Maria Ignez Barbosa
 
           
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Textos e Entrevistas - Casa Estadão
 
13 de junho de 2010
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A fazenda sequestrada

Joia do século 19, propriedade de um diplomata no interior da Venezuela é desapropriada pelo presidente Hugo Chávez

bela fazenda La Carolina, situada em uma antiga plantação
de cana-de-açúcar do século 19, no Estado de Yaracuy,
em plenas montanhas andinas da Venezuela, acaba de ser desapropriada pelo presidente Hugo Chávez. Comprada em 1989 por US$300mil e reconstruída pelo diplomata Diego Arria, essa propriedade de 370 hectares já foi cantada nas páginas da Architectural Digeste constado livro que reúne trabalhos do conhecido decorador colombiano Juan Montoya, editado pela Villegas Editores.
Alegando irregularidades no registro de propriedade, apesar de a fazenda ser produtiva(já foi premiada por ser modelo de sustentabilidade e de preservação ambiental, com plantação orgânica de café), nada deteve Hugo Chávez. Irritado com Arria, que, em recente Fórum Mundial pela Liberdade,em Oslo, o
comparou aos piores ditadores da história, o presidente declarou em seu programa de TV, em rede nacional, que a fazenda do diplomata,que elechama de “velho oligarca e ladrão”, se parece com a do seriado americano Falcon Crest. Aproveitou para exibir ao país cenas de crianças brincando na piscina da “terra liberada”– que podem ser vistas no link http://www.youtube.com/watch?v=1T6whBpCv2w – e, com ironia, acrescentou que mandou benzer a água antes da farra. Mandou também um recado para o proprietário: “Para ter suas terras de volta, você terá, antes, de me enterrar. A fazenda pertence agora à revolução”, exclamou, entre mais insultos à burguesia e à legalidade.
Diego Arria, que há 17 anos mora em Nova York,já fo iprefeito de Caracas, congressista, ministro de estado, candidato à presidência em 1978, representante de seu país nas Nações Unidas e depois secretário-geral assistente da organização, além de presidente do Conselho de Segurança onde instaurou a “fórmula Arrias”, um modo de flexibilizar e tornar mais informal a consulta entre os países-membros, não ficou calado.Qualificou a ação de Chávez como vingança política e lamentou que, por demagogia e propaganda pessoal, o presidente venezuelano esteja estimulando crianças a saquear e roubara propriedade alheia. Contou que dez funcionários armados, depois de subjugar o responsável pela fazenda, se dirigiram ao quarto principal, onde umdeles atirou-se na cama e pôs-se a comentar, em termos chulos, o que Chávez poderia fazer ali. Em outra ocasião, diante de um advogado, um dos capangas sacou da pistola e ameaçou o profissional dizendo que lhe sobravam balas.
Arria afirmoutambémque o “tenente coronel” não precisava tê-lo desafiado a enterrá-lo. “Dou lhe de presente minha fazenda para que ele ali se aposente. Mas somente depois de devolver a paz e a Venezuela aos venezuelanos. Não tenho dúvidas de que Chávez, em breve, será um prontuário ambulante para as cortes internacionais de justiça.”
Restauração. A fazenda La Carolina, que viveu seu apogeu na segunda metade do século 19, período da cana e do café, se deteriorou a partir do momento em que o petróleo foi descoberto no país, em 1920. Quando adquirida pelo diplomata, em 1987, apenas duas estruturas destelhadas e um pátio com chão de lajotas rústicas próprias para a secagem do café existiam no terreno. Aideia de Juan Montoya e do arquiteto venezuelano Nelson Douiahi foi, além de restaurar as duas ruínas,construir quatro unidades emvolta de um grande pátio,com capela, estábulo,salas de estar, armazém, ala da família e de hóspedes, de modo a
criar um conjunto que parecesse uma vila de interior no mesmo estilo despojado do passado.
Onde era antes um galpão para armazenar cana, foi criada a suíte principal. No começo dareforma, desconfiados da ideia de ter o quarto num local de pé-direito tão alto, os Arrias se deixaram convencer por Montoya, conhecido por seu dom de dar novo sentido a espaços inicialmente destinados a outras funções.
Oquese quis, ao preservar os traços do passado, foi basicamente manter a rusticidade da fazenda. Os tetos são forrados ou com ripas de madeira ou com varas de bambu. Vigasdemadeira sustentam a construção e servem de terminação no alto das portas internas. Os apliques de luz arredondados, que mais parecem fazer parte da parede, iluminam com discrição e sem destoar da estrutura. As lindas e originais lajotas de barro em forma de um oito que se encaixam no chão de modo pouco usual foram reproduzidas a partir de algumas antigas encontradas no local.
Na decoração, onde a maioria dos tapetes é de sisal, belas urnas de terracota pré-colombiana compõem uma valiosa coleção. Eram expostas sobre um degrau de alvenaria formando um grande L ao longo da parte inferior das paredes do extenso salão onde dois enormes ventiladores
pendemdo teto alto. Apenas um divã de ferro na transversal separava o ambiente de ler e relaxar daquele de se tocar e ouvir música. E havia belos móveiseobjetos,ou antigos,ou então reproduzidos por artesãos locais, para enriquecer e aportar qualidade a esse ambiente isento de maior luxo ou pretensão. Havia assim, a escrivaninha do século 19, que servia de base para as garrafas antigas de cristal, os espelhos mexicanos sobre as pias, as mesas vestidas com antigas toalhas brancas bordadas e a coleção deporcelana azul e
branca que enfeitava e trazia alegria à sala do café da manhã. Nos vasos, sempre flores colhidas no campo. Penduradas, gaiolas coloridas decoravam o ambiente. Nas varandas que rodeiam a casa, muitas redes em cores vivas mas tecidas de forma bem diferente das nossas nordestinas. Homenagem à filha morta. Arria tem três filhas que ali cresceram. Uma quarta,que morreu cedo e se chamava Carolina, deu nome à fazenda e à pequena capela, com imagens que a família espera
não terem sido também roubadas. Sabe-se que as roupas, os quadros, o mobiliário, as fotos e as lembranças dos Arrias já se foram, assim como quatro cavalos. Consta que as vacas e os cavalos de montaria estariam sendo doados como se
a ninguém pertencessem.
Será de muito lamentar o desaparecimento ou a destruição de uma figura religiosa colombiana de um apóstolo do século 18 e de um fragmento de altar dourado do período colonial, quase beirando o teto, que enriqueciam um décor agora ameaçado de extinção pela ira de Hugo Chávez e que tem o sabor amargo da tão retrógrada
revolução cultural chinesa. (www.mariaignezbarbosa.com)