Maria Ignez Barbosa
 
           
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Textos e Entrevistas - HALL - ABIMAD
 
18 de outubro de 2014
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MARKO BRAJOVIC

O design e a arquitetura integrando conceitos da natureza

Tímido e discreto, formado em arquitetura e design em Veneza, o croata Marko Brajovic, co-fundador da Agencia Toogood Creative Agency em Barcelona veio para o Brasil com um projeto de um auditório flutuante na Amazônia. E em 2006, baixou em São Paulo para dar aulas e dirigir o departamento de Design Industrial e Design de Interiores do Instituto Europeu de Design.
Logo, seu talento, charme e o seu amor à primeira vista pela caótica e multicultural São Paulo seriam descobertos e reconhecidos. Hoje, totalmente adaptado ao Brasil, casado com a brasileira Teka e pai de Zoe e Zion, ele trabalha non stop. Sentindo-se um paulista “apesar do sotaque”, no bairro onde mora, fundou o Atelier Marko Brajovic. Ali aplica à arquitetura e ao design conceitos de biomimética, uma área multidisciplinar que estuda as estruturas biológicas da natureza e suas funções para aplica-las na inovação da arquitetura e do design. Acredita numa estética híbrida e é da opinião que o arquiteto não deve ser identificado por um estilo próprio. O que nunca o impediu, bem ao contrário, de viajar o mundo, de Dubai a Miami ou de Buenos Aires à Austrália, para supervisionar diferentes projetos, fazer instalações cenográficas e proferir palestras.
Multicriativo, o Atelier Marko Brajovic cujo logo é uma girafa com uma borboleta, - um híbrido impossível - e que abriga, além dele, quinze arquitetos com os quais Marko tem prazer em passar o dia, faz desde arquitetura cenográfica ao design de interiores e de produtos. O atelier, onde a pessoa do cliente é o grande player pois participa dos processos, é uma micro-casa com espaço para a feitura de maquetes e prototipagem, com direito a uma pracinha bem no meio onde impera uma goiabeira e onde trabalha-se de forma orgânica, ou seja, como explica nosso entrevistado, “de dentro para fora”. Suas ferramentas são o conhecimento como as pessoas, a física e a natureza agem. Ali e na cabeça de Marko as ideias abundam. Ele e seu grupo de arquitetos acreditam na criação de espaços que comunicam marcas e valores através de narrativas e experiências multissensoriais. “É preciso entender o coletivo e a vida dos objetos.”
Marko e a sua equipe são capazes de dedicar seu tempo à criação de um playground de 38m2 para o jardim de infância de uma favela, à montagem das exposições de Stanley Kubric e David Bowie como as que fez no Museu da Imagem e do Som recentemente, uma Vila para a Nike no Rio de Janeiro, um Pavilhão do Brasil na Feira Universal em Shangai, lojas da Camper como as projetadas em São Paulo e na Austrália, à criação de um banco de bambú como o já famoso Peque, e à instalações de feiras e exposições de arte e design no SESC e outras instituições.
Basta dizer que apenas em agosto passado, entre os dia 14 e o 17, foram cinco as ações apresentadas pelo Atelier Marko Brajovic: o PASSEANDO DE BICICLETA, RE-CONHECI SÃO PAULO, a cenografia para o MADE POP-UP, a participação no TALKS by Nature 05 durante o São Paulo Design Weekend, o lançamento da cadeira ZIA no MADE POP-UP e a participação num debate sobre biomimética entre Marko e Eduardo Dias no Núcleo de Design durante a Belas Artes Design Week.
Marko acredita que através do design é possível integrar diferentes culturas e que a ideia do híbrido é fundamental no trabalhos de natureza eclética. Os projetos na floresta amazônica, segundo ele, lhe ensinaram muito. Percebeu como os moradores dali respeitam o local onde moram e como tentam se adaptar. Chegou mesmo a concluir que nesse esforço humano “não há diferença entre a floresta e a cidade”.
Trouxe de lá, por exemplo, o fascínio pelo bambu, material de crescimento rápido e cuja utilização é de baixo impacto ambiental. E para o primeiro projeto para a loja Camper no Brasil, o arquiteto se inspirou nas festividades folclóricas brasileiras que usam camadas densas de fitas. No caso específico da ambientação da loja foram usadas cordas de sapato tingidas de vermelho que ganharam formas diversas no espaço, proporcionando ao cliente-visitante uma experiência sensível e cenográfica onde eles se sentem os próprios atores.
Para a Bertolucci, utilizando material descartado da fábrica criou diversos modelos de novas luminárias. Uma delas é a Herba, para mesa ou chão, inspirada no movimento fluído e delicado da grama no vento. São cinco tubos de cobre curvados manualmente e acrescidos de bastões de acrílico iluminados por leds. O segundo modelo, batizado de Nonno, que pode vir em grande, médio ou sob a forma de pendente foi uma homenagem ao fundador, Walter Bertolucci. Trata-se de uma combinação de refletores repuxados manualmente em cobre, latão ou alumínio, produzidos a partir de bases de abajur do acervo.
Embora visite a Croácia regularmente – foi nas ruinas de um castelo numa cidade antiga vizinha a Rovinj onde moram seus pais, que celebrou, há três anos, seu casamento com Teka na presença de inúmeros amigos que para lá se dirigiram vindos de todas as partes do mundo – Marko Brajovic é encantado por São Paulo. “Trata-se de uma cidade cheia de energia, intensidade e guiada por ritmos polimórficos que proporcionam novas experiências e sensações. As pessoas, a cidade e sua arquitetura me atraem muito. Construções diferentes coexistem e nos remetem à história da cidade. Num mesmo bairro podem conviver diversos estilos arquitetônicos que vão de um prédio contemporâneo a casas históricas e de prédios tradicionais a casas bem modernistas. Acho que a beleza de São Paulo se deve à falta de homogeneidade e que é isso o que faz com que tudo conviva em harmonia. Há obviamente também obras como a dos anos 2000 de qualidade bastante dúbia o que fez com que os novos arquitetos, com razão, tratassem de colocar sérios questionamentos”.
“Acho que São Paulo precisa de mais espaços públicos. Sinto que as pessoas cada dia tem mais medo e constroem muralhas no seu entorno. Isso me leva à conclusão que a urbanização tem de ser repensada de modo a garantir uma melhor qualidade de vida a seus moradores. O habitante tem a obrigação de cuidar da sua cidade do mesmo modo como cuida da sua casa. Tem de amar a cidade para que a cidade o ame de volta.”