Maria Ignez Barbosa
 
           
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Textos e Entrevistas - Catálogos
 
10 de junho de 2012
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UM ESTILO PAULISTANO - SIM OU NÃO



Carioca que sou, mas destinada a um dia morar em São Paulo, dei de vir aqui mais seguido para acompanhar a obra da casa que havíamos comprado para nossa volta definitiva ao Brasil. Mais do que em Washington, onde morávamos, a cada vinda me sentia mais próxima daquela Londres com a qual ainda sonhava e onde tinha vivido encantada nos anos 60 e 90. A vibração de uma megalópole em franca expansão, mesmo que de forma muitas vezes caótica, com gentes de mil e uma tribos, origens e nacionalidades como São Paulo, é certamente contagiante. São Paulo logo me conquistou.
Entre o mau gosto e bom gosto, o paulista, ou melhor o paulistano não teria uma especial fidelidade a estilos, seria mais um adepto do ecletismo. É o que pena um dos maiores connaisseurs da história da arquitetura local, o jornalista Raul Lores: “Podemos ser Isay (Weinfeld) em um dia, neoclássicos em outro, sustentáveis ou esbanjadores. Somos loucos pela novidade, obcecados em modernidade, mas tudo aqui é efêmero – tudo se desmancha no ar rapidamente. O que é trendy hoje pode virar cafonice cinco minutos depois.”
Ou não teríamos aqui alternativa senão assistir passivamente ou fazer conluio com esta confusão visual feita da justaposição de elementos os mais antagônicos em nossa paisagem cotidiana?
Por um lado, e graças a Deus, ao menos dentro de casa, vamos nos vendo livres daquele décor carregado de arte sacra de uma geração anterior à minha e que sempre me fez pensar nas igrejas saqueadas de Minas Gerais e da Bahia. E é com prazer que vemos como se recomeça a dar real valor, por exemplo, a peças aqui feitas na primeira metade do século 20 como um tapete de Regina Gomide, pratos de porcelana pintados por artistas famosos como Di Cavalcanti e Djanira lançados nos anos 60 pela Cristal Prado, famosa por seus copos bico de jaca ou, por exemplo, azulejos decorativos de um imigrante italiano como Guido Tottoli.
Apesar de vista de fora e vivida como provinciana, SP no impulso do progresso, mostrou que tem no sangue o gene do vanguardismo e da criatividade. Foi afinal aqui que a semana de 22 agitou, que a Bienal foi inventada e uma tradicional dama da sociedade paulista, Olivia Guedes Penteado, nascida em 1872, ousou nos anos 20 transformar as cocheiras de sua casa num pavilhão decorado pelo pintor modernista Lazar Segall. E não esquecer, nos anos 70, quando nossa indústria só copiava as estampas europeias, dos tecidos estampados baseados no desenho indígena criados por Maria Henriqueta Gomes e daqueles da Larmod de Atilio Baschera e Gregorio Kramer com referencias brasileiras como penas e abacaxis que tanto contribuíam para a afirmação de uma identidade visual brasileira.
Talvez seja de fato mais fácil identificar um estilo carioca do que um estilo paulista. Para um look carioca basta juntar o azul do céu e do mar ao linho branco das capas de poltronas e sofás invariavelmente presentes nas casas e apartamentos do Rio de Janeiro. Junte-se a isso um móvel antigo brasileiro colonial da casa da avó, uma peça de artesanato, outra de bom design e um detalhe de treliça, herança dos muxarabis das casas portuguesas de influência moura e que tanto influenciaram a boa arquitetura brasileira. Fazem parte também do glossário carioca do décor as bisbilhoteiras de mercúrio, as luminárias de teto Paraty, aquelas em forma de abacaxi, pinhas de cristal colorido, escarradeiras de porcelana e a palhinha indiana nas portas de moveis e aparadores. Em grande parte a imposição desse look que tanto sucesso fez no Rio de Janeiro, deve-se ao paulista Julio Senna, o talentoso decorador que tão bem soube brincar com as heranças do tempo Brasil Colônia; tendas listradas montadas em terraços e jardins e iluminadas por candeeiros em forma black moors africanos e com tecidos com motivos tropicais produzidos pela famosa tecelagem Bangú.
É certamente mais comum do que em São Paulo, encontrarmos no Rio de Janeiro referencias e traços da cultura europeia no décor das casas antigas da elite, resquícios do tempo em que a Cidade Maravilhosa foi capital do Império e depois de um Brasil-monarquia independente. Isso sem falar das fazendas do Vale do Paraíba que, em sua época, ganhavam em matéria de classe e elegância se comparadas com as fazendas de café de São Paulo do século 19.
O colecionador e curador de arte Waldik Jatobá aponta como um ponto positivo na decoração contemporânea das casas de SP o hábito do paulistano de ter a sua volta peças de designers brasileiros como Tenreiro, Sergio Rodrigues, Jorge Salzupin, Preto e Branco e Geraldo de Barros:” Isso acontece hoje mais aqui do que no Rio de Janeiro onde a maioria dos designers modernistas produziu e se estabeleceu.” O apreço e o cuidado pela madeira também parece ser mais visível em São Paulo do que no Rio onde uma decoração mais praiana pode se bastar com moveis pintados em cores pastel, de aspecto leve e descontraído.
Enquanto vemos a cidade maravilhosa, a duras penas, tentando “crescer” e se embonecar para a próxima Rio + 20, a Copa e as Olimpíadas Internacionais, São Paulo continua imbatível em matéria de vigor e criatividade. A presença aqui cada vez mais assídua de arquitetos e designers estrangeiros, alguns chegando mesmo para se instalar entre nós, atestam o momento histórico que vive a cidade e que talvez só venha a ser percebido a posteriori. O sucesso dos irmãos Campana, por exemplo, iniciado no exterior mas aqui retumbando agora com força, inclusive pela influencia que os criadores exercem sobre uma safra de designers mais jovens, são a prova de que uma nova linguagem urbano-paulista chegou para ficar e se desenvolver. O perigo – chama a atenção o arquiteto croata Marko Brajovik – é que , caso seja excessiva essa influência sobre os designers locais, terminemos por cair num maneirismo pouco saudável.
Cada vez mais em São Paulo ousamos ser locais e globais ao mesmo tempo. Tal como em qualquer grande cidade, mais do que um estilo, existe uma atitude, um estar aqui e agora de braços abertos para avançar na direção de futuros desafios a partir de uma realidade específica. Com menos passado do que o Rio de Janeiro, Nova York, Londres ou Pequim, São Paulo certamente deve sua “cara” ao crescimento rápido e desordenado e à variada imigração.
Aos poucos e depois de tantas décadas insistindo no estilo neoclássico, os grandes empresários do setor imobiliário parecem estar se tornando sensíveis à arquitetura contemporânea. Assim como os decoradores ou designers de interiores que tem à disposição no Brasil, mais precisamente em São Paulo, qualquer móvel ou objeto de design internacional e que caminham para um look sempre novo exigido por uma clientela de jovens antenados que viajam, colecionam e sabem o que querem. Infelizmente, como em toda a sociedade emergente tal como na Moscou pós-comunismo e cheia de novos ricos, ainda não nos livramos do pecado da cafonice, de mostras de decoração com projetos onde se confunde o luxo com o excesso e com o supérfluo, simplicidade com pobreza e ainda se acredita que preço alto seria sinônimo de bom gosto, educação ou refinamento.