Maria Ignez Barbosa
 
           
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Textos e Entrevistas - HALL - ABIMAD
 
11 de dezembro de 2015
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AFINAL, O QUE É LUXO ?



São mil e uma as respostas que poderíamos dar à pergunta que foi título da exposição “O que é Luxo?”, que esteve em cartaz no Museu Victoria & Albert em Londres. Mais do prover apenas uma ou diversas defi nições de luxo, a ideia da mostra é estimular o pensamento e o debate em torno de um conceito totalmente abstrato. De acordo com as curadoras Jana Scholze e Leanne Wierzba, a defi nição do luxo não é fácil, mas certamente é muito mais do que objetos de vistosas grifes, de aviões privados como um dos 58 à disposição de Wladimir Putin, o Ilyushin IL-96, onde a cabine de seu poderoso ocupante tem acabamento de ouro trabalhado à mão por exímios artesãos de um antigo monastério. Excessos que, como lembra Stephen Bailey em artigo sobre o luxo no Daily Telegraph, podem engendrar catástrofes como o colapso do Império Romano que se seguiu a uma irrefreada busca por prazeres materiais. E é certamente bem mais do que Masserattis, Ferraris e relógios caros ostentados por seus donos novos ricos e que adoram usá-los como demonstração de riqueza.

Não necessariamente o luxo vem caracterizado pelo excesso. O sofi sticado decorador inglês Nicky Haslam prefere ver luxo no que chama de simplicidade encantadora: um pote com pêssegos brancos, uma pilha de bons livros e luz de inúmeras velas. Para muitos, o luxo pode estar em pequenas peças como eletrônicos ao alcance de muitos como certos produtos da Apple, no prazer de tocar um objeto de bomdesign, no manuseio de uma bela encadernação de livro ou apenas no encanto de encher os olhos na admiração de um objeto fora do comum. Dizia a grande esteta da moda, Coco Chanel, que luxo não é oposto de pobreza, mas sim da vulgaridade. Reconhecia, entretanto, que a demanda por experiências privilegiadas e de alta qualidade é constante. E é dela também a frase - “O luxo é uma necessidade que começa quando a necessidade termina”. Ideia que bate com o que pensa o historiador de arte Bernard Berenson, que vê o luxo como um dos setores da experiência humana que chamamos de “gosto”. E esse gostar surgiria quando o nosso apetite ou olhar é satisfeito. Stephen Bailey comenta ainda que o luxo pode ser melhor defi nido pela presença de positivos e não de negativos. Segundo ele, quem pode, muitas vezes viaja em primeira classe não pelo champagne grátis, mas para ter paz, sossego e conforto. Lembra que Henry David Thoreau, herói da contracultura, teve suas melhores inspirações enquanto vivia sozinho em uma cabana no meio da fl oresta. E diz que se luxo tem a ver com privilégio, então, neste nosso mundo agitado e populoso, o verdadeiro privilégio seria procurar o silencio, a limpeza e a propriedade no comportamento, no tato e nas boas maneiras.

Só que não há como fugir do fato de que uma excepcional capacidade de execução de uma peça é dado imprescindível de qualquer peça de luxo. Daí empresas como a Hermés terem tanto orgulho em mostrar não só como são fabricadas suas cobiçadas bolsas e foulards, mas também, como são produzidas as maravilhosas selas de montaria de couro moduladas em seu interior com fi bra de carbono e titânio e que unem excelência manual com tecnologia moderna.Ao expor objetos históricos e contemporâneos das coleções do V&A e do Crafts Council ao lado de projetos que especulam sobre o futuro do luxo, a exposição insiste em chamar a atenção para o papel dos hábeis artesãos e do investimento de, às vezes, 10 mil horas de trabalho para se atingir a maestria numa criação e no que ela transmite de valor. Além de interrogar, teve a intenção de expandir a compreensão do luxo apresentando exemplos excepcionais de desenho e artesanato contemporâneos ao lado de projetos conceituais que questionam a ideia fundamental do luxo, sua produção e tendências. Alí, mais de cem objetos como um enorme diamante, uma máquina que estoca o DNA, uma cruz eclesiástica de ouro maciço à vestimentas engalanadas de militares, que traduzem hierarquia, demonstraram como o luxo pode ser entendido por meio de sua forma física, aspecto conceitual ou cultural. Na primeira parte da mostra objetos defi nidos como luxuosos por causa da excelência do seu design e confecção. Peças que celebram o investimento em tempo e na dedicação à sua feitura como o Space Travellers’Watch, peça mecânica totalmente feita à mão pelo conhecido relojoeiro britânico George Daniels. Assim como um vestido todo recortado a laser da designer Iris van Herpen, um candelabro do Studio Drift feito com sementes de dente de leão aplicadas à mão sobre lâmpadas de led, a sela Talaris da Hermés mencionada acima, o colar Bubble Bath de Nora Fok, feito com mais de mil bolinhas de vidro unidas por um croché feito à mão e outras peças de distintas épocas e proveniências que são de fazer cair o queixo.

A justaposição dos mais variados objetos, às vezes de forma disparatada, é intencional. As peças são apresentadas com terminologia associada ao luxo de modo a focar em seus diferentes aspectos e permitir ao público a sua própria interpretação. “O que é Luxo?” também considera tempo e espaço como um aspecto fundamental na constituição do que seja luxo, especificamente no contexto urbano do século 21. A mostra, especulando sobre o futuro do luxo, apresenta uma série de designs e projetos de arte que interrogam a relação entre luxo, valor e materiais. O Studio Swine, por exemplo, com sua técnica Hair Highway coloca cabelo de seres humanos dentro de resina para criar peças de mobiliário altamente decorativas e também acessórios. E o rico acabamento de certos objetos presentes na exposição nos remetem a materiais valiosos, hoje raros, como a tartaruga, o marfim e madeiras exóticas.

De início associava-se o luxo a uma joia de pedras raras, design magnífico e metais dos mais preciosos. Vale lembrar os Faraós do Egito, os Marajás da Índia e as felizes usuárias de peças Van Cleef, Cartier ou Boucheron. Hoje, em tempos de fabricações tecnológicas, talvez o artesanato elaborado à mão e de qualidade volte a se tornar o verdadeiro luxo como em tempos imperiais de Luizes e Catarinas. Há quem acredite até que esta volta do manual e raro, mesmo que com linguagem moderna, seja uma reação contra o excesso que facilmente pode cair no mau gosto. O fato, porém, segundo Annie Warburton, diretora de programação criativa do Craft Council da Inglaterra, é que as marcas de luxo estão criando uma renascença industrial europeia. A constatação é de que apesar das crises econômicas e da recessão, na última década a indústria do luxo cresceu significativamente, o que só fez reforçar seu impacto e sua visibilidade.

Haverá quem se impacte com coisas feitas com a intenção de provocar deslumbramento. Outros se encantarão com o luxo da simplicidade de uma peça que por muitos pode passar totalmente despercebida. Ou para bem além disso. Fica a sensação de que nesse início de século em que vivemos, no campo do luxo está ocorrendo também uma visível transição do seu aspecto material para o âmbito imaterial. Mais que objetos únicos e excepcionais, experiências culturais, gastronômicas e vivências inesperadas ou como melhor passar o tempo, junto a conceitos abstratos de segurança e proteção são cada vez mais valorizados e tidos como luxuosos. Até uma experiência que poderia ser enriquecedora como a de se perder, por exemplo, estaria ficando rara devido aos GPS e Wases. É o que o artista plástico recém saído do Royal College of Arts, Marcin Rusak, tenta mostrar com seu trabalho Time for Yourself - um kit composto por um compasso que despacha o usuário em diferentes direções e que inclui também um cobertor para jornadas mais longas. Para muitos, dispor de tempo pode ser uma extravagância, ou melhor, simplesmente um grande luxo. Básica e essencialmente, como diz Jana Scholze, a questão é fundamentalmente pessoal.