Maria Ignez Barbosa
 
           
Tamanho do texto: A A A
Textos e Entrevistas - Arte!Brasileiros
 
14 de agosto de 2012
           « anterior | próximo »


ANGELA GUTIERREZ, O PRAZER DE DOAR



Mineira e de família onde colecionar sempre foi paixão, pode-se dizer que Angela Gutierrez nasceu com o gene do colecionismo. No entanto, sua atuação no mundo da cultura e das artes vai muito além. Resolveu que o resultado de suas pesquisas, achados e aquisições de peças artísticas do universo do barroco brasileiro deveriam ser compartilhados. Nada de encastela-los, guarda-los só para si.
Nessa linha de ação e pensamento, a da democratização da cultura e do prazer de mostrar o que de mais belo o Brasil produziu até o século XIX, está partindo agora para a criação de um terceiro museu em Minas Gerais, fruto, como os dois primeiros, de uma doação em vida de uma de suas mais importantes e valiosas coleções amealhadas ao longo de três décadas.
- “Nunca tive problema com a doação em sí. É só registrar a doação em cartório no momento da criação do museu.”
Quanto à disponibilização dos espaços públicos para abrigar as coleções, Angela tem sido bem sucedida. Que cidade não haveria de desejar, de bom grado, ter a oferecer ao público um acervo de qualidade excepcional? Quando há treze anos criou o Museu do Oratório, com 160 peças e trezentas imagens de santos de diversas regiões do país, lhe foi cedido, em Ouro Preto, o prédio tombado da Casa Capitular da Ordem Terceira do Carmo, ao lado da Igreja de mesmo nome. E para a captação de fundos para a gestão desse museu e também do Museu de Artes e Ofícios em Belo Horizonte, instalado na antiga Estação Ferroviária da capital mineira e que abriga 450 peças do universo das atividades e do trabalho de homens e mulheres brasileiras até o período pré industrial, Angela criou um Instituto Cultural de utilidade pública sem fins lucrativos ao qual se dedica ativamente.
Segundo a colecionadora, se algum problema há, “nunca é com a cidade, todas de braços abertos ou disputando a coleção, mas sim, muitas vezes com o Instituto de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional.”
Conta que quase desistiu do terceiro museu, o Museu de Sant’Ana, em Tiradentes onde lhe fora oferecida uma construção do início do século XVIII, o prédio tomado da antiga cadeia e que hoje pertence à Fundação Rodrigo Mello Franco de Andrade e à Universidade Federal de Minas Gerais. Depois de mais de três anos aguardando do IPHAN a aprovação do projeto de restauração do imóvel, feito por Gustavo Penna, um arquiteto mineiro, professor da UFMG e especialista em patrimônio histórico brasileiro, achou por bem desistir e informou a cidade que o museu não mais seria implantado ali, mas sim em Belo Horizonte. Foi quando um grupo de pessoas se formou na porta da cadeia e de caderno e bic na mão partiu para recolher assinaturas de protesto. Ecos do movimento chegaram aos ouvidos da Ministra da Cultura Ana de Holanda em Brasília e a questão foi, então, finalmente resolvida. -“Ficou provado que não havia nenhuma razão para o impedimento, nenhum problema com o projeto. Era apenas uma questão de ineficiência mesmo, de falta de respeito, de burocracia, enfim.”
Assim, “daqui a um ano e meio, numa previsão otimista”, Angela Gutierrez vai poder ver bem instalada e à disposição do público a sua preciosa e rara coleção de 260 Sant’Anas brasileiras de várias regiões do país, peças datadas do final do século XVII ao início do século XIX, num museu inédito no mundo. Uma devota da Santa – sua única filha tem o nome de Ana – Angela acredita tratar-se da mais linda das imagens da fé cristã. -“São duas santas mulheres, a avó e a mãe de Jesus, uma vez que Sant’ Ana é a mãe da Virgem Maria. Ela aparece sempre sentada, segurando um livro e ensinando a filha a ler. Daí também ser chamada de Santa Mestra”.
Como sua prática vem atestando, Angela acredita que o ato de doar é simples e prazeroso. Transformar um acervo pessoal de qualidade em patrimônio público só lhe traz satisfação. –“Gosto de mostrar as belezas que o Brasil tem. A coleção de oratórios já saiu do Brasil mais de dez vezes. Em Paris, por exemplo já foi exposta três vezes, na sede da Unesco, no Carrossel do Louvre e no Petit Palais. Também já foi mostrada em Londres, Lisboa e cidades da América Latina. O que é feio sempre aparece. O que é bonito muitas vezes fica escondido. Fico preocupada em reverter isso.”