Maria Ignez Barbosa
 
           
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Textos e Entrevistas - Casa Estadão
 
25 de julho de 2010
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Escadas de mestres

Maquetes contam história do desenvolvimento do desenho, do domínio da geometria e do talento construtivo

Presente na arquitetura desde 6.000a.C.,mesmo que sob forma de simples pedra do lado externo da casa, a escada e seus Degraus já eram orientados, como são até hoje, pela medida da pisada humana. Foi somente na altura dos séculos 14 e 16, época de castelos fortificados, que a evolução na arquitetura doméstica trouxe a escada para dentro de casa. Surgia o ambiente aconchegante, e também a possibilidade de afirmar posição na sociedade por meio do padrão de moradia. Possuir um vasto hall de entrada com uma imponente escadaria levando a um segundo andar de salões nobres servia para demonstrar prestígio e exibir grandeza. Daí que uma bela escada em balanço e de perfeitas proporções, com patamares retos ou helicoidais, espelhos, pontes e guarda-corpos, espiraladas ou elípticas, passou a ser, além de infinitamente útil, um símbolo de status, poder e riqueza. Quem hoje se deparar com uma antiga maquete de escada haverá de se encantar com sua graça e beleza. Muitos a verão como um simples objeto decorativo, outros como arte. Poucos, no entanto, se darão conta de que, por trás delas,há uma longa história de desenvolvimento de habilidades artesanais, maestria de desenho, virtuosismo,domínio da geometria, pensamento conceitual e fomento ao talento construtivo. E também que essas pequenas construções tridimensionais foram fundamentais para, durante séculos, quando não se dispunha dos recursos digitais de hoje, testar as teorias embutidas nos elaborados e minuciosos desenhos. Foi o que aconteceu com Eugene e Clare Thaw, um casal de marchands americanos que, depois de descobrirem e se encantarem com a maquete de uma escada na casa de uma amiga em East Hampton,resolveram buscá-las mundo afora, antes mesmo de se darem conta de que elas podem ser verdadeiras obras-primas, ou pièces de maitrise, como se diria na França,onde a maioria foi construída. Em 2006, depois de terem, durante 30 anos, juntado 20 belas e preciosas miniaturas de escadarias do século 18 e 19, e formado a maior coleção de maquetes de escadas fora da Europa, Eugene e Clare Thaw resolveram doá-las ao Museu Cooper- Hewitt, em Nova York, para que ficassem expostas ao público, preservadas e à disposição de estudiosos de design, de arquitetura e de construção.À época,festejando o enriquecimento de seu acervo, o museu organizou uma pequena exposição dessas maquetes, muitas acompanhadas de seus desenhos, chamada Madeto Scale: Staircase Masterpieces,que serviu, não só para encantar o olhar, mas também para despertar o interesse pela história dos artesãos atrás dessas preciosas criações em miniatura. Compagnonnage. Devemos o desenvolvimento de muitos talentos e a formação exímia de
grande quantidade de artesãos europeus a uma espécie de sociedade fraternal ou corporação chamada Compagnonnage, com origens na Idade Média e que se tornou forte na França,e em menor escala na Alemanha e na Suíça, no século 17. A finalidade da associação era oferecer a jovens do sexo masculino – era vedado às mulheres a capacitação em habilidades específicas – a oportunidade de se tornarem profissionais de uma forma pouco usual para a época. Tradicionalmente, o conhecimento e o aprendizado eram passados de
pai para filho dentro das famílias, ou patrocinados por ricos e poderosos que mantinham os apadrinhados sob seu serviço. Era comum aprendizes fugirem de mestres exigentes e terminarem tendo de encarar a polícia. O que pautava a Compagnonnage era a meritocracia, o talento e a capacidade do aprendiz de enfrentar as diversas etapas e os exames de desenho e execução. Vista como um agrupamento esotérico, equivalente aos freemasons ou maçons da Inglaterra – na verdade tinha origens nos grupos de construtores de catedrais na Idade Média–, despertava suspeitas, aguçadas pela existência de rituais em que seus membros vestiam capas, trocavam bengalas e usavam nomes tidos como estranhos para identificar os diferentes grupos de companheiros, de acordo com a proveniência e o nível de habilidade. Vale lembrar que a palavra
inglesa masonry pode ser traduzida por “construção” ou“alvenaria” e que marcenaria e maçonaria não deixam de ser palavras primas. Para se tornar um hábil construtor, o que podia levar anos, o candidato tinha de ser competitivo e apresentar uma maitrise,o que significa ter conseguido construir a sua obra-prima. A partir da revolução da Comuna de Paris,em1871, quando teve início
o trabalho organizado e a mecanização e as atividades puramente manuais
e artesanais entraram em declínio, a Compagonnage, que resultou em tantas preciosidades hoje dignas de museu, foi colocada como ilegal, perdeu força e se desfez para sempre.
(www.mariaignezbarbosa.com)