Maria Ignez Barbosa
 
           
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Textos e Entrevistas - Casa Estadão
 
11 de abril de 2010
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Quilt sai do baú para encantar

Mostraem Londres traz de volta o trabalho de patchwork que atravessou séculos e hoje flerta com novos artistas

Se essa atividade manual feita sobre tudo por mulheres, há milênios, pode ser vista como arte ou deveria se restringir ao universo das artes puramente decorativas é uma questão que o museu Victoria & Albert, em Londres, decidiu trazer à tona.Com mais de 8 mil ingressos vendidos antes da abertura, em 20 de março último, e hotéis lotados com grupos de adeptos da prática do patchwork, a exposição Quilts: 1700-2010 só faz encantar e seduzir.

Ali, nesta que é a mais abrangente mostra organizada sobre o tema, a tradicional colcha feita com retalhos de pano, sobras de vestidos de noivas, velhos lençóis ou roupas fora de uso, unidos por pés pontos em minúsculas formas geométricas, deixa o baú, sobe à parede e flerta com a geração de jovem artistas ingleses.

Logo na entrada da exposição, solta e só,uma cama de dossel com trabalhos de séculos passados pendendo das hastes de madeira e cobrindo o colchão.São colchas feitas de pedaços mínimos de tecido que misturam vermelho,marrom, verde e azul. A luz é baixa, o som intriga, as paredes são rosa - bebê e o clima é de quarto. Intimidade, segredo e conforto.

Um passa tempo que foi moda no século 18,praticado em toda a Europa, mas sobretudo na Inglaterra, e que servia às mulheres para expressar não apenas a criatividade,mas também para despejar angústias e preocupações cotidianas.

Assim, em muitos dos mais de 65 quilts ali expostos, na vertical ou na horizontal, sobre camas ou tal qual bandeiras desfraldadas,muitas histórias tristes e alegres são contadas, eventos documentados, datas glorificadas e figuras famosas têm suas vidas celebradas.

Muitos deles são apresentados junto a cadernos de notas, diários e retratos dos autores ou parentes. Há os que mostram cenas bíblicas,outros imagens religiosas e muitos falam de amor e patriotismo. Um deles, por exemplo, representa o rei Jorge III passando em revista as tropas que cantavam o hino nacional no dia de seu aniversário em 1799. É composto de 41 cenas e, numa delas, a autora se faz presente. Ao bordar a própria imagem, ela se coloca como narradora, observadora e cronista dessa história. Eventos políticos, vida familiar, nascimentos e mortes são contados e retratados nesses quilts.

Num deles – alguns chegam a juntar mais de 6.500 recortes –, datado de 1780-1830 e onde estão representadas as fábulas de Esopo ,fica clara a presença de mãos diferentes, uma delicada, outra mais afoita. Figuras de animais são uma constante e é interessante ver, em uma peça do século 19, uma estampa de oncinha. Em defesa da rainha.

Somos levados a confabular,fantasiar e imaginar afetos,humor e rancores de desconhecidos. Na colcha onde se lê “Sua Mais Graciosa Majestade Carolina,Rainha da Inglaterra”, está evidente um protesto bem feminino contra o futuro rei Jorge IV que, ao se divorciar da mulher, a impediu que se tornasse rainha. À época e à propósito, a escritora inglesa Jane Austen escreveu:“Pobre mulher,estarei com ela o quanto puder, pois ela é Mulher e eu odeio o seu Marido”.

Histórias de ontem e de hoje, pois ali há trabalhos também de artistas plásticos contemporâneos, como o de Tracey Emin,To Meet MyPast, que evoca o quilt como repositório de memórias pessoais e coletivas. Outro é o do polêmico Grayson Perry, vencedor do Turner Prize, que, coma obra Direito à Vida, de 1993, onde bordou fetos de renda cor-de-rosa sobre fundo de veludo vermelho, branco e preto, faz uma pregação contra o aborto. Visível a diferença entre os quilts antigos e os modernos.

Nos primeiros, nenhuma pretensão quanto a se estar fazendo arte. Nos mais recentes, total certeza. Há neles traços de impaciência, pedaços maiores de tecido e costuras falsamente ingênuas.E sobre tudo deixam de lado a função tradicional do patchwork, que, sob forma de colcha, destinava-se a prover calor e conforto.

Animada com o anunciado e já evidente sucesso da mostra, a curadora Sue Pritchard, que passou seis anos dedicada à sua organização, acredita piamente num revival da atividade, e deixa claro que não se trata de um show para vovós ou clubes de mulher este cede iras.Fazendo referencia à crise econômica na Inglaterra, ela sugere que todos em seu país deveriam estar se dedicando a fazer colchas para aquecer o inverno e que as novas gerações poderiam se armar de agulhas e usar o patchwork contra o estresse,para a meditação e uma pausa no Black Berry.

Nesse sentido, o museu,além de lançar dois livros sobre o tema, um histórico e outro ensinando obê-a-bá, Patchwork for Beginners (de autoria da curadora), e de ter organizado um programa de palestras,vende em sua loja o material necessário para quem se animar a botar a mão na massa. Aí se inclui uma linha de tecidos com 18 estampas baseadas nos trabalhos ali expostos e editadas pela tradicional Liberty’s, loja conhecida por seus prints de estampas pequeninas.

A mostra, que estará aberta ao público até o dia 4 de julho, embora apresente trabalhos emprestados de outros museus e de artistas contemporâneos especialmente convidados a participar, serviu de oportunidade para o próprio Victoria&Albert tirar do baú, sacudir a poeira, restaurar e redimensionar o valor de seu magnífico acervo de quilts. Opatchwork já foi muito praticado por soldados convalescentes de ferimentos de guerra,tanto que um dos museus a ceder obras foi o Imperial War Museum.

Da Galeria Nacional da Austrália, veio oRajah,um quilt feitoem1841porpresas enquanto eram transportadas no navio HMS Rajah para o exílio na Tasmânia. O material usado por elas fora doado por uma instituição feminina voltada à recuperação social. Também magníficos são o Bishops Court Quilt, de 1690/1700, o Chapman, de 1829, que atrás da imagem de um casamento feliz tem um subtexto macabro, e o Wandsworth, feito por detentos na prisão de mesmo nome.

Arte ou não, artesanato ou terapia, preconceitos à parte, difícil dissociar a prática secular do patchwork do universo feminino, maternal e de aconchego. Quilts: 1700-2010 tem certamente tudo a ver com o Victoria&Albert que a acolheu e cuja vocação são as artes decorativas, o design e a moda.