Maria Ignez Barbosa
 
           
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Textos e Entrevistas - Caderno 2
 
19 de fevereiro de 2012
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A MONARQUIA INGLESA SOB O OLHAR DE CECIL BEATON

Exposição prova que fotos feitas por Cecil Beaton ajudaram a moldar a imagem pública da monarquia

No ano de 1953, às vésperas da coroação de Elizabeth II, Cecil Beaton, um dos mais influentes fotógrafos do século XX, parecia tomado de aflição. Em seu diário escreveu: “Me sinto muito tenso e estressado com o que tenho pela frente nos próximos dias.” Não era a primeira vez que fotograva membros da família real. A ocasião, no entanto, era para lá de especial.
A jovem Elizabeth, que ele fotografara adolescente, vestindo uniforme de guerra e, mais tarde, na qualidade de jovem mãe de primeiro filho, ascendia ao trono. Momento de pompa e circunstância.
Pois uma exposição recém inaugurada em Londres no Museu Victoria&Albert, Queen Elizabeth II by Cecil Beaton, em comemoração ao jubileu de diamante da Rainha em junho próximo, está ai para mostrar como as fotografias feitas por Sir Cecil Beaton ao longo de mais de trinta anos foram cruciais para moldar a imagem pública da monarquia a partir do período em que ela se ressentia da independência da Índia, da abdicação de Eduardo VIII e dos dissabores da guerra.
A carreira de Beaton que em jovem fazia das irmãs modelos para treinar sua câmera, deslanchou nos anos 20. Sua primeira exposição solo foi em 1927 quando se firmava como um dos principais retratistas e fotógrafos de moda de sua geração.
Em 1939 seu telefone tocou. Era a dama de honra da Rainha Mãe perguntando se ele a fotografaria na tarde do dia seguinte. Surpreendeu-se, pois embora já conhecido, seu trabalho era tido como revolucionário e pouco convencional.
As fotos de Elizabeth, consorte de Eduardo VIII foram publicadas dois meses depois de deflagrada a Segunda Guerra e surgiram passando ideia de serenidade, continuidade e firmeza da monarquia britânica. Já no espírito do marketing, não raro eram usadas como presente para soldados e súditos.
Nessa primeira fase, um Beaton romântico, desejoso de resgatar o esplendor das pinturas reais históricas, rodeou as duas Elizabeths de urnas, florões, tules e flores em cascata. Por sugestão da Rainha Mãe, em 1948, estaria fotografando a ainda Princesa Elizabeth junto ao berço de seu primeiro filho, o Príncipe Charles. A partir de então foi ele quem fotografou cada bebe que nascia; Anne em 1950; Andrew em 60 e Edward em 1964. Seu estilo já havia mudado de forma radical. Passara a preferir fundos brancos e a se concentrar primordialmente em seus retratados.
Em 1968, em plena “Swinging London”, pouco antes de uma grande retrospectiva de seus trabalhos na National Portrait Gallery, pela última vez Beaton retratou a atual Rainha. Em seu diário, outra vez confessa grande aflição: ”As dificuldades são grandes. Nossos gostos e nossos pontos de vista são tão diferentes...” Ao contrário da engalanada e barroca foto da coroação, uma imagem minimalista da Rainha sobre fundo azul, vestindo a capa escura de Chefe do Almirantado, título que ela, aliás, acaba de presentear ao marido por ocasião de seus 90 anos, foi o que surgiu desse encontro e acabou se transformando numa das maiores atrações da mostra. Apesar da postura despojada e do olhar contemplativo da retratada, Beaton conseguiu deixar evidentes sua força, nobreza e majestade.
Não foi a toa que a Rainha Mãe, em bilhete do próprio punho para Beaton em 1963, agradecia-lhe “por nos produzir como pessoas verdadeiras simpáticas.”
Na atual exposição, curada por Suzanne Brown, autora de “Queen Elizabeth II: Portraits by Cecil Beaton que trás textos de Roy Strong e Mario Testino, há belos retratos de Beaton feitos por fotógrafos amigos como Irving Pen, David Bailey e Curtis Moffat. Compõe também a mostra 18 mil vintage prints, negativos, transparências, páginas de contatos, 45 livros de recortes assim como deliciosos relatos do diário do fotógrafo como aqueles descrevendo a coroação em 1953, a que assistiu ao lado de oito mil pessoas antes de adentrar Buckingham Palace para as famosas fotos oficiais. Até 22 de abril a mostra, que depois circulará pelo país, poderá ser visitada em Londres.