Maria Ignez Barbosa
 
           
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Textos e Entrevistas - Casa Estadão
 
08 de agosto de 2010
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Brasil e China, design online

De São Paulo, pela web, equipe liderada por Marko Brajovic desenvolve o projeto do pavilhão brasileiro na Expo Xangai

Quando no Brasil eram 10 da noite e, na China, 8 da manhã, o arquiteto e designer Marko Brajovic se comunicava por Skype com a equipe de engenheiros e designers chineses responsáveis pela execução de móveis e outros detalhes de instalação do pavilhão brasileiro na Expo Xangai 2010. Desenhos e projetos eram repassados pela web e as questões, discutidas frente a frente na tela do computador.

Na manhã seguinte, ao acordar, Brajovic podia ver a imagem das cadeiras, sofás, mesas, expositores e outros elementos decorativos e cenográficos já prontos para aprovação.

Tudo made in China, em ritmo minuto, pela eficiente e acelerada mão de obra local. Paraa construção do pavilhão, cujo projeto básico é de Fernando Brandão, a Apex, agência brasileira de promoção de exportação, contratou a Syma, companhia chinesa especializada em montagem de feiras e pavilhões.

Para executar a cenografia e o detalhamento do projeto e chefiar as equipes brasileira e chinesa de designers, a Syma, por sua vez, chamou Marko Brajovic, croata radicado em São Paulo desde 2006, quando aqui desembarcou para ser diretor do departamento de design industrial e de interiores do Instituto Europeu de Design.

Naconcepção de Brajovic, que fez Arquitetura em Veneza, mestrado em Artes Digitais e doutorado em Arquitetura Genética em Barcelona, era preciso, a partir de uma estética que juntas se elementos comunsao Brasil e à China, que se criasse um ambiente convidativo, amistoso e de empatia entre pessoas de culturas tão opostas. Nessa linha, buscou o que fosse comumentre os dois países no campo do artesanato e do uso de material. Um ponto de afinidade estaria nas estruturas trançadas, na maneira de usar a palha e o bambu.

Compeneiras de palhinha natural, escondendo e, ao mesmo tempo, deixando transparecer uma iluminação feita de néons de 60cm colocado sem sentidos diversos, forrou o teto do restaurante e do VIP lounge, que pode se transformar, graças à versatilidade do design, em sala de reunião, conferência ou exposição. As grossas colunas estruturais foram embrulhadas com arremate de bambuv ergado e tela de palha, comprada a metro na China.

Paisagemcarioca. De modo a agregar interesse às paredes brancas, e fazendo referência aos painéis de cerâmica e madeira de Athos Bulcão em Brasília, o arquiteto idealizou um landscape em MDF recortado a laser com o perfil das principais atrações turísticas da paisagem carioca, como o Pão de Açúcar e o Corcovado. Por trás do painel, LEDs de cores diferentes mudam totalmente a cor e a atmosfera do ambiente, de acordo com o uso da sala e a hora do dia. A ideia foi que não se apelasse para os cansativos temas carnaval e futebol. E como, segundo Brajovic, o design brasileiro moderno teria tido seu ápice nos anos 50, foi nesse período que ele buscou inspiração para o projeto dos móveis.

A seu ver, seria interessante colocar lado a lado, em contraste, o material trançado tradicional e a alta tecnologia audiovisual de ponta. Deacordocomo princípio da funcionalidade e datransitoriedade de um pavilhãoe expositivo,um palco foi desenhado de forma a ser facilmente removívele as cadeiras, paraseremempilháveis e resistentes ao uso. Os diferentes modelos de sofás, poltronas eo banco de madeira maciça foram revestidoscom material sintético preto ou então branco comtextura de palha trançada.

Três diferentes tipos de mesas servem como bufê, para reunião, escrivaninha ou apoio para folhetos e catálogos. O papel que cobre as paredes dos escritórios no segundo andar, com desenho de folhas sobrefundo verde floresta, criaçãoda ilustradora Adriana Alves, da equipe de São Paulo, também é made in China. Outros papéis decorativos com fundo claro foram baseadosemdesenhos de animais típicos da xilogravura nordestina. Levando-se em conta o hábito chinês de usar biombos ao redor de mesas de reunião ou de jantar para garantir privacidade, foram criados alguns, decorados com recortes a laser, que estão sendo úteis como divisórias e para a criação de pequenos ambientes.

Nem tudo, entretanto, foi supervisionado à distância. Brajovic fez três viagens à China em quatro meses, onde, também para a Syma, trabalhou na cenografia interativa do pavilhão de Mônaco, que expunha os trabalhos da Fundação do Príncipe Alberto II.Oarquiteto só tem elogios à equipe de designers de São Paulo e ao grupo de Xangai, todos engenheiros, mas inteiramente voltados à produção do design. Ainda não se pode avaliar se a megaexposição, inaugurada em maio e aberta ao público até outubro, vai garantir para a China o lugar de grande palco do futuro.

É certamente desejo dos chineses, que já souberam encantar o mundo com as Olimpíadas, que a Expo Xangai 2010 fique tão conhecida na história das exposições internacionais quanto a primeira da série, organizada em Londresem1851.

Ou tão famosa quanto a segunda grande exposição internacional, realizadaem Paris em 1885 e até hoje citada como um divisor de águas entre o passado e o futuro em matéria de estilo e design, ou a de 1889, também na capital francesa, que nos deixou como lembrança a popular Torre Eiffel.