Maria Ignez Barbosa
 
           
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Textos e Entrevistas - HALL - ABIMAD
 
22 de junho de 2015
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HISAKO SEKIJIMA, DA CESTARIA À ESCULTURA



Hisako Sekijima tem 70 anos. É pequena e delicada como são em geral as mulheres japonesas. Inglês perfeito, pois teve a oportunidade, por causa do marido, de viver por dois períodos nos Estados Unidos. No dia em que conversamos a roupa que vestia era ocidental mas destituída de qualquer modismo.
Apesar da aparência quase frágil, carregando na mão uma pequena tesoura, uma faquinha e um canivete, para mostrar que trabalha com utensílios os mais corriqueiros, é ela própria quem faz de guia para um pequeno e pré-agendado grupo de mulheres convidado a visitar a exposição de suas ultimas esculturas no Museu Tomo em Tóquio no final do ano passado.
Encantada com o que via e ouvia, ainda tive a oportunidade de com ela almoçar em seguida e saber mais como a partir da experimentação com diferentes técnicas da cestaria ela pode transformar os mais rudimentares elementos da natureza em formas e feições tridimensionais e que nos remetem a pensar na pureza e na espiritualidade embutidas nas esculturas de um Brancusi.
Embora nos Estados Unidos, entre 1975 e 1979 e mais tarde entre 1998 e 1999, tenha estudado a cestaria dos índios nativos americanos sob uma abordagem contemporânea, muito mais que artesã da cestaria ou conferencista e professora do métier, Hisako é uma escultora consagrada com exposições em diversos países como Estados Unidos, Inglaterra, Alemanha, Japão e tem peças de sua autoria em conhecidos museus do mundo. Hisako Sekijima esteve inclusive no Brasil onde conheceu Renato Imbroisi, pessoa que muito admira, conhecido por seu trabalho com artesãos de norte a sul no Brasil e também em Moçambique.
Seu dia a dia hoje em Toquio é simples. Em seu próprio pequeno jardim ela se abastece com cascas de arvores, palmas, rattan, fibras de arbustos frutíferos como o abricó e outros, varetas, galhos, raízes de gengibre e o que lhe parecer transformável por suas mãos habilidosas e o auxilio de seus pequenos utensílios. Uma escultura pode levar um mês inteiro de dedicação. São os filhos que não teve.
Hisako reconhece ter expandido os limites da cestaria ao extremo, não só recolhendo inspiração na natureza como buscando novas ideias, formas, conceitos e técnicas. Como professora que foi, sempre soube ser generosa, dividindo informações sobre as técnicas que desenvolveu ao longo do tempo, colocando questões instigantes aos alunos e ajudando nas soluções dos problemas.
Nos Estados Unidos, país menos tradicionalista que o Japão, viu novas maneiras de pensar a cestaria e percebeu que era possível abordar de forma diferente as questões da matéria, da proporção e do volume no espaço. Ali pôde também desenvolver uma nova visão sobre a cestaria tradicional de diferentes povos e tratou de perceber como em suas próprias mãos, o que a natureza produz, poderia ser modificado. Uma exposição nos Estados Unidos, quando morou em Riverdale, perto de Nova York, onde pedia aos vizinhos que lhe passassem material descartado dos jardins, ganhou justamente o nome de “Natureza Transformada”. Um nó ou trançado que dê na palha não será comum ou banal. Terá sido ensaiado no aperfeiçoamento de seus próprios métodos, que como ela diz são menos regulares, menos econômicos e mais ambíguos. O fator imprevisto está sempre presente, pois a natureza “é imprevisível”. Reconhece haver conflitos entre a intenção e o que o material permite e é ai que reside a sua busca em potencializar ao máximo suas possibilidades. Somente quando a artista se sente confortável com o diálogo entre o material e a técnica é que dá por terminada uma obra e a libera assinada para alguma galeria ou exposição.
Seu trabalho está citado em vários livros como o “Contemporary International Basketmaking”de Mary Butcher, em “Contemporary Japanese Sculpture onde a autora Janet Koplos afirma que o trabalho de Hisako Sekijima “não pode ser visto física ou conceitualmente a não ser como escultura.
Foi em 1980 que Hisako e o marido retornaram ao Japão depois de residirem nos Estados Unidos. Cheia de ideias e animada, passou a dar aulas na Escola Têxtil Kawashima de Kyoto e na Escola Kenkyujo em Tóquio. Tentava incutir nos alunos uma nova atitude em relação à cestaria japonesa e até hoje tem seguidores nessa trilha mais exploratória e muitos de seus ex-alunos chegam a expor seus trabalhos ao lado dos dela. No livro “Cestas, redefinindo volume e significado” Pat Hickman, ao se referir à maneira de Hisako de ensinar, esclarece que ela fazia seus alunos estudarem de forma muito cautelosa, sob um olhar menos antropológico e mais conceitual.
Em 1986 foi a vez de Hisako Sekijima publicar seu primeiro livro em inglês, Basketry: Projetos de cestas a chinelos de grama. O texto revela sua paixão pela compreensão em como abordar o material da natureza e sua capacidade de articular o seu pensamento. Em 2001, depois de ter morado um ano na França, a artista fez a curadoria dos participantes japoneses para uma exposição em Connecticut nos Estados Unidos chamada “Japão: sob Influencia. No texto de apresentação ela instiga uma comparação entre as cestas contemporâneas e as cestas de bambu sem função específica, aquelas que examinam e propõem uma nova atitude em relação ao material. Fala da maneira como estas cestas são criadas e as questões confrontadas pelos artistas que seguem os velhos ou os novos caminhos. Mostra a importância de focar a energia no trabalho que engloba uma postura ao mesmo tempo cerebral e emocional. Talvez seja essa, a combinação que faz com que Hisako Sekijima se distingua como artesã, escritora e curadora. E o que a transforma definitivamente em uma artista plástica ditada pela natureza.
Articulada, Hisako Sekijima resume o seu trabalho: “Venho há anos explorando o potencial visual e filosófico da cestaria. Me interessa especialmente, de uma forma simbólica, como o movimento de linhas em volta de um espaço negativo estará redefinindo um volume e ao mesmo tempo incorporando o meu pensamento. Até uma simples forma geométrica como um cubo ou uma esfera podem se transformar em tipos diferentes de objetos. Sempre me surpreende que a materialidade de um galho de arvore ou de uma trepadeira possam se transformar num complexo sistema com uma linguagem própria minha depois de trabalhados com a minha maneira de conceitualisar a cesta e a cestaria