Maria Ignez Barbosa
 
           
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Textos e Entrevistas - HALL - ABIMAD
 
15 de julho de 2014
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EM CASA COM CECIL BEATON



Em Salsbury, terra da famosa catedral de estilo gótico, no Museu South Wiltshire, uma bela exposição, “Cecil Beaton at home, Ashcombe&Reddish, rememora o talento decorativo de um multifacedo “renaissance man” do século XX. Fotógrafo autodidata e praticante desde a infância, provou ser também um dotado criador de costumes, cenarista, teatrólogo, designer de tecidos, cronista da Vogue e também, com a ajuda, diz-se, de “ghost writers” Cecil Walter Hardy Beaton (1904-1980) um sofisticado escritor sobre interiores refinados e personalidades relevantes de sua época.
São dele, por exemplo, os cenários e figurinos de Audrey Hepburn no filme My Fair Lady de 1964 e também as conhecidas fotos (inclusive a da coroação de Elizabeth II ) da família real inglesa que fotografou durante décadas. Poucos são os grandes fotógrafos do século XX que não se deixaram influenciar pelo trabalho dessa figura que já foi consagrada em exposições como a retrospectiva de sua obra na National Portrait Gallery em Londres em 1968 e as que ocorreram durante o jubileu da Rainha em 2012 no Victorian &Albert Museum em Londres que ressaltavam como seu exemplo ajudou a moldar a fotografia contemporânea de hoje. Serial seus discípulos, entre outros, David Bailey, Lord Snowdon ou Tony Armstrong Jones, Mario Testino a Annie Leibovitz. Esta última, quando convidada a fazer um portrait da Rainha Elizabeth II em 2007 em Buckingham Palace, não hesitou em afirmar: “Tratei dessa foto de uma maneira documental. Gosto da tradição, dos retratos de Cecil Beaton. Eles são muito importantes para mim”
Um entre os quatro filhos de Ernest e Etty Beaton, um casal que se conheceu fazendo teatro amador, Cecil Beaton, nasceu no bairro de Hampstead. Em pequeno, adorava quando lhe permitiam ver a mãe vestir-se para uma ocasião especial. Tratava-se de um longo ritual que deixava atrás de si uma desordem perturbadora e, no menino, fantasias sobre a sofisticação das festas frequentadas pelos pais. Na escola cantava e, aos 11 anos, com a ajuda da babá que era dona de uma Kodak 3A, daquelas que se expandiam, começou não só a fotografar como a revelar no porão da casa de seus pais. Anos mais tarde, depois de muito treinar usando a mãe e as irmãs como modelos, em plenos anos frívolos, loucos e criativos do pós primeira guerra, as fotos da poetisa Edith Sitwell tal uma escultura gótica e fúnebre, feitas em 1926, chamaram a atenção da revista Vogue. Era o início de uma associação da vida inteira com a Condé Nast e de um vai e vem profissional entre a Europa e os Estados Unidos escrevendo, ilustrando fotografando e colecionando amigos.
No delicioso livro The Glass of Fashion, de 1954, onde não só descreve seus amigos famosos como os desenha com bico de pena, Beaton deixa evidenciada a quantidade de amizades masculinas e sobretudo femininas que já fizera até então e que iam de Wallys Simpson, Charles de Beisteguy, Jean Cocteau até a mililionária Millicent Rogers (socialite e colecionadora americana que vestia Charles James, o costureiro anglo americano sobre quem o Metropolitan Museum of Art acaba de inaugurar uma exposição). Num caderno de visitas de 1951 atesta-se que entre abril e maio daquele ano passaram por sua casa figuras como Henri Cartier Bresson, outro icônico fotógrafo, os pintores Lucien Freud e Francis Bacon, assim como o coreógrafo do Royal Ballet, Frederick Ashton. Espirituoso, sobre sua amiga, a decoradora Syrie Maugham, uma das primeiras a fazer nos anos trinta ambientes todos brancos, dizia que seu único traço de mau gosto tinha sido casar-se com Somerset Maugham, o escritor de O Fio da Navalha e de Servidão Humana, que ele considerava irascível e mal educado.
Ao longo da vida, figuras como Jean Paul Sartre, Picasso, Elsa Schiaparelli, Marlon Brando, Bianca Jagger e os Rolling Stones, entre tantos outros, pousaram para suas lentes.
Um brasileiro que privou da amizade de Beaton foi o decorador Julio Senna, que em uma passagem por Nova Yorque, entre 1945 e 1947, teve a oportunidade de trabalhar na revista Harper’s Bazaar, onde conheceu o fotógrafo inglês. Senna foi fotografado por Beaton no Central Park e teve seu retrato desenhado com bico de pena.
Foi na verdade depois da Segunda Guerra, quando a Europa tentava se reerguer, que Cecil Beaton passou a aceitar convites de Hollywood e da Broadway para desenhar sets e costumes para o cinema, balé e ópera. Em 1946 não só idealizou os cenários como atuou num revival de Lady Windermer’s Fan de Oscar Wilde. Seus costumes para o musical My Fair Lady, com Julie Andrews e Rex Harrison, tanto encantaram as plateias que ele logo se viu desenhando os figurinos do filme Gigi em 1958 e os de My Fair Lady em 1964. Em 1955, 57,60 e 70 arrebanhou os prêmios Tony por melhor costume para o teatro e, em 1965, ganhou o Oscar por melhor costume no cinema.
Apesar de tido como gay, de que se falasse de um caso seu com Gary Cooper e de ser notório que amava platonicamente o amigo Peter Watson, ficou conhecida em sua história de vida o affair e a grande paixão que teve por Greta Garbo cujos olhos se transformaram em estampa de tecido desenhado por ele, o “Garbop’s Eyes” e que vem sendo reeditado pela tecelagem Beauderest desde 2007. Além desse padrão, faz sucesso, entre outros, o “Beaton Beauties” que ganhou premio de melhor estampa do ano em Londres em 2008 e que despertou a curiosidade dos compradores que queriam identificar as famosas amigas de Beaton.
Fora os tecidos, que nos dão acesso hoje à criatividade de Cecil Beaton, também o famoso scrapbook que montou como um diário durante toda a vida e que continha recortes, fotos, comentários, desenhos, fofocas e o que lhe viesse à mente, foi há alguns anos, editado pela Assouline. Compilado por James Danziger, o livro pesa vários quilos e pode ser, além de diversão, uma bela peça decorativa em qualquer mesa de frente de sofá sofisticada.
A exposição no Wiltshire Museum, inaugurada em 23 de maio ultimo e que estará aberta ao público até 19 de setembro, se concentra no trabalho que fez em duas casas onde morou e que presava especialmente: Ashcombe situada perto de Tollard Royal e a Reddish, em Broad Chalke, na mesma região. Segundo o curador Andrew Ginger, um Beaton maníaco, o décor de Ashcombe mostra um jovem de 26 anos, independente, alegre e se divertindo em entreter amigos. Já Reddish atesta a maturidade, a presença de uma certa teatralidade influenciada por seu trabalho no teatro, especialmente os sets em estilo Eduardiano que fez para Lady’s Windermere’s Fan e filmes como Ana Karenina.
Ashcombe, que Beaton possuíu durante 15 anos e onde adornou a porta de entrada com elementos no estilo Palladio desenhados por Rex Whistler, hoje pertence a Guy Ritchie que foi marido de Madonna e que ali morou com ela por um curto espaço de tempo. Nos tempos de Beaton era frequentada por boêmios, artistas e bi sexuais que ali se juntavam em festas temáticas e reuniões extravagantes.
Em matéria de influencias, nessa fase juvenil, aparecia na casa um pouco de tudo, do barroco austríaco ao vitoriano das cadeiras decoradas com madre pérola. Tambores militares serviam de mesas laterais, murais em estilo circense pintados por amigos cobriam as paredes. Em uma festa campestre em 1937, a casinha de tijolos no jardim foi circundada de guirlandas de flores de papel e o gramado em frente foi ocupado por ovelhas com laços de cetim no pescoço.
Apesar de muitos de seus moveis estarem perdidos, o curador Andrew Ginger e Roger Barnard , donos da tecelagem Beaudesert, situada também nos arredores de Wiltshire, conseguiram recriar para a exposição algumas das peças mais emblemáticos. Entre elas, a cama de dossel inspirada num carrossel, policromada e esculpida com figuras mitológicas como cavalos marinhos. Uma estampa sobre chintz cor de rosa que Beaton muito admirava, foi recriada pela Beaudesert para forrar um sofá que estava ainda em Reddish. E dois painéis com 3000 botões de madrepérola aplicados, réplicas dos muitos que compunham as cortinas originais ornamentadas com 3000,000 botões do estúdio do fotografo em Ashcombe, foram recriadas em Bangalore .
Em sua biografia Cecil Beaton deixa dito que o trabalho de um fashion photographer é produzir uma apoteose. Seria transformar um sonho em realidade, atingir a perfeição, o momento máximo. No posfácio do livro “Queen Elizabeth II: Portraits by Cecil Beaton” Mario Testino lembra “o set, as luzes, as roupas...essa mágica à qual todos almejamos...Em nosso mundo moderno, entretanto, tudo é rápido, da fotografia à comida, mas Beaton era o oposto disso tudo. Era como um jantar de cinco pratos, à luz de velas e com amigos à volta”.
Sua obra é um registro muito claro das transformações estéticas ocorridas durante o século XX e sobre as pessoas que, por sua atitude e comportamento, foram fundamentais para a formação do gosto num período muito rico da história da moda e da decoração.