Maria Ignez Barbosa
 
           
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Textos e Entrevistas - Casa Estadão
 
16 de junho de 2012
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EM BUSCA DAS RAIZES DO DESIGN



Em meio à efervescência do design no mundo – se reinventando, se globalizando, aderindo à ecologia e às tendências do momento e tentando competir entre uma multidão de talentos e de novos criadores - um pequena galeria em Paris se dedica com sucesso a questionar a noção de modernidade na Itália desde a metade do século 19 e a apresentar ao publico o vanguardismo europeu e os arquitetos do modernismo de 1860 a 1960.
Fundada por Elizabeth Hervé e Marc-Antoine Patissier em 1998, no numero 1 de uma charmosa rua na Rive Gauche, a pequena Rue Allent, a Galeria Le Studio vem, desde então, apresentando aos parisienses e a visitantes de feiras internacionais de design das quais participa, os principais designers das Escolas Racionalista e Neo-racionalista milanesas como Franco Albini, Ignazio Gardella, Carlos Scarpa e muitos outros, assim como peças do Art Nouveau, da Bauhaus alemã, da Secessão austríaca ou do Arts&Crafts inglês que tenham ressonância com as criações modernistas italianas que tem suas raízes nesses conhecidos movimentos.
Patissier , um expert em mobiliário italiano do século 20 e consultor para fundações e casas de leilão, conta que sua galeria ganhou em 2008 o premio LVMH pelo melhor stand na feira Design Art em Londres, definido do por um júri presidido pelo presidente do Museu Victoria&Albert. Em março último, nos dias que antecederam a abertura da exposição “Ignazio Gardella e sua influencia: um designer independente, entre modernismo e pós-modernidade”, no meio da confusão que precede qualquer abertura, Patissier me recebeu para uma conversa e um mergulho no mundo do design italiano modernista. A mostra pretendia encerrar um ciclo de cinco exposições dedicadas ao esforço moderno italiano no início do século 20 e foi consagrada ao arquiteto e designer Ignazio Gardella, um pioneiro do movimento em Milão.

IGNAZIO GARDELLA, MESTRE DO PURISMO

De família burguesa e herdeiro de quatro gerações de arquitetos e engenheiros, o que lhe permitia circular com naturalidade no meio, Ignazio Gardella foi sempre uma figura elegante e imponente como são também, até hoje, suas criações. “Para não ser um prisioneiro da técnica”, como dizia, resolveu, antes de mais nada, fazer formação em engenharia na Politécnica de Milão. Só anos mais tarde, em Veneza, graduou-se como arquiteto. Ainda jovem, em 1938, com uma obra considerada um dos mais puros exemplos do racionalismo italiano, o prédio do Dispensário Anti-tuberculose de Alessandria, inscrevia-se como um ator essencial do Movimento Moderno Italiano.
Já nessa época, com seu contemporâneo Franco Albini, partilhava a ideia de que o arquiteto é um artesão antes de ser um artista. Segundo o galerista Marc-Antoine Patissier “esta humildade tem a ver com as condições nas quais esses arquitetos exerceram a profissão no pós-guerra. Não tinha relação com o valor artístico de seu trabalho que já chamava a atenção e sobre o qual eles tinham total consciência. Como designer, Gardella colaborou com a Olivari, a Gavina e a Azucena que ele fundou, em 1947 com o amigo Luigi Cacvia Dominioni e que encarna o início das edições italianas de qualidade. E para mais conhecimento do métier, esteve na Alemanha, em Frankfurt e nos países escandinavos onde conheceu Alvar Alto.
De espírito independente, junto com o designer Franco Albini, contribuiu para a formação do racionalismo e seu desenvolvimento à margem do estilo dominante do período, a arquitetura fascista dos anos 30 e o design internacional dos anos 50 a 70. Gardella foi figura chave na arquitetura residencial milanesa e tinha como admiradores, entre outros, o conhecido arquiteto e designer Gio Ponti e o crítico Carlo Argan. Suas criações eram dedicadas a uma elite milanesa esclarecida, humanista e desejosa de se reconciliar com uma modernidade que o fascismo havia desconsiderado e também a uma elite produtiva nova cujo gosto estava ainda em formação. O que não o impedia de escrever, como fazia desde 1935 na revista Casabella, alertando sobre a necessidade de se superar as rígidas limitações do estilo racionalista.
Suas peças foram intencionalmente exemplos de um design tipicamente milanês e remetiam à questão do gosto, do gosto moderno, em meio a uma reflexão global sobre o habitat residencial. Davam as costas à visão “passadista” da decoração historicista, muito em moda desde os anos 30 e ao chamado Estilo Internacional, um novo academicismo imposto pelo mundo anglo-saxão decidido a dominar a produção cultural destinada ao consumo de massa.
Funcional, depurado, de um luxo discreto, e extremamente inventivo do ponto de vista formal e técnico, o trabalho de Ignazio Gardella se caracteriza pela elegância e por sua capacidade de se integrar em qualquer ambiente, do antigo ao contemporâneo. Segue uma composição arquitetural clássica e brinca com as formas geométricas fundamentais como o cubo, o cone, a esfera e o cilindro. Um perfeccionista, Gardella era cioso da proporção e podia, com audácia, levar a escala ao limite do equilíbrio. São peças que até hoje se impõem por sua expressão, qualidade e rigor. Tendo nascido em 1905, quando morreu, um ano antes do fim do século 20, já era reconhecido como um dos precursores do pós-modernismo.
Entre as peças reunidas por Patissier para a exposição está a poltrona Digama, um desenho de 1956 e editada então pela casa Gavina. É resultado de uma pesquisa que começou em 1932 sobre o assento inclinável. Nesse processo, com outra cadeira produzida em 1936 de madeira e latão dourado e sua variante datada de 1950, (esta presente na exposição) o artista fez o percurso entre um objeto espartano em estado de frágil esqueleto a um assento estofado em couro sobre látex Pirelli. Além de mesas, há belas luminárias como a Prisma que evoca a arquitetura e também a Coppa Chiusa de 1954 com vidro prensado que fala de seu interesse pela série industrial.
Um purista, Gardella é até hoje defendido pelos neo-puristas contemporâneos. Quando recentemente foi anunciada a demolição da famosa Casa Tognella em Milão, um ruidoso manifesto contra o sacrilégio foi publicado por eles na revista Domus.