Maria Ignez Barbosa
 
           
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Textos e Entrevistas - Caderno 2
 
19 de fevereiro de 2012
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MESTRES EM RETRATAR ROYALS



Poucos são os grandes fotógrafos do século 20 que não se deixaram influenciar pelo trabalho do inglês Cecil Walter Hardy Beaton (1904-1980) que, além de exímio artista da câmera, foi designer de tecidos, ilustrador e premiado criador de cenários e costumes para o teatro e o cinema.
Um ícone de estilo, é autor de livros como o delicioso The Glass of Fashionemque, além de descrever mulheres famosas e amigas, as retrata com bico de pena. Diarista inveterado e famoso por seus scrapbooks, acabou se tornando um dos maiores cronista de sua época.
Na recém-inaugurada exposição do V&A, um livro de visitas de 1951 atesta que, entre abril e maio daquele ano, figuras como Henri Cartier Bresson, Lucien Freud, Francis Bacone Frederick Ashton estiveram em sua casa. E é conhecido que a única mulher pela qual se apaixonou foi Greta Garbo, cujos olhos lhe inspiraram uma estampa de tecido.

David Bailey, famoso por suas fotos de celebridades e que chocou a Inglaterra ao declarer que é mito dizer que a Princesa Diana era uma grande beldade, fez questão de fazer o
retrato de Beaton e de incluí-lo em sua famosa Box of Pin (ups), ao lado de Jean Shrimpton e
dos Rolling Stones, uma coleção de 60 pôsteres, hoje peça rara e cobiçada por colecionadores. Beaton ganhava assim, em 1963, estatura de patriarca da então emergente “Swinging London”. Já o talentoso Lord Snowdon que fez belas fotos da família real, talvez por sua condição de cunhado da rainha, ao contrário de Beaton, parecia “olhar” para os Windsor a partir da atitude do insider.
Annie Leibovitz, conhecida por suas fotos de celebridades para a Vanity Fair como a de
John Lennon nu abraçado a uma Yoko Ono vestida dos pés à cabeça,quandoconvocadapara fotografar Elizabeth II em maio de 2007, às vésperas de uma viagem de estado da rainha aos Estados Unidos, não hesitou em invocar as lições de Cecil Beaton. Criticada por ter feito a rainha de longo dourado pálido, estola de pele e tiara de brilhantes olhandoao longe pela janela aberta no Salão Branco em Buckingham Palace, declarou: “Tratei dessa foto de uma maneira documental. Gosto da tradição, dos retratos de Cecil Beaton. Eles são muito importantes para mim”.

Glamour. Mario Testino quando chegou a Londres vindo do Peru não sabia quem era “esse Beaton sobre o qual todos falavam”. Rapidamente aprendeu. Com Hamish Bowles, outro fascinado pelo fotógrafo, fez vários trabalhos para a Harper’s Bazaar utilizando as técnicas de Beaton, seus sets teatrais e tipo de iluminação. Inspiraram-se nas fotos que ele fizera das irmãs e, mais tarde, de Diana Cooperem que o fotógrafo tentava conferir às mulheres da sociedade inglesa o glamour das artistas de cinema alemãs e americanas.
Em sua biografia, Cecil Beaton deixa dito que o trabalho de um fashion photographer é produzir uma apoteose. Seria transformer um sonho em realidade, atingir a perfeição, o momento máximo. E Mario Testino, em seu posfácio para o livro Queen Elizabeth II: Portraits by Cecil Beaton, arremata: “O set, as luzes, as roupas... essa mágica à qual todos almejamos... Em nosso mundo moderno, entretanto, tudo é rápido, da fotografia à comida, mas Beaton era o oposto disso tudo. Era como um jantar de cinco pratos, à luz de velas e com amigos à volta”.