Maria Ignez Barbosa
 
           
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Textos e Entrevistas - Caderno 2
 
18 de abril de 2013
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NO PANTEÃO DOS MODERNISTAS



Apesar de algumas de suas criações fazerem parte do glossário de arquitetos e decoradores contemporâneos, historiadores do design acreditam que o verdadeiro papel de Eileen Gray (1878-1976) como pioneira da modernidade ao lado de figuras como Le Corbusier e Mies Van der Rohe é pouco conhecido e subestimado. Pois uma grande retrospectiva de seu trabalho organizada pelo Museu Pompidou, em Paris, e que pode ser vista até o dia 20 de maio próximo, além de revelar a técnica prodigiosa e a força poética inimitável dessa criadora genial, pretende sanar esta injustiça.
Em vida, a notoriedade de Eileen foi breve. Talvez por ser mulher num ambiente essencialmente masculino. E também por ter sido sempre extremamente reservada, discreta e avessa a badalações. No final de sua vida, doente e esquecida, foi preciso que uma venda em leilão dos pertences do costureiro e colecionador de arte Jacques Doucet, em 1972, onde havia várias peças da criadora datadas dos anos 10 e 20, discretamente assinadas “Gray”, chamasse a atenção de colecionadores e tenha sido o ponto partida para o início do reconhecimento de seu trabalho. Entre as peças leiloadas, um hoje famoso biombo de quatro folhas laqueado de vermelho e decorado com figuras em verde e prata, batizado Le Destin que atingiu então 36 mil dólares e que pode ser visto na exposição no Pompidou.
De família irlandesa tradicional e aristocrática, Eileen Gray, cedo mostrou que sua vida seria alternativa. Independente como o pai que abandonou a mulher e o próprio país para viver na Itália, conseguiu que a deixassem estudar em Londres na Slade School of Fine Arts, onde fez formação em pintura. Fascinada pelas peças antigas em laca que via no Museu Victoria and Albert, resolveu treinar a técnica com um artesão-restaurador que descobriu no Soho. E, com 22 anos, depois de visitar a Exposição Internacional de Paris em 1900, apaixonar-se pelo ambiente cultural da cidade, mudar-se para lá e a frequentar a Academie Julien, pode de fato especializar-se na técnica ancestral com o japonês Seizo Sugawara para dele depois tornar-se sócia. No atelier onde trabalharam juntos por mais de vinte anos foram criadas peças emblemáticas encomendadas por colecionadores, produto da união da sensibilidade, audácia e do talento de Eileen Gray à maestria técnica de Sugawara, hoje consideradas obras primas em laca do inicio do século 20.
“O futuro projeta a luz, o passado apenas nuvens” dizia Eileen, determinada em seu modernismo, quando abriu a Galeria Jean Desert em 1922 no Faubourg Saint Honoré, no coração de um bairro dedicado à arte e ao luxo. Teve então clientes de estética exigente como Charles e Marie Laure de Noailles, Philippe de Rothschild e Elsa Schiaparelli. Foi seu período mais prolífico. Além da laca, trabalhou com tecelagem, metal cromado, vidro, cortiça e acetato. Viajou ao exterior, participou de grandes exposições internacionais e dividiu ateliê de tecelagem com uma amiga. Apesar do sucesso e de trabalhos diversos em decoração de interiores, em 1930 decidiu fechar as portas.
Alguns anos antes, a quatro mãos com Jean Bodovici, arquiteto romeno, criador da revista Arquitetura Viva, amigo de Le Corbusier de outros grandes arquitetos, construiu a famosa casa conhecida como E 1027, união do E de Eileen, 10 do J de Jean, 2 do B de Badovici e 7 do G de Gray, em Roquebrune –Cap-Martin no sul da França. A ideia dos dois, amigos até a morte dele em 1956, era de que “na construção arquitetônica houvesse a alegria da pessoa se sentir ela mesma como num todo que se prolonga e se completa”. A proposta era uma casa de verão para um homem que gosta do trabalho, de esporte e de receber amigos. Almas afins, em 1925 haviam viajado juntos para visitar em Utrecht a famosa casa do também modernista Gerry Rietveld. O complicado nome da casa que está atualmente sendo restaurada para futura visitação pública e que depois deu nome a uma das peças mais populares de Gray, a mesa de altura regulável de vidro e metal cromado, evidencia a complexidade do papel de cada um na realização do projeto.
Em seguida, Eileen, não longe dalí, conceberia a sua própria casa de praia. Batizou-a Temple a Pailla. Foi o único projeto que fez completamente sozinha. Nele, não se preocupou com o que estipulava então a arquitetura moderna tal como definida por Le Corbusier e Pierre Janneret e levou ao paroxismo a relação arquitetura-mobiliário. Criou protótipos famosos como um móvel com rodas para calças e um armário extensível. Bem mais tarde, depois da Segunda Guerra, já com 68 anos, dedicou-se a restaurar a casa e seus moveis bastante danificados. Anos depois, em 1955, vendeu a propriedade para o pintor Graham Sutherland.
Aos 76 anos, ajudada por um arquiteto local, Eileen Gray ainda se engajou em outro projeto, a Lou Pérou, uma velha bastilha de 1939, seu ultimo refugio de verão. A maior parte de sua vida, no entanto, foi passada em Paris, num apartamento no numero 21 da Rue Bonaparte, um imóvel do século 18. Ali, no final de sua existência, reclusa, essa artista total - incursionou na pintura, na laca, no design de moveis, na ambientação de interiores, na arquitetura e até na fotografia - destruiu fotos, cartas e qualquer documento com rastro pessoal. Deixaria como legado apenas a sua obra de design e arquitetura, compilada num arquivo que montou entre 1956 e 1972. Dizia que “o trabalho de um artista transcende a ele próprio.” Por ocasião da exposição, um belo livro, “Eileen Gray, sua Vida e Obra” foi lançado pela Thames&Hudson. É de autoria de Peter Adam, que apesar de quarenta anos mais jovem do que a biografada, foi dela um grande amigo. Teve acesso a documentos e à correspondência entre Eileen e uma sobrinha querida. Em fim de contas, como disse Cloé Pitiot, curadora da exposição, “de Eileen Gray ficaram obras únicas decididamente audaciosas, lacunas de arquivo e uma série de mistérios”