Maria Ignez Barbosa
 
           
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Textos e Entrevistas - Casa Estadão
 
22 de agosto de 2010
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Um décor que desconstrói

Mostra em Londres reúne trabalhos surreais de 30 artistas que fazem uma reflexão sobre a praticidade e a imaginação

A palavra francesa décor não traduz apenas decoração de interiores.Serve também para descrever cenários de teatro, cinema e efeitos visuais destinados a surpreender,encantar e provocar o olhar.
Foi nesse espírito que o curador Ralph Rugoff montou em Londres, na Hayward Gallery,
a exposição New Decor. A mostra reúne 80 trabalhos surreais de 30 conhecidos artistas plásticos contemporâneos, que se dispuseram a explorar, sem qualquer intenção decorativa, a arena entre a praticidade e a imaginação, entre o encenado e o nosso dia a dia. Assim, esses profissionais nos levam a refletir sobre a nossa relação com o espaço doméstico e com os espaços públicos.
Já em 1956, o inglês Richard Hamilton (mais conhecido como Pop Daddy, por ser,
para muitos, o mentor intelectual da pop art provocava essa reflexão com sua famosa colagem Just what is it that makes today’s homes so different, so appealing? A obra nos apresentava o interior de uma residência permeada de forma assustadora por elementos de um novo estilo de vida, ditado pelo consumismo. Impressos e catálogos com anúncios, máquina de lavar, TV, gravadores e o que mais fizesse barulho já haviam substituído, também na Inglaterra, o vetusto e típico interior vitoriano. De lá para cá não se retrocedeu. Cada vez mais, a moradia tradicional vai deixando de lado a velha idéia de santuário ou refúgio protetor e se deixa invadir pelo mundo exterior por meio da televisão, do computador, do Skype e por outras engenhocas que nos permitem,mesmo distantes ou em viagem, ver o que se passa dentro de nossa casa e na dos outros.
Pois é esse espaço transformado em cenário, desnudado, onde o sentar e o deitar tornaram-se gestos teatrais, que orientou os trabalhos dos artistas convidados para amostra.Sem a pretensão de fazer design-art ou interiors-art, eles abordam a questão de como nos sentimos dentro desse ambiente-palco, com obras que não têm nem acabamento nem lustro industrial. É arte que apenas nos belisca e nos obriga a pensar na relação que temos com os móveis e peças que nos circundam diariamente.
Re-configurando e reinventando objetos familiares de nossa vida doméstica, artistas do calibre de Sarah Lucas (Inglaterra), Doris Salcedo (Colômbia), Los Carpinteros (Cuba), Ernesto Neto (Brasil) e Jimmie Durham (Estados Unidos) criam instalações e esculturas não apenas provocativas, mas que exploram o design de interiores como meio de engajamento com a cultura contemporânea. Ao apresentar seus trabalhos
no espaço público de uma galeria, olham para além do design e da função a que se destinam, analisam a evolução por que passa a relação entre ambiente interno e externo e tentam fazer com que deixemos de encarar como banais os objetos e móveis em nosso entorno.
Apesar de provenientes dos mais diversos países, todos demonstraram ser capazes de questionar o papel de estantes, lâmpadas, armários, camas e outros elementos do nosso cotidiano, simplesmente transformando-os. Nessas esculturas ou instalações, o re-design de cada objeto se torna um ponto central de referências conflitantes que evocam cenários individuais e coletivos, eventos históricos e encontros pessoais. Misturando códigos e propondo novas situações, os artistas brincam e denunciam os scripts comportamentais
do dia a dia.
Há portas levando ao nada ou a tudo; há redes, como as nossas nordestinas, feitas de correntes de metal, em que a italiana Monica Bonvicininos remete ao desconforto e fala de fetichismo. Háobeliche Boy-Scout, produzido em 2008 pela dupla Elmgreen & Dragset, formada por um sueco e um dinamarquês que vivem e trabalham em Londres e Berlim. Nele, a cama de cima tem o colchão voltado para baixo, passando, além da carga erótica, a sensação de estarmos sendo espionados. E há ainda uma outra cama, de casal, desenvolvida pela colombiana Doris Salcedo, sem colchão e sem estrado, que abriga nesse não espaço um guarda-roupa.
Ainda utilizando o principal móvel do quarto de dormir, uma composição do cubano Diego
Hernandes chamada No tea, no sofá, no me dá o que pensar,assim como a Cama de seus conterrâneos Los Carpinteros. Criada em 2007, ela se estende dando voltas tal qual uma pista de carrinhos ou uma montanha russa, querendo lembrar que o ritmo do dia a dia nos acompanha mesmo quando estamos dormindo. No relógio dos indianos do Raqs Media, batizado de Um dia da vida de...,as horas não são marcadas por números mas sim por palavras como culpa, ansiedade, epifania, medo, indiferença e remorso. Que objeto poderia ser mais revelador de como bate o coração do homem? Uma simples mesa também se presta ao exercício de provocar:Rosemarie Trockel, conhecida artista alemã, trocou duas de suas quatro patas por um par de pernas humanas, que reproduz uma pessoa ajoelhada.

Festival Brazil. Uma outra exposição, na mesma galeria, também tratada relação entre as pessoas e as alterações espaciais. The Edges of the World, do brasileiro Ernesto Neto, traz instalações que se situam entre a escultura e a arquitetura. Instalada nos três jardins de esculturas e em um dos pisos da Hayward, a mostra já foi saúdada na imprensa inglesa como um verdadeiro triunfo e vem chamando a atenção do público. Submergindo na piscina ou equilibrando-nos em suas bordas, vagando numa instalação de tecidos,relaxando no espaço almofadado, pés descalços, instados à intimidade com o material, podemos ser levados a ensaiar novos caminhos, a testar direções e a esquecer o mundo em que vivemos.
As duas mostras, que fazem parte do Festival Brasil, podem ser visitadas até o próximo dia 5 de setembro. Com alguma ansiedade, medo de sentir calor ou frio, fome ou saciedade, encare esse desafio de vagar durante algumas horas num mundo que junta e desconstrói os sentidos da forma, da função e da arte.

(www.mariaignezbarbosa.com)