Maria Ignez Barbosa
 
           
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Textos e Entrevistas - HALL - ABIMAD
 
20 de abril de 2012
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Mestre da Simplicidade

Master of simplicity

Em São Paulo, em plenos Jardins, numa casa antiga com interior repaginado na Avenida Gabriel Monteiro da Silva, um novo showroom será inaugurado em maio próximo. É o famoso e bem sucedido designer francês Christian Liaigre, já entronizado no panteão dos grandes mestres do design no mundo, apostando no Brasil. E trazendo para nosso convívio seus moveis de linhas rigorosamente retas e nos quais o luxo se esconde atrás da pureza do design, da qualidade da mão de obra e está presente no esmero como são tratados o couro costurado na melhor tradição da selaria francesa e as madeiras exóticas escuras com que são confeccionados.
Apesar de nossa indústria poder se ressentir ao ver tantos designers e marcas se estabelecendo no Brasil, vale a nova e próxima vizinhança pela possibilidade de convívio com uma marca que transpira gosto e estilo e é um exemplo de como o verdadeiro luxo mora na simplicidade.
Christian Liaigre formou-se em Belas Artes em Paris no final dos anos sessenta. Aprendeu arte, cultura e sobretudo a valorizar o trabalho do artesão numa cidade que fervia culturalmente e colaborou como designer em algumas empresas como a conhecida Nobilis Fontan. No entanto, decepcionado com os movimentos politicos estudantis de 1968, foi viver no interior. Na região de La Rochele, proximo ao mar e às terras onde viviam seus pais, dedicou-se por dez anos à criação de cavalos. Em 1987, decidiu voltar a Paris e retomar o design em vôo solo. Tornar-se um decorador "total", ou seja, ao mesmo tempo mestre em arquitetura, criador e designer de moveis a maçanetas e ambientador de espaços ao mesmo tempo minimalistas e poéticos, deve-se muito ao esforço e talento próprios. Quando abriu seu estúdio, dispensando o supérfluo, impondo o cinza clarinho nas paredes, tons masculinos nos estofados e trabalhando com madeiras africanas, o look escandinavo louro e branco ainda era sucesso total em meio à decoração moderna na Europa e nos Estados Unidos.
Dois livros publicados em 2004 e 2008 e editados pela Flammarion e pela Thames and Hudson, trazem fotos de seus incontáveis trabalhos nos mais variados lugares do mundo e são um testemunho de como o bom design não envelhece e não se perde na onda do modismo. Não importa se iates no Atlântico ou no Mediterraneo; se enormes mansões em Genebra, Toronto ou na Galícia; se townhouses em Nova Yorque, lofts no Soho; se hotéis como o Montalambert em Paris e o Sereno em St.Barths, cabanas em Bora Bora, ou residências de famosos como Calvin Klein, Kenzo e Bryan Adam em qualquer lugar do mundo, o fato é que a griffe Liaigre parece ter vindo para ficar e se expandir. Em 2011 um grande showroom foi inaugurado em Nova Yorque e São Paulo será o outro único lugar fora da Europa a ter um grande espaço Liaigre.
Hoje, trabalhando com a mulher, Débora, e personificando o melhor do savoir faire et vivre frances, é membro do Cabinet Colbert, instituição-vitrine da excelência de seu país em matéria de criação e que reúne as mais importantes marcas do design, da joalheria e da moda da França.
Pode nos surpreender que o moderníssimo Liagre tenha como um de seus mitos Luis XIV, o criador de Versailles, o monarca que primeiro percebeu o poder da imagem e fez com que, invejosa e embasbacada, as cortes européias se voltassem para a criatividade, a beleza, e a qualidade do que fosse made in France. Na opinião de Liaigre o pico da criação está no Castelo de Versalhes: “É preciso lembrar que tudo o que foi inventado alí era totalmente moderno em seu tempo – o século 18. Antes ninguém tinha feito nada parecido . Tenho muita admiração pela criatividade que alí foi esbanjada.” E em entrevista recente que me concedeu para a Casa Vogue, fez novos comentários sobre o luxo: “O luxo é uma palavra engraçada já que às vêzes só o silencio pode ser um luxo supremo. Hoje as grandes marcas realçam o trabalho artesanal como um luxo enquanto que antigamente era simplesmente o amor ao trabalho bem realizado. Eu sempre procurei manter esse espírito de trabalho bem feito e que bebe na tradição francêsa do requinte e do bem fazer”.
O traço de Christian Liaigre, com roupagem minimalista e ao mesmo tempo estéticamente rica, teria mais a ver com o trabalho dos escultores Brancussi e Giacometti. “Minha aspiração é conseguir, como eles fizeram, atingir a poesia no design. Ou seja dizer o essencial com pouco.”
Há menos de dois anos o casal Liaigre e Deborah com o filho pequeno deixaram o apartamento onde moravam no Marais em Paris para viver numa casa do seculo 17 na Rive Gauche. “Minha nova morada surpreende mesmo a quem me conhece. Está longe de ser um loft minimalista. A marcenaria do século 18, os lustres, enfim a base, a estrutura dela é toda muito bela e autêntica. Não faria sentido fazer modificações. No entanto, de vez em quando, uma parede branca, rodapés pretos e um sofa preto podem rejuvenescer”.
Para férias, o casal possui uma cabana na ilha de St.Barths, totalmente aberta para o mar a cinco metros de distancia . E também mantém a casa grande na Ilha de Ré, proximo a La Rochele.
Ao contrário de quando trata dos projetos dos clientes aos quais se dedica minuciosamente, prefere deixar o proprio espaço de certo modo inacabado. Acredita que a decoração não deve ter a ver com moda e que, na maioria das vêzes, elementos decorativos supérfluos podem impedir uma natural integração do espaço. Atenção ao detalhe, à boa qualidade dos materiais e ao desenho específico de peças individuais e de acordo com a necessidade do cliente são fundamentais em seus projetos. Hoje em dia prefere fazer residencias: “Uma ligação íntima nasce sempre com os clientes. Já os restaurantes e hotéis tem de ser mais over design.”
Indagado sobre o segredo atrás da magia de suas criacões, respondeu que “um cozinheiro nunca revela as sua receitas”. Entretanto, não hesita em dizer que para que o cliente se sinta bem e identifique o novo ambiente como seu, o conforto é essencial e também o clima de serenidade decorrente da correta disposição das peças. “Procuro criar uma mágica, um refinamento e um equilibrio no interior das casas de meus clientes com a finalidade única de que sintam bem”.
Confessa que é no vazio gerado pela natureza e pelo mar que encontra a inspiração: “ As fontes de inspiração estão muitas vêzes ligadas à cultura e às raizes.” Muito copiado, diz não se importar: “A cópia é o preço do sucesso e só revela a falta de imaginação dos copiadores.” Para ele, a importância do gosto e da beleza é primordial. “É o que gera harmonia e bem estar. A estética era a qualidade mais importante em toda a civilização grega antiga”.