Maria Ignez Barbosa
 
           
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Textos e Entrevistas - HALL - ABIMAD
 
12 de março de 2016
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BOTTICELLI RE-IMAGINADO



Sandro Botticelli viveu entre 1445 e 1510. Fez grande sucesso num ateliê em constante agitação. No entanto, ao contrário de seus famosos colegas renascentistas como Raphael, Tiziano, Leonardo da Vinci e Michelangelo, que desde então nunca deixaram de ser lembrados e consagrados, Botticelli foi esquecido durante trezentos anos. A razão? Mítico, freudiano ou surrealista demais? Pois foi em tempos vitorianos, quando virou uma paixão dos pré-rafaelitas, que ele voltou à moda e nunca mais saiu de cena. Hoje não é apenas visto como um cult da modernidade mas até mesmo como um artista moderno ou melhor pré-moderno.
É exatamente o seu fascínio e o alcance de sua influência no imaginário de artistas contemporâneos como Andy Warhol, David La Chapelle, Cindy Sherman, René Magritte, cantores como Bob Dylan, cineastas e designers do mundo da moda como Elsa Schiaparelli e Dolce & Gabana, o que impulsionou esta exposição atualmente na Gemalde Galerie em Berlim e que será inaugurada no dia 5 de março próximo, no Museu Victoria&Albert em Londres e que alí permanecerá até 3 de julho.
Na Inglaterra será a maior exposição do artista desde 1930. Incluirá pintura, moda, filme, desenho, fotografia, tapeçaria, escultura e gravura; um total de 150 trabalhos, sendo 55 obras do próprio Botticelli.
Segundo Martin Roth, diretor do V&A, “Sandro Botticelli é um dos grandes artistas do Renascimento e, 500 anos depois de sua morte, sua imagística fez um longo caminho para voltar a representar um ideal de beleza contemporâneo.” Na mostra veremos, através de obras ousadas e de vanguarda, como tem sido explorada as muitas sobrevidas do pintor medieval através da cultura popular. Ou seja como Botticelli pode ter se tornado uma figura cultuada ainda no século 21.
Um exemplo é o trabalho fotográfico de autoria de David La Chapelle, de 2009, considerado kitsch e opulento, batizado de O Renascimento de Venus, título que tranquilamente apropriou de uma obra de Botticelli. Foi para um tour da cantora e compositora Lady Gaga que a dupla Dolce&Gabbana criou para a artista um vestido inspirado naqueles que vestiam “ ou não” as retratadas do pintor medieval como Pallas Athena, Venus, Simonetta Vespucci e tantas outras. Estarão presentes também na exposição, a litografia “O Nascimento de Venus” de Andy Warhol e as fotografias de Rineke Dijkstra que retratam adolescentes adotando poses de Botticelli.
Durante a mostra se poderá ver um clip do filme de James Bond, Dr.No, de 1962, onde Ursulla Andrews emerge das aguas tal qual a famosa Venus de Botticelli. Teremos a oportunidade de escutar a canção de Bob Dylan, “Sad–Eyed Lady of the Lowlands” e também aquela onde o cantor explica como a “ Sobrinha de Botticelli “prometeu estar com o pintor quando ele pintasse sua obra prima “.
Uma das pinturas que poderá ser vista no V&A é aquela chamada Retrato de uma Dama conhecida como Smerelda Bendinelli ( c1470-5), comprada pelo pré-rafaelita Dante Gabriel Rossetti na Christie’s, em 1867, por vinte libras esterlinas. Segundo o jornalista Jonathan Jones, em artigo no The Guardian, este retrato, o único no acervo do V&A, bastaria para justificar a relação entre o número de obras e elementos expositivos aparentemente tão disparatados, com a obra do pintor renascentista e sua modernidade. “Não se trata apenas de um exemplo, entre tantos ao longo da história, de um retrato de mulher”. Chama a atenção o fato de os olhos da retratada olharem para fora da tela, de forma tão direta que, no passado, chegou a ser interpretado como um mau olhado ou malocchio na língua nativa de Botticelli. Teria provocado, em sua época, um verdadeiro medo do olhar feminino.
Um sentimento nada estranho aos homens nos dias feministas de hoje. E este quadro seria, em Botticelli Re-imaginado, o grande testemunho da afinidade de Botticelli com o mundo moderno.
Consta que Rossetti teria pago mais quatro libras para que esta hoje tão icônica tela fosse limpa. Durante muito tempo acreditou-se que ele próprio tivesse retocado o cabelo da retratada para que se tornassem vermelhos, como era do gosto dos pré-rafaelitas e o que viria a contrariar uma crença dos tempos medievais que associava o cabelo vermelho ao mal. Porém, nas pesquisas feitas para a exposição, ficou esclarecido, por meio da técnica de refletografia infravermelha, que tratava-se de um velho mito e que Rossetti decididamente não tocou na cor original pintada por Botticelli três séculos antes. Segundo Ana Debenedetti, curadora de pintura do museu londrino, é preciso esclarecer que o cabelo da retratada não seria de fato vermelho, mas teria um tom amorangado, ou seja, o que se costuma chamar de “louro veneziano”, muito comum no período. De qualquer modo é sabido que Rossetti adorava este retrato e que ele o inspirou na série que depois pintou de enormes telas de belas mulheres como a La Ghirlandaia, que hoje pertence à Galeria Guildhall e que foi cedida para a exposição.
Em vida, sabe-se que Rossetti tinha o retrato de Smerelda pendurado na parede de sua casa no bairro de Chelsea, exatamente quando o culto à Botticelli fervia. Daí talvez a razão de ser esta obra tão crucial para a mostra Botticelli Re-imaginado, que consegue, de forma extremante bem sucedida, documentar esta estranha relação entre a modernidade e um pintor do século 15. Sabe-se que antes de morrer, Dante Gabriel Rossetti vendeu a tela por 330 libras para seu patrono Constantine Yonides, então conhecido colecionador, que, por sua vez, a legou em testamento para o V&A em 1901.
Ainda segundo Jonathan Jones, mais do que um culto moderno, Botticelli poderia ser visto como um artista de fato moderno. Nós, inconscientemente o aceitaríamos como um artista que trata do nosso desconforto e da estranheza das coisas. E cita a frase de um texto de 1870, de autoria do crítico vitoriano Walter Pater, dizendo que as mulheres de Botticelli “são de certa maneira anjos, mas passando a sensação de deslocamento e de perda, ou seja um sentimento de exilio”. Uma sensação nada desconhecida de mulheres e – porque não também – de homens contemporâneos.
A vênus de Botticelli seria uma exilada, uma beleza triste entre as ondas, vivendo de certo modo entre o céu e a terra, se movendo em nossa direção assim como nós a ela. Ainda Jones, em seu texto, esclarece que a melancolia em seus olhos e a “sombra” sobre a beleza, é o que faria de Venus uma mulher moderna. Botticelli seria um surrealista do século 15, um artista capaz de transformar o sonho em realidade. Suas pinturas mostram os deuses pagãos em figuras vivas com uma intensidade ingênua que perturbam e invadem a imaginação de quem as fita. Consta ainda, segundo o artigo do The Guardian, que o artista teria desejado que algumas de suas pinturas como a conhecida Venus and Mars e também suas obras primas pagãs como a famosa Spring ( Primavera) fossem parar na National Gallery e ali atuassem como um mágico chamariz. Ainda segundo Jones, estes trabalhos podem causar no visitante um efeito real, como se a observação de uma obra de arte pudesse ter o efeito de nos atingir e nos transformar como pretende também a arte contemporânea. E lembra um poema de Rainer Maria Rilke onde o poeta conclama as pessoas a serem capazes de mudar suas vidas por meio do poder da arte.
Num mundo tão cheio de fundamentalismos como aquele em que vivemos hoje, Botticelli talvez se encaixasse feito luva com sua personalidade turbulenta e atrapalhada, ou seja, a mesma do homem moderno. Depois de criar suas sublimes visões do mito pagão, ele se tornou um seguidor do profeta revolucionário Savonarola. Rejeitou a beleza sensual e se dedicou a ilustrar a obra de Dante Alighieri.
Segundo ainda Jonathan Jones, o mundo muda e Botticelli muda com ele. “Seria o poeta de nossas almas exiladas“.