Maria Ignez Barbosa
 
           
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Textos e Entrevistas - Arte!Brasileiros
 
14 de agosto de 2012
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JOÃO CARLOS FIGUEIREDO FERRAZ, O PRAZER DE MOSTRAR



Até às vésperas da ultima SP-Arte realizada em São Paulo em maio último, a coleção de arte contemporânea de João Carlos Figueiredo Ferraz era composta de 820 obras. Hoje a contagem já seria outra: “Impossível resistir à tentação de adquirir na feira. É como se você entrasse num recinto com quase 100 serpentes em volta de uma árvore te oferecendo uma maçã”, diz brincando.
Faz tempo que a coleção deixou de caber nas paredes, chão e estantes de sua casa em Ribeirão Preto, interior de São Paulo, onde vive com a mulher Dulce. Era imprescindível e urgente um espaço maior para guardá-la e desfrutá-la. Há alguns anos houve tratativas com a Pinacoteca do Estado de São Paulo que acabaram não dando certo. –“A ideia era oferecer as obras em comodato desde que a instituição tivesse um espaço em Ribeirão Preto. Apesar da boa vontade da Pinacoteca, do Marcelo Araújo, ( então diretor e hoje secretário de cultura do Estado) não foi possível viabilizar isso pois não consegui que a prefeitura daqui disponibilizasse um espaço para essa parceria. Falta cultura, visão. Se depender do estado as coisas não acontecem. Acho que os prefeitos confundem cultura com entretenimento. Não entendem que um acervo importante de arte seja enriquecedor para a cidade”.
Foi quando João Carlos, com um projeto de arquitetura feito a quatro mãos com a mulher Dulce, partiu para a construção do Instituto João Carlos Figueiredo Ferraz em Ribeirão Preto, destinado a receber, guardar e expor uma coleção amealhada ao longos dos últimos 30 anos. Inaugurado em outubro de 2011, com trabalhos de artistas como Amilcar de Castro, Dudi Maia Rosa, Nuno Ramos, Waltércio Caldas, Ernesto Neto, Cildo Meireles, Adriana Varejão, Paulo Monteiro, Tunga, Tatiana Blass, Marcelo Cidade, a maioria da geração do próprio colecionador, o Instituto vem sendo visitado cada vez mais por alunos de escolas da região, pelo publico local, do entorno da cidade e estrangeiros de passagem por São Paulo. A exposição inaugural foi curada por Agnado Farias, com 155 peças da coleção e mais recentemente Cauê Alves escolheu 180 peças para uma nova amostragem.
Apesar de considerar que deveria ser função do estado a preocupação social de levar a cultura ao público, João Carlos tem o maior prazer em ver sua coleção apreciada e de certo modo cumprindo esse papel. –“ Aprecio muito o contato com as escolas. Percebo pelo olhar da molecada de oito, dez anos como eles apreciam, se interessam, aprendem. E fico encantado de ver que no fim de semana muitos voltam trazendo os pais”.
Segundo João Carlos, não é apenas olhando e observando mas também ouvindo muito que o colecionador aprende e treina o olhar: -“ Não existe ninguém que se faça sozinho. É preciso sempre dialogar com os agentes do meio, os galeristas, os curadores e os artistas que acabam se tornando amigos. É o que nos ajuda a formar o gosto e a julgar. Como todos os que transitam nesse ambiente sou um obsessivo. Sempre comprei o que gostava por instinto, não porque o artista fosse famoso. E dou preferência a jovens artistas. Se alguém me pergunta qual deles prefiro sinto como se estivessem me indagando de qual filho gosto mais. ” O colecionador conta que recebeu recentemente o Título de Cidadão Ribeirão Pretense em reconhecimento à sua generosidade para com a cidade. –“Na verdade o que fiz foi porque gosto, porque precisava de um espaço. E porque não fazia sentido deixar tudo trancado.”