Maria Ignez Barbosa
 
           
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Textos e Entrevistas - Caderno 2
 
02 de maio de 2012
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MURANO – a história de uma sedução



Material de antigas e incandescentes alquimias, o vidro Murano, duro e ao mesmo tempo frágil, com suas transparências, opacidades, craqueluras e diferentes coloridos, nunca deixou de seduzir e encantar as antigas cortes, a burguesia, os artistas plásticos e o olhar de qualquer comum mortal.
Copiando as receitas do vidro oriental, tudo começou, ao que consta, na rica Veneza em 982 depois de Cristo. E desde o século 13, antes mesmo que um decreto de 1291 proibisse a fabricação dos fornos na cidade, o artesanato do vidro foi deslocado para uma ilhota de nome Murano na laguna veneziana.
Em Paris, a exposição, MURANO - Obras-primas do vidro, da Renascença ao século XXI, inaugurada recentemente no Museu Maillol e que poderá ser visitada até 28 de julho próximo, nos conta a bela e bem sucedida história de quase sete séculos desse artesanato. Ali, exemplos dessa arte do vidro vão desde uma copa nupcial azul decorada com esmalte e adornada com a imagem do Triunfo da Justiça, do século 15, um cálice em reticello, (listinhas opacas e transparentes) de 1550, uma ânfora vermelha com alças de bronze do final do século 16, uma cadeira com aplicações de vidro azul do século 18 a obras modernas e contemporâneas de Eric Barouvie, Vittorio Zecchin para Venini, Jean Arp, César, Mona Hatoum Javier Pérez e do atualíssimo Recycle Group que criou uma passarela de pó de vidro branco com pegadas humanas.
A curadoria da exposição nos obriga a fazer o caminho inverso ao da história. Logo damos de cara com a instalação “Carrona” de Javier Perez, de 2011, composta por um enorme lustre de vidro Murano vermelho caído no chão, rodeado de urubus empalhados e de cacos de vidro também vermelhos que remetem à ideia de sangue. Foi produzido pelo Beregno Studio, ateliê histórico fundado por Adriano Beregno, na Idade Media e que, hoje, sob o comando de Silvano Signoretto, edita a maioria das obras em vidro de artistas contemporâneos.
Na sequência, ficamos sabendo que o vidro veneziano teve mecenas poderosos na Renascença como as famílias Medicis, Gonzaga e Estes. E que o fato de grandes mestres da pintura como Caravaggio e Veronese terem, em suas obras, seguidamente mostrado vasos e outras peças de Murano, contribuíu para os ares de nobreza que ganharam esses objetos. E é interessante descobrir logo em seguida que Vittorio Zecchin, diretor artístico da Cappellin-Venini& Cia, reproduziu, em 1921, os vasos ilustrados nesses quadros e que fazem parte da exposição. Nos inteiramos como os famosos Dodges venezianos, com mais que razão, tratavam de guardar a sete chaves o segredo das técnicas desenvolvidas na pequena ilha. De lá, peças das mais variadas formas, acabamentos e cores ( o vermelho, por exemplo, era obtido com adição do cobre), partiam para as cortes imperiais europeias e para o mundo. De Londres a Madri, de Istambul ao Cairo, não havia salão que se prezasse sem a presença imponente de um lustre de Murano. E muitas vezes pérolas de Murano, as chamadas e coloridas murrine, foram trocadas pelo ouro. Na pequena ilha, apesar de um breve período de declínio quando a Republica Veneziana caiu em 1797, os fornos jamais se apagaram. Sua economia foi então salva pelas sucessivas Exposições Universais onde mestres vidreiros como Salviati, Barovier, Moretti e Seguso, ligados às famílias locais, se distinguiram e ganharam mercado. Peggy Gughenheim, a americana que se apaixonou por Veneza e ali viveu, também cumpriu o seu papel. Convidava artistas de fora para explorar as possibilidades desse vidro tão especial. E mesmo hoje, depois de décadas do advento do plástico após a Segunda Guerra mundial, os fornos em Murano são desativados apenas em agosto, auge do calor na Itália.
Parte da sedução vinha do fato de o vidro Murano ser mais barato que o cristal de rocha e suas possibilidades de manejo e aparência, quase sem limites. A essa matéria composta de elementos pouco sedutores como o pó, a areia e os pigmentos que irão, por meio de uma operação química e de fusão, se transformar num material extremamente puro e atraente, basta, por exemplo, a adição de uma camada metálica para transformá-lo em espelho e, assim, termos replicadas de forma movediça ou não, nossa imagem e fantasias.
Em Veneza, o Museu do Vidro de Murano é o segundo mais visitado pelos turistas, perdendo apenas para a Accademia. Dalí e de outras muitas coleções públicas e privadas vieram as duzentas obras à mostra nessa exposição no Musée Maillol que vale a viagem a Paris.