Maria Ignez Barbosa
 
           
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Textos e Entrevistas - HALL - ABIMAD
 
15 de junho de 2012
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Reinventando Idéias

Na decoração e no design, nem tudo é original. O segredo é saber reinventar as influências.

Mesmo parecendo nova, qualquer ideia há de ter sido antes pensada. Pode surgir do inconsciente, bem-vinda, aparecendo como novidade ou solução. Desde que o mundo é mundo artistas se deixam influenciar e buscam inspiração em criadores que admiram. E os designers estarão – ou pelo menos deveriam estar - a par da produção de seus colegas do presente e do passado. Dai a importância do conhecimento, de fuçar na história, passada e contemporânea do design e do décor. Não se trata de copiar ou imitar, mas de reinventar a seu modo e maneira e, acreditar no que se prega.
Costuma-se dizer que há dois tipos de designers. Aqueles que admitem terem sido influenciados pelos que vieram antes deles, e os que pretendem terem inventado o nunca antes pensado. A verdadeira mágica do arquiteto ou do decorador seria saber transformar influencias e coisas que viu e gostou em algo realmente original.
E como deixou dito Madeleine Castaing, a grande dama da decoração francesa que, com enorme ousadia reinterpetrava diferentes estilos, um pouco de passado e de nostalgia não faz mal. Permite que nos expressemos com coisas que vem do coração. E segundo Cecil Beaton, grande fotografo do século 20, queridinho da corte inglesa, e um especialista em beleza e sofisticação “somente um gosto muito individual pode de fato criar estilo ou moda. Se nada sai do lugar o olho deixa de enxergar. A mutação é o que cria a beleza e a força da moda”.
Sorte que temos livros e revistas para provocar ideias e contar de outros tempos, publicações que compilam interiores passados e emblemáticos, e que até hoje são influentes por trazerem, além de estilo e elegância, conceitos bem fundamentados. Os mais expressivos hão de ser de autoria dos que souberam ousar, dos que nasceram com talento, olhar apurado, o dom do gosto, e com faro para captar no ar tendências e desejos. É comum que em países ou cidades distantes e sem ligação entre si, uma mesma ideia surja ao mesmo tempo.
Seja ela considerada uma arte maior ou menor, o fato é que a decoração e o design são celeiro fértil desse vai e vem de ideias sob novas roupagens. Quem hoje pensar em usar tambores como mesinhas de frente ou de lado pode ficar sabendo que nos anos 40 eles já faziam parte do décor da residência dos Duques de Windsor em Paris. Almofadas em formato de cachorro, bordadas ou estampadas, não são hoje novidade, mas enfileiradas e ocupando todo o encosto arredondado de um sofá no quarto de Wallys Simpson denotavam a personalidade peculiar e o estilo dessa americana por quem o Rei Eduardo VII abdicou do trono.
A americana Elsie de Wolfe que, nas primeiras décadas do século passado, não conseguindo ser uma atriz, virou decoradora e ficou conhecida por ter levado do velho continente para seu pais de origem o estilo Versalhes ou Luis XVI, é um exemplo de saber usar o déja vu com originalidade. Ao tentar, nos Estados Unidos, eliminar da decoração de então, qualquer resquício do velho e pesado estilo vitoriano, pareceu estar introduzindo de forma revolucionária o chintz estampado, as treliças dentro de casa, os pés de laranjeiras em vasos quadrados de madeira, grandes extensões de espelho, listras e chinoiserie nas paredes quando na Europa esse estilo não era novidade. Já sua ideia de usar estampas de oncinha em almofadas e bancos, teria surgido no contato com um amigo que pintava zebras, leopardos e girafas. Nas primeiras décadas do século XX ela ousou a estampa selvagem no assento de uma cadeira de lucite, uma espécie de acrílico, então uma grande novidade da tecnologia.
Seu colega de profissão, o inglês Robsjohn Gibbing , soube “reinventar” o móvel grego a partir de desenhos de vasos antigos que costumava ver no British Museum e criou nos Estados Unidos uma linha que até hoje é produzida na Grécia. Dizia com ironia que Elsie teria impedido o avanço das tendências modernizadoras no novo continente. Mais fácil acreditar que o sucesso de Elsie se deveu ao fato de estar no lugar certo na hora certa, e que, com sua originalidade e gosto apurado deu aos americanos o que eles então mais desejavam, ou seja, ganhar estilo e ares europeus. Obvio que o sucesso ou o poder de influencia de um taste maker há de variar. Andará de acordo com os desejos dos seus clientes por status, estar na moda, seguir tendências, ou ir na contramão do déja vu.
Jean Michel Frank, conhecido nos anos vinte por suas superfícies claras e o uso de materiais naturais como a palha, o pergaminho e o couro, nunca escondeu que foi uma milionária chilena de origem boliviana e radicada em Paris no século XIX, a bela e elegante Eugenia Errazuriz, a musa inspiradora de seu minimalismo. A ideia de um ambiente ascético e despojado como pano de fundo para peças antigas, Frank teria absorvido dela, assim como a mania de eliminar do ambiente qualquer objeto destituído de função. Teria aprendido também com ela que desde que a forma seja bela, não importa o valor do material.
Já Syrie Maughan, a decoradora conhecida nas primeiras décadas do século XX pelo look imaculado, ou seja, o branco total na decoração, deve a uma amiga inglesa que pintava de branco vasos de barro para neles plantar flores brancas, o estímulo nessa direção. Só depois de ouvir da amiga que deveria trocar as mesas de carvalho e os potes de cobre que tinha em casa por coisas mais leves e claras, e de ter recebido da amiga e de seu marido um financiamento para a sua primeira loja, foi que Syrie se impôs e ficou famosa por seus sofás de cetim branco, tapetes claros de lã e de pele de ovelha, luminárias de gesso branco e paredes e moveis espelhados.
Outra taste-maker famosa, a americana Nancy Lancaster que na Inglaterra soube tão bem personificar o “english country style” se divertia forrando belas cortinas de seda com tecido listrado pois, segundo ela “avessos são sempre desinteressantes e podem ser percebidos pelo lado de fora”. E quando se tornou sócia de John Fowler na famosa Colefax&Fowler, criou uma sala amarela que até hoje é visitada por decoradores a cata de lição e inspiracão. Rose Cummings costumava pintar ou revestir de lilás o interior das cúpulas de abajur, um jeito e modo de suavizar a luz. E só usava velas pretas. Já Albert Hadley, o decorador americano falecido este ano, inventou ou reinventou moveis de estilo oriental forrados de ráfia e mergulhados na laca colorida. Tal qual Billy Baldwyn antes dele, usou e abusou de paredes bem laqueadas e brilhosas. A inglesa Sybil Colefax gostava de cores “off”, como os verdes amêndoa, cinzas e amarelos opacos e preferia queimar ervas em potinhos a usar velas de cheiro. Bill Pahlman, que depois de Elsie de Wolfe, muito ajudou na formação de um look americano, se dizia o autor do “moderno barroco”. E nos anos oitenta, com cara de novidade, surgiram os neo-barrocos, ou novos bárbaros como a dupla Garouste e Bonetti, Eric Schmith ou André Dubreuil.
Charles de Beisteguy, o milionário espanhol que no início do século circulava entre Paris, Londres, Nova Iorque e Veneza com dinheiro e gosto pela fantasia, era capaz de recriar qualquer estilo. No seu apartamento em Paris desenhado por Le Corbusier, misturou estilo Napoleão III com candelabros em profusão e grandes blackamours com turbantes e plumas. Já em seu castelo no campo pintava e bordava, dava festas e mudava a decoração quando percebia estar sendo imitado.
A americana Pauline de Rothschild, com o auxílio do inglês John Fowler, inovou em seu apartamento londrino forrando cadeiras e criando cortinas com tecidos de cores diferentes cortados em quadrados ou faixas largas. Imitar hoje de alguma maneira essas cortinas com três abraçadeiras em alturas diferentes ou picotar em triângulos o tão comum voile branco são ideias que podem soar modernas e originais. Mais luz haverá certamente de entrar pelas janelas. Um exemplo do passado a “iluminar” o presente...
Como diz o cineasta português Manuel de Oliveira do alto de seus cem anos de idade, “A originalidade não consiste em tentar o que nunca foi feito. As coisas, na arte como na vida, se repetem sem serem exatamente as mesmas.