Maria Ignez Barbosa
 
           
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Textos e Entrevistas - Catálogos
 
28 de fevereiro de 2013
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MOSTRA ZANINI: DESIGN BRASILEIRO, OS PORQUES DO SUCESSO LÁ FORA



Enquanto no gigantesco centro de convenções em Miami, em dezembro passado, rolava a Art Basel Fair, a conhecida feira de arte contemporânea, logo em frente, sob o selo Design Miami estavam reunidas as mais importantes galerias de design da Europa, da Ásia e dos Estados Unidos. Obvio que contando com o público endinheirado que faz ponto na cidade nesta época do ano e que segue escasso em seus lugares de origem.
Uma surpresa, pois seria mais fácil nos depararmos com poltronas de Sergio Rodrigues ou de Oscar e Ana Maria Niemeyer, foi dar de cara, numa galeria europeia, com um número infindável de móveis de Joaquim Tenreiro. E de encantar, foi descobrir na francesa Galerie Kreo um espelho suspenso tal como um lustre de duas faces côncavas, em alumínio polido brilhante e envernizado batizado de Fata Morgana, uma criação limitada e exclusiva de Fernando e Umberto Campana. Pois foi ai, nesse ambiente onde grandes nomes internacionais do design faziam ponto palestrando todas as tardes, que a famosa marca de móveis italiana Capellini lançava os três modelos “inflated wood” de Zanini de Zanine, ( cadeira, banco e banqueta ) feitos de vigas de ipê de demolição, com tiragem de apenas cinco exemplares cada e que a Casa Eletrolux apresenta agora para o público paulista. Peças que, apesar de bojudas e pesadas, nos fazem pensar em bexigas infladas tal a impressão que passam de leveza.
Não importa se vintage ou mainstream, se moderno ou contemporâneo, o fato é que o design brasileiro tem algo que só “a baiana tem”, um DNA muito próprio e que explicaria o seu crescente sucesso lá fora. E isso num momento em que famosos designers italianos e internacionais, como nunca antes, vem vindo até cá atrás de emplacar suas criações junto a um mercado que acreditam aquecido e deslumbrado.
Há quem veja a questão sob outros prismas. O maior destaque do Brasil lá fora e seu bom desempenho econômico é o que teria atraído o olhar de colecionadores e da indústria de outros países para o design brasileiro. Assim pensa Adélia Borges: “Na Itália, por exemplo, a indústria de moveis sempre trabalhou com nomes estrangeiros. É fato, sim, que estamos sendo convidados para o piquenique mas, apesar de termos talentos excepcionais, não se pode dizer que o mundo esteja agora a nossos pés.”
De início, nas primeiras décadas do século passado, talvez porque fossem mais artesãos ou marceneiros do que assumidos designers, nossos profissionais/designers não teriam se deixado demasiadamente influenciar pelo traçado Bauhaus ou pelo modernismo escandinavo que por tanto tempo deram o tom no século 20. E vale lembrar que a construção de Brasília e seus interiores de traçado moderno clamando por mobiliário foram um estímulo sem precedentes a uma produção de móveis de qualidade no Brasil.
“O brasileiro seria um olhar que a paisagem local já enriquece, que pode se dar ao luxo de dispensar a imitação e que usa as diversas madeiras locais de um jeito muito próprio, menos frio, mais rico e sensual”. Esse, segundo o colecionador Waldick Jatobá foi o ambiente que teria conquistado, por exemplo, o arquiteto polonês Jorge Zalszupin que, quando para aqui se mudou em 1949, passou a adotar um traçado mais brasileiro.
Importante reconhecer que nesse processo de cada vez mais ser reconhecido mundo a fora, o design brasileiro deve primeiro a Zesty Meyer que, em parceria com Elahe Beiji e estímulo e o suporte de Marcelo Vasconcelos e Alberto Vocente, fundadores da MEMO ou Mercado Moderno, uma das primeiras galerias voltadas para o design de móveis no Brasil, no Rio de Janeiro, passou quinze anos comprando Sergio Rodrigues, Lina Bo Bardi, Tenreiro e muitos outros e que com a sua R20, uma galeria de design em Nova York, conquistou afetos e desafetos. E isso numa época em que o nosso design se encontrava adormecido em termos de marketing e valores de mercado. Depois a Carlos Junqueira que em 2002 abriu a sua primeira Espasso em NY e hoje vende brasileiros como Claudia Moreira Sales, Ethel Carmona, José Zanine Caldas, Sergio Rodrigues, Ricardo Fasanello e tantos outros também em Los Angeles e Londres onde abriu filiais da galeria.
A notoriedade de Fernando e Umberto Campana, “descobertos” por Murray Moss, da galeria de mesmo nome em Nova York há quase trinta anos, dispensa explicações, uma vez que estão em todas; na indústria e nas galerias estrangeiras, em museus de arte moderna e de artes decorativas de vários países, restaurantes, casas de ópera, e por ai a fora. Bruno Jahara é outro que caiu no gosto dos estrangeiros. Com seus lustres de metal martelado colorido ilumina casas de Maputo a Nova Yorque. Rodrigo Almeida é representado em Paris pela marchand Patricia Dosmann, já desenhou moveis para a butique Christian Lacroix na Rive Gauche e tem cinco projetos em andamento para a portuguesa Vista Alegre.
Do carioca Zanini de Zanine, o designer em questão desta exposição, pode-se dizer que é um perfeito exemplo de contemporaneidade com raízes. Filho do famoso arquiteto e designer José Caldas Zanine, conhece a madeira e a marcenaria desde a infância e quer ver suas raízes bem explicitadas em qualquer trabalho novo. Muitas vezes já usou madeira de demolição de casas feitas por seu pai para a feitura de moveis. – “Meu pai já trabalhava com diferentes materiais, compensado naval, cerâmica, ferro. Meu legado é ele, meu país e minha cidade. Acredito sim que o design brasileiro se distingue bastante dos outros num mundo onde a informação faz com que tudo se aproxime e se assemelhe”.