móvel antigo Mogul de ébano incrustado de madrepérola serve de aparador para os talheres em vermeil, e para a louça da vez, que pode ser a Vieux Kyoto ou uma Companhia das Índias, como a Folha de Tabaco, aquela escolhida para um memorável jantar oferecido pelo decorador há alguns anos ao amigo Hubert de Givenchy. Velas votivas apresentadas com graça, flores e folhas na altura certa, em recipientes preciosos e baixos, ou vasos bem altos para que a visão dos convidados não seja tolhida, se farão presentes. De acordo com a ocasião, também as cadeiras podem mudar ou ganhar capas. A cor roxa dos copos de cristal mandados fazer na República Checa e a dos amarelos encontrados num antiquário em Nova York, por exemplo, fazem rima rica com o serviço de porcelana famille rose de motivo mandarim. Sobre uma toalha amarelo gema, os pratos que mandou pintar com enormes cogumelos pousados em sousplats pintados em faux bois são de cair o queixo. E na cozinha de azulejos preto e branco do hábitat parisiense Alberto Pinto abusa à vontade do contraste com cores vibrantes. Do rústico ao moderno. Já na casa de verão em Tânger, sobre o Mar Mediterrâneo, o clima vai ser mais rústico e artesanal. Dentro ou fora de casa no terraço, o decorador optou por fazer mil e uma combinações com diferentes porcelanas típicas da Turquia. No apartamento em Nova York, individuais modernos e pratos pintados como se fossem telas dos vanguardistas russos afirmam um estilo mais contemporâneo e despojado.
Mais do que o valor de cada peça, vale a maneira de juntar tudo aquilo que, somado, ganha em efeito e estimula o olhar e o paladar. Quando o Natal se aproxima, Alberto Pinto cumpre à risca a tradição anglo-saxã de arrumar a mesa com laços vermelhos. Eles estarão presentes na estampa da toalha de fundo verde, atando o encosto de cadeiras ou na louça que mandou pintar reproduzindo a que pertenceu a Catarina II da Rússia e que tem um laço vermelho circundando a borda dos pratos.
Nos inícios de dezembro, quando instados a pensar no que fazer para tornar mais bela a nossa festa ou no que comprar para os amigos, o livro de Alberto Pinto, Table Settings, pode servir aos dois propósitos. Inspirar o décor de nossas mesas ou então, como atestam as fotos aqui reproduzidas, transformar-se num belo presente de Natal.