Maria Ignez Barbosa
 
           
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Textos e Entrevistas - Arte!Brasileiros
 
09 de outubro de 2012
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JEAN e GENEVIÈVE BOGHICI

O casal construiu pacientemente, ao longo dos anos, uma das coleções mais abrangentes das Artes Plásticas no Brasil

É possível ficar horas de papo animado com Jean Boghici. Impressiona, aos seus oitenta e quatro anos, a memória afiadíssima. Logo sou informada que, com uma exposição de mais de 150 obras de sua coleção particular e curadoria de Leonel Kaz, no dia 10 de setembro próximo, será inaugurado o MAR, o tão esperado Museu de Arte do Rio na Praça Mauá, primeiro projeto de revitalização da zona portuária a sair do papel: “Vai ter de tudo nesse grande apanhado de minha coleção, desde obras de artistas estrangeiros e brasileiros, a alguns trabalhos da minha coleção de Debrets que descobri e comprei num sótão em Paris nos anos 60”.
Um dos primeiros marchands do pós guerra no Brasil, ( antes dele havia apenas Franco Terranova com sua Petite Galerie em baixo do cinema Ryan em Copacabana), Jean Boghici, com dois sócios, abriu a Relevo na Avenida Copacabana, próxima ao hotel, no início dos anos 60. E em 1979, depois de alguns anos fora do Brasil e de uma longa obra que uniu duas casas em Ipanema na Rua Joana Angélica, foi inaugurada a Jean Boghici Galeria de Arte com uma memorável exposição de obras do uruguaio Joaquim Torres-García. Ao longo de todos esses anos, tendo lançado, tirado do esquecimento ou apenas exposto artistas como Maria Martins, Cícero Dias, Antonio Dias, Vicente do Rego Monteiro, Rubens Gerchman e Marçal de Athayde, passaram por sua mãos obras de arte do século 19, do concretismo, do construtivismo, do surrealismo, da não figuração, do pop e do que fosse vanguarda.
Jean Boghici não confunde os papéis: “Sou apenas um marchand que tem uma bela coleção”, esclarece. E coloca a pergunta: –“Mas com tanta obra passando pela minha mão, como não me tornar um colecionador ? Ser além disso curador, isso já é um modismo.” Apesar de contentar-se em ser apenas um bom marchand, Boghici, sempre com uma ponta de humor, nunca deixou de dar nomes e de agregar conceito às exposições montadas na própria galeria ou em seus stands nas feiras internacionais de arte. Na mais recente SP Arte, a mostra chamava-se: Não há nada como um Dias depois do outro: “Eram os meus dois Dias preferidos, o Cícero e o Antonio, lado a lado, ambos nordestinos, um do Recife, outro de Campina Grande, o primeiro colega do surrealismo, o segundo da não-figuração. Dois nomes que atravessaram as fronteiras do Brasil e foram para a Europa antes de Robert Rauchemberg ganhar um premio na Bienal de São Paulo em 1964 e o polo da arte mudar de Paris para os Estados Unidos.”
Pois sua coleção – Jean Boghici não sabe ao certo o número exato de obras que tem espalhadas pelo chão e paredes de sua casa em Itaipava (um belo projeto de Olavo Redig de Campos), pelos dois andares do apartamento duplex em Copacabana ou guardadas em cofres fortes. São trabalhos que convivem lado a lado com o melhor do design brasileiro, sobretudo peças do amigo Joaquim Tenreiro que muito sentou em seus próprios sofás, poltronas e cadeiras quando frequentava a casa dos Boghici, e também de Sergio Rodrigues, com quem convive até hoje.
Com surpresa percebo que não esquecera de uma entrevista feita por mim com ele para o Jornal do Brasil no final anos 60. Falo de Ligia Clark, outra entrevistada na época, e fico sabendo: - “Ela foi o grande amor da minha vida. Ficamos juntos uns 6 anos, de 58 a 63. Viajávamos pelo mundo. Em um livro dela que deverá ser exposto em breve numa exposição no Itaú Cultural em São Paulo, ela revela que quando já tinha feito de tudo em matéria de arte do tipo entre molduras, seguindo meus conselhos de liberar-se e partir para o espacial, foi que conseguiu sair do impasse em que se encontrava e pode enveredar pelo caminho dos bichos.”
Há mais de quatro décadas, Jean Boghici, romeno e filho de mãe russa, é ultra bem casado com a francesa Geneviève Coll, “ ela é minha mão direita e esquerda” e mãe de suas duas filhas Muriel e Sabine, de 42 e 38 anos que “são bonitas e talentosas.” Conta que Sabine, que trabalha também na galeria, é dona de uma grande coleção de brinquedos antigos exposta no Hotel Quitandinha em Petrópolis em 2011.
Embora Picassos já tenham passado por suas mãos, não tem nenhum na coleção. O enorme móbile de Alexander Calder no teto da sala o abençoava enquanto conversávamos. Lamentavelmente perdeu alguns Torres- García da fase construtivista destruídos no famoso incêndio ocorrido no MAM do Rio, em 1978 quando estavam ali emprestados para uma exposição. Tem um Auguste Rodin, um Milton da Costa antigo e, de Walt Disney, o estudo para um desenho animado em celuloide. Tem Tarsila, tem Alberto Buri e um bicho e um trepante de Ligia Clark. E muitíssimo mais. Entre tantas obras de qualidade e provenientes das melhores fases dos mais variados artistas. A conversa se encerra com a frase que deverá ser título de uma próxima exposição: “Não tenho tudo que amo mas amo tudo o que tenho.”