Maria Ignez Barbosa
 
           
Tamanho do texto: A A A
Textos e Entrevistas - Caderno 2
 
20 de maio de 2012
           « anterior | próximo »


A PTERODOMANIA –uma mania verde



Em tempos de consciência verde vale lembrar uma das mais longas e intensas manias que grassou na Inglaterra no século 19 e que, entre 1840 e 1920, alastrou-se da Austrália ao Arizona passando pela Nova Zelândia e outras paragens do velho império. Trata-se da Pterodomania, popularmente chamada fern fever, a loucura pela folha nativa da samambaia, do velho xaxim muito nosso conhecido e suas inúmeras espécies.
Pois um livro de autoria da inglesa Sarah Whittingham, Fern Fever; The story of Pterodomania, lançado recentemente pela editora Frances Lincoln conta a história desta paixão colecionista cujas razões ocultas ainda podem ser de interesse para cidadãos do século 21.
A caça às Pteridófitas (vegetais vasculares divididos em raiz, caule e folhas) não foi atividade apenas de botânicos ou naturalistas que se organizavam em sociedades dedicadas ao tema e editavam sérias publicações. Damas da sociedade, mesmo que elegantemente vestidas dos pés à cabeça, também participavam das perigosas aventuras da caça à folhinha que, logo, como se pôde observar na famosa Exposição Internacional de 1862 em Londres, passou a ser modelo e estampa de objetos decorativos, tapetes, tecidos, móveis, jogos de jantar, brinquedos de crianças, transfers, gravuras e capas de livros. Grandes marcas inglesas como a Wedgewood, a Staffordshire, a Minton e a Royal Worcester não hesitaram em adotar o motivo, sob diversas feições, na ornamentação de seus produtos de cerâmica e porcelana.
De um dia a outro tornou-se imprescindível, na sala de estar de qualquer casa que se prezasse, a presença das wardiancases ou pequenas estufas com tampa de vidro onde eram mantidas e cultivadas as preciosas ferns, uma invenção do engenhoso cientista Nathaniel Ward. Ao ponto da escritora e taste maker Shirley Hibberd, em 1856, ter colocado a pergunta: - Quem pode viver contente ou considerar que sua sala está completa sem um wardiancase ? Do lado de fora, as ferns passaram a ser motivo de decoração de colunas e cercas de balcão e terraço. E um famoso banco de ferro fundido com relevo reproduzindo as folhas, o famoso Coalbrookdale benches, ainda hoje copiados, foi peça sempre a postos nos jardins residenciais e públicos onde não raro criavam-se estufas com pedras rochosas na esperança das pequenas nativas ali se acomodarem e se reproduzirem.
Em tempos pré-feministas e pré-computadores, o cultivo dos ferns pelas mulheres não era considerado apenas recreação ou motivo para rendas e bordados. Era tido por cientistas como certeiro para a cura da insônia, do nervosismo e da introspecção mórbida. Em seu livro British Ferns, a freira Margareth Plues chegou a afirmar que o estudo da planta poderia levar a pessoa a se aproximar do conhecimento de Deus, uma vez que se lidava com a vegetação primeva e componente do alimento dos fósseis.
Para ilustrar a febre pteridontesca, ( pteris é a palavra grega para a folha e deriva de Pteron que quer dizer pluma ou asa) vale saber que, entre 1869 e 1894, foram publicadas 12 edições de um mesmo livro, o Fern Garden de Shirley Hibberd. Sempre fascinando os colecionadores, vinham envoltos em novas e esmeradas encadernações com diferentes desenhos da preciosa folhinha gravados a ouro. Isso sem falar nos inúmeros livros publicados durante o período como The Ferns of the English Lake Country, Facts and Fancies about Ferns, Rustic Adornment for Homes of Taste e The New Practical Window Gardener para citar apenas alguns.
O inglês James Moly, um atacado pela fern fever, não fez outra coisa na vida a não ser dedicar-se às fascinantes pterodófitas. Ao morrer, sua coleção somava 600 espécies diferentes, todas colhidas em florestas de Dorset e Devon. Já a jovem Jane Myers, de tão decidida a se aventurar mato a dentro atrás de novas amostras, morreu ao cair de um despenhadeiro de 60 metros em Craighaill, Perthshire.
Nada parecia deter essa paixão horticultural tão vitoriana. Houve quem as tentasse conservar entre dois vidros acreditando que permaneceriam verdes e belas para sempre. Mesmo os que fossem ao mesmo tempo maníacos por música podiam se manter no clima e escolher a peça que preferissem ouvir como a valsa Beautiful Ferns de R.E Batho, muito dançada à época, a polka Fern Leaves de Strauss ou a Golden Ferns composta por William Smallwood. Sem falar na conhecida peça para piano de Edward Grieg, Flower Fern, tocada até hoje e um eterno prazer para os ouvidos.