Maria Ignez Barbosa
 
           
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Textos e Entrevistas - HALL - ABIMAD
 
04 de agosto de 2015
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O FASCINANTE UNIVERSO DO TECIDO INDIANO



Dentre as colônias do Império Britânico, a Índia foi sempre considerada a “Jóia da Coroa”. Desde então, e até hoje, os ingleses se deixam encantar por tudo o que vem dessa terra exótica que tanto se orgulhavam de explorar e comandar com seus Governadores Gerais e Regionais, postos altamente cobiçado pelos políticos ingleses.
Desde os hábitos e os costumes dos Sultãos, Rajás e Marajás com suas imensas joias feitas com diamantes e pedras preciosas nas mais variadas cores que, sobretudo os homens ostentavam, até os tecidos pintados, os sits ou chintz, tudo os fascinava. Sem esquecer os xales bordados à mão que viraram a cabeça das mulheres na Europa como se pode ver em tantos retratos de damas pintados por famosos artistas do século 18 e 19.
Pois em Londres, no próximo mês de outubro, no Museu Victorian & Albert, terá início um Festival da Índia com o entusiasmado apoio da Good Earth, uma organização de design fundada em 1996 e que cultiva o que chama de Luxo Sustentável, e tenta manter viva a tradição e a herança artesanal da Índia e da Ásia.
O evento, que celebra os 25 anos da criação da Galeria Nehru, grande ala dentro do museu que abriga as mais importantes peças de arte Sul asiáticas produzidas no mundo entre o século 16 e o século 19. Ali estão alojadas preciosidades como a famosa escultura de madeira Tigre Tipu que, em tamanho real, mostra o animal devorando um europeu prostrado, preciosas pinturas da era Mughal e também o deslumbrante trono de ouro criado para o Marajá Ranjit Singh.
A exposição The Fabric of India ou O Pano da Índia, além de outra voltada para a magnifica joalheria da aristocracia dominante, será certamente uma das que mais vai atrair a atenção dos visitantes. É a primeira exposição sobre o tema a de fato ir fundo no estudo do incomparavelmente rico universo dos têxteis feitos a mão na Índia. Desde os primeiros fragmentos de tecido descobertos ainda antes de Cristo, até a moda contemporânea, ela vai ilustrar a maestria técnica e a criatividade dos tecidos indianos.
Estarão expostos 200 itens feitos à mão, desde preciosidades antigas, panos e roupas do dia a dia, banners de cerimonial, sáris contemporâneos, painéis sagrados, lenços bandana, e inclusive, logo a entrada, talvez a peça mais chamativa, a fabulosa tenda usada entre 1750 a 1799 pelo legendário regente do Reino de Mysore, Tipu Sultan. Para se ter uma ideia de seu volume, basta dizer que ela tem mais de 58 metros quadrados. E tem desenhos variados e magníficos em sua estamparia. A peça está sendo emprestada pelos atuais donos de Powis Castle, uma propriedade que no ano 1200 nasceu para ser uma fortaleza no País de Gales e onde ela pode ser vista parcialmente pelos visitantes. Será a primeira vez, em uma geração, que a tenda poderá ser vista inteiramente montada. E vai ser possível ter-se o prazer de nela entrar e de nos deixarmos envolver pelos detalhes nos contornos e pelos motivos florais do tecido. Como muitas das peças magnificas, esta tenda veio para Inglaterra, em posse Edward, o segundo Lord Clive e Governador de Madras, depois de ele ganhar a Batalha de Seringapatan em 1799 quando o exército do Sultão Tipu foi derrotado e muitos dos despojos foram “comprados” pelos britânicos como espólio de guerra.
Por meio dos mais fascinantes objetos de arte como um deslumbrante banner de parede do século 20, uma jaqueta ricamente bordada para uso na guerra no início do século 17, um dos mais finos exemplos da roupagem Mughal existentes, a fragmentos de lã do século 3 descobertos em escavações arqueológicas, vai se poder traçar a secular história da exportação do tecido indiano mundo a fora.
Vamos aprender sobre o material bruto e os processos por que passa a feitura à mão do tecido indiano. Estarão ali as fibras básicas da seda, do algodão e da lã, mostrando, além da tradição da manufatura, os recursos naturais do país. Logo de início saberemos como se dá o processo de tingimento com a tintura da romã, do índigo e sobre as intricadas técnicas da impressão com blocos, da tecelagem e do bordado através dos séculos.
Na Índia, é de praxe poder e devoção religiosa serem expressos por meio dos têxteis e a exposição vai mostrar como os tecidos eram usados na vida das cortes e no universo religioso. Para uso nos templos e santuários, o tecido tinha de ser da melhor qualidade possível e o seu tratamento feito à mão pelos melhores e mais aptos artesãos. Na mostra haverá exemplos como um tecido de 1570 que conta a história da deusa Vishnu, uma camisa do século 16 com talismã islâmico e com versos do Corão inscritos em tinta e pintura dourada e também uma cena da crucificação feita no sudoeste da Índia para uma igreja cristã armênia do século 18. Esta parte da mostra explorará também o grau de opulência, a escala e o esplendor dos objetos feitos a mão para os ricos e poderosos do século 17.
A histórica e a atual importância do têxtil para a economia da Índia é um dos focos de The Fabric of India. A prevalência do tecido indiano ao redor do mundo há milênios merece grande destaque. Fragmentos de tecidos ancestrais descobertos em diferentes regiões no mundo serão a prova da antiguidade dessa prática e se poderá notar como a habilidade dos artesãos permitia que adaptassem a técnica e os desenhos para o gosto de diferentes mercados. Um exemplo é um extraordinário pano de cerimonial de Gujarat, executado no século 14 para o mercado indonésio e tratado desde então como peça sagrada. Panos que circundavam as camas em palácios como a do Príncipe Eugene da Áustria estarão ali para mostrar como o algodão tingido era requisitado inclusive nas mais altas camadas da sociedade europeia.
Foi entre o século 17 e o século 19 que ficou mais evidente a popularidade do chintz produzido e estampado na Índia. Tanto era o sucesso na Europa das mercadorias de lá trazidas, que, mesmo com a proibição da importação por parte de alguns países, inclusive a Inglaterra, e a abertura de fábricas para industrializar o tecido localmente com a intenção de aniquilar a pratica no pais de origem no século 19, o artesanato do tecido indiano prosseguiu. O contrabando passou a ser praticado e, de um modo ou de outro, para sorte nossa, a extraordinária capacidade de produzir têxteis dos indianos está viva até hoje.
A exposição será inaugurada no dia 3 de outubro e deve permanecer em cartaz até 10 de janeiro de 2016. Há tempo, portanto, para uma fugida até o museu Victoria and Albert em Londres.