Maria Ignez Barbosa
 
           
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Textos e Entrevistas - BAMBOO
 
15 de dezembro de 2013
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EM MIAMI, ARTE A BEIRAMAR



Quando, curiosa – pois se tratava de um ambicioso projeto da dupla de arquitetos Herzog e Demeuron - visitei em julho passado, na Flórida, a obra do novo do Perez Art Museum Miami, o PAMM, não dava para acreditar que este novo polo cultural estaria de portas abertas em dezembro, pronto para receber os visitantes que todos os anos invadem a cidade durante a feira Miami Art Basel.
Com vista deslumbrante de Byscaine Bay e rodeada por uma vegetação projetada como parte da arquitetura, a edificação tem três andares, dois deles de vidros à prova de furação, construídos entre uma cobertura vazada e uma plataforma de onde degraus quase do comprimento das laterais do prédio nos levam a um parque ou a uma passarela a beira mar. Esplendoroso, o museu, com seus quase 200,000m2 chega desafiando e contribuindo para a revitalização do centro de Miami.
Levando em conta o clima e a vegetação local, o projeto faz questão de integrar os espaços expositivos internos e externos, ensaia com o concreto diferentes texturas e tons, cria possibilidades de futura expansão e permite que a área da escadaria interna – em geral espaço mal aproveitado em museus - possa se transformar em auditório. Isso sem falar nas colunas que pendem da cobertura tais cascatas verdes assinadas pelo paisagista francês Patrick Blanc.
O que não faltou, desde que, em 2004, o conselho do pequeno MAM, Miami Art Museum, fundado em 1996, saiu atrás de um terreno público e de 100 milhões de dólares da prefeitura para a criação de uma sede definitiva e para ampliar seu acervo, foram fofocas e polêmicas. Em 2006, para sua direção, foi convidado Thomas Riley, que, depois de quatro anos, em 2010, renunciou alegando que já tinha dado sua contribuição ao negociar as licenças para a construção do museu e preparado o concurso para a escolha do projeto arquitetônico. A torcida negativa era vocalizada pelos donos de algumas das grandes coleções de arte contemporânea da Flórida que fundaram seus próprios espaços expositivos e costumam organizar mostras que se tornaram um must nas regiões de Wynwood e do Design District e assim vinham suprindo a falta de um museu de arte moderna e contemporânea comparável ao das grandes cidades do mundo.
Mais recentemente, no entanto, outros colecionadores milionários e menos conhecidos do que os de la Cruz, os Margulies e os Rubell, entraram em cena com doações importantes ao PAMM, não só em obras mas em dinheiro. Boa parte dos 220 milhões de dólares necessários já foram levantados graças a generosidade e à vaidade de alguns que, ao fazerem doações, garantem seus nomes batizando o restaurante, o café, o terraço, o corredor ou algum degrau da escada, tudo de acordo, é claro, com o valor aportado. Jorge Pérez, de 63 anos, origem cubana e construtor de várias torres de apartamentos em South Miami, por ter doado 40 milhões de dólares, a maior de todas as doações privadas - metade em dinheiro, metade em arte – ganhou o direito de chamar de seu o novo museu.
Não faltou quem, em protesto, deixasse o Conselho de Administração. Mesmo assim, doações não cessam de ser solicitadas e atendidas. Causou surpresa o aporte de 15 milhões de dólares, três em obras e 12 em dinheiro de um doador anônimo. E virou tema de conversa descobrir quem seria esta incomum figura, tão alheia à fogueira de vaidades que incendeia a elite local.