Maria Ignez Barbosa
 
           
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Textos e Entrevistas - Interni
 
10 de novembro de 2011
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AFINIDADES MODERNISTAS



Ao entrar na casa de Marcio e Liliane Barboza no bairro dos Jardins, em Sao Paulo algo me leva a pensar em Mies Van de Rohe. E no traçado leve e tom acinzentado geral sente-se o DNA de Lina Bo Bardi e Paulo Mendes da Rocha. No entanto, a autoria do projeto de linhas mínimas e modernistas desta bela morada sem janelas, mas com imensos painéis de vidro que trazem para dentro de casa o verde do jardim e o azul do céu, é totalmente de sua própria dona, Lili, como é mais conhecida esta jovem de apenas 31 anos.
Ela não tem medo de se deixar influenciar por arquitetos consagrados, ou de beber em suas raízes. Bem ao contrário. Abre um sorriso quando conta do prazer por ter sido guiada por Tadao Ando na Fundação Pinault em Veneza e não hesita em dizer que as escadas que unem os três andares da casa e cujos degraus adentram as paredes laterais com luzinhas led foram inspiradas em Claudio Silvestrin.
À mão e minuciosamente, Lili esboçou cada detalhe, como o tamanho das enormes pedras limestone cinza-clarinho de 2.80x70cm que revestem o chão e algumas das paredes que muitos acreditam ser de concreto aparente. Foram idéia dela as pequenas placas com corte de riscas que mandou fazer com as sobras do arenito para revestir as paredes externas e também o uso das pedras vulcânicas da Indonésia para forrar a lareira e a piscina que mais parece um lago natural. Transformar em tacos os ligamentos de peroba do telhado da casa antiga que havia no terreno e que cobrem o chão no andar dos quartos, foi outra iniciativa da dona da casa. Na cozinha, uma enorme pedra de mármore de Carrara impera soberana. E cobrindo algumas paredes do banheiro do casal, placas negras e sem emendas de mármore do Nepal são exemplo do luxo discreto que impregna toda a casa.
Não foi difícil mobiliar os amplos interiores. Afinal o proprietário, Márcio Barboza, dono da Atrium, é o representante no Brasil das mais importantes marcas do design internacional. O amigo Ricardo Dias, diretor de criação em Milão, participou, junto com Lili, do projeto dos interiores. Foram escolhidos moveis da Minotti, da B&B Itália, da Pro Memoria e de Christian Liagre. Isso fora as luminárias Nogucci, os tapetes do Nepal e um pouco de tudo o mais que o empresário importa, peças que compõe os muitos showrooms que abriu em São Paulo. O grande piano preto onde Lili pratica desde criança é herança de família. E os objetos, muitos deles orientais como as duas figuras femininas da dinastia Tang no hall de entrada e as porcelanas brancas alemãs, são escolhas do casal nas muitas andanças que fazem pelo mundo, a trabalho ou em férias, e onde se divertem visitando casas icônicas e de autor. Há peças de design vintage como a pequena poltrona francêsa de balanço, velha de vinte anos, e a cadeira de couro e ferro preto de Charlotte Perriand que Márcio trouxe da casa dos pais. O tronco fossilizado, misto de madeira e pedra, preto e branco, um achado na natureza, chama a atenção e se funde com as tonalidades cinza do chão, do tapete e dos sofás. As maçanetas de bronze e vidro Murano foram criadas especialmente para a casa. E a mistura dos tecidos das almofadas decorativas e o livro roxo sobre Frida Khalo, próximo ao banquinho também roxo de veludo, são escolhas pessoais de Márcio que acredita que o design é coisa do mundo masculino. E que argumenta que “depois da Eileen Gray só tivemos a Patricia Urquiola”.
O hobby do empresário é fotografar. Não surpreende, portanto, a enorme quantidade de fotos espalhadas pelas poucas e grandes paredes da sala: Vick Muniz, Miguel Rio Branco e Mario Cravo. Um desenho do pernambucano Macaparana, um relevo de Emauel Araujo, um mobile de Knop Ferro e uma pintura de Sergio Fingerman fazem também parte da coleção de arte contemporânea do casal.
Foi de início trabalhando numa grande empresa construtora paulista e, mais tarde, atuando na própria Atrium, a empresa do marido, que Lili ganhou experiência. São dela a arquitetura e os interiores do showroom da B&B Itália em São Paulo, daquele de Christian Liagre que será inaugurado em breve, e o do escritório da agencia África do publicitário Nizan Guanaes em Nova Yorque. As peregrinações de Márcio a Milão, atrás do melhor do design para trazer ao Brasil, começaram quando ele tinha pouco mais de vinte anos. A importação fora liberada pelo governo brasileiro e havia avidez pelo que viesse de fora. Isso num tempo, segundo ele, em que lá fora as pessoas ainda pensavam ser Buenos Aires a nossa capital. Hoje ele se impressiona com o interesse crescente pelo Brasil e seu mercado.
Seguidamente recebe em casa amigos como o inglês Tom Dixon a quem mostrou São Paulo montado numa Harley Davidson, ou Wladimir Kagan, o consagrado designer que fez moveis para Andy Warhol, Frank Sinatra e Marilyn Monroe. E, tanto Piero Lissoni, o grande mestre do design como a talentosa Patricia Urquiola, quando de suas primeiras viagens ao Brasil, contaram com a acolhida de Marcio e Lili Barbosa.
De tanto frequentar as grandes marcas, de aprender com seus donos, de conhecer designers famosos e de conseguir trazê-los para o Brasil, Marcio Barboza muito influiu na evolução do gosto pelo design contemporâneo entre as novas gerações de brasileiros: - “Mais do que móveis, quero vender cultura e estilo de vida.” E faz questão de frisar que não se preocupa com tendências, mas em vender o design que se eterniza, com estética de qualidade, e que não lhe interessa representar empresas concorrentes. “Cada marca que represento tem a sua própria cara e público. Estamos mais interessados em evolução do que em revolução”